O que você faria para ter um corpo perfeito? Na busca pelos padrões de beleza ditos “ideais”, homens e mulheres colocam suas vidas em risco. Remédios proibidos no País, psicotrópicos e ervas milagrosas estão no topo da lista de opções daqueles que buscam maneiras rápidas de emagrecimento. No Distrito Federal, basta uma rápida pesquisa para que boa parte das fórmulas ilegais sejam encontradas nas farmácias. Muitas drogarias continuam, inclusive, dispensando receitas médicas. A facilidade é tanta que na internet, os anfetamínicos são os mais anunciados.

O resultado das compras, porém, pode ser desastroso, alertam especialistas. Muitas substâncias apresentam efeitos que vão desde surtos psicóticos até ataques cardíacos fulminantes. “Mesmo os remédios permitidos podem ter reações perigosas. Hoje, o único emagrecedor permitido pela Anvisa é a sibutramina, que, caso o paciente tenha histórico de problemas cardiovasculares, pode levá-lo a um AVC ou, até mesmo, um ataque cardíaco”, adverte a chefe do Núcleo de Gestão do Sistema Nacional de Notificação e Investigação em Vigilância Sanitária da Anvisa, Maria Eugênia Cury. Para ela, o ideal é a realização de exames médicos para confirmar se há impedimento para o uso do remédio.
Prescrição
A sibutramina funciona como inibidor de apetite e é indicada no tratamento de obesidade, vendida mediante prescrição médica. O comércio da substância passou por intensas discussões no País até ser mantido sob monitoramento da Anvisa. Por isso, o médico que prescrever a substância deve assinar um termo de responsabilidade. Entre os seus sintomas, estão o aumento da pressão arterial, elevação da frequência cardíaca, dores de cabeça, boca seca, insônia e prisão de ventre.
“Essa substância não pode, em hipótese alguma, ser vendida sem prescrição. Ela possui várias contra-indicações”, explica ainda Maria Eugênica Cury.
Experiência ruim mesmo com prescrição
Mesmo com a indicação profissional, algumas fórmulas podem ser perigosas. Adriana (nome fictício), 30 anos, sofre ao relatar sua experiência com os emagrecedores. “Um doutor me receitou um remédio manipulado e eu fiz. Em determinado momento do tratamento, simplesmente surtei, não falava nada com nada, quase fui internada como louca”, conta.
O que a professora chama de “surto psicótico” foi uma reação da fórmula que a fez perder quase dez quilos. “Tenho medo de ter tudo novamente. Nunca mais tomo essas coisas. Eu poderia ter morrido”, diz. Emagrecer é difícil, reconhece Adriana, e “com o remédio fica mais fácil”, observa. Hoje, ela frequenta a academia e vai ao nutricionista em busca do objetivo de emagrecer. “Na época, não estava feliz com meu corpo. Aí, emagreci até ficar seca. Sempre fui gordinha e queria ficar magra”, conta.
antidepressivos
O perigo dos psicotrópicos corre solto pela cidade. De acordo com a Anvisa, outros medicamentos, como antidepressivos, que controlam a ansiedade e podem ajudar na perda de peso, são líderes de venda. Enquanto em 2009 foram vendidas no DF 4,91 caixas de Rivotril para cada cem habitantes, em 2011 esse índice pulou para 7,4 – um aumento de mais de 57%. A fluoxetina, também utilizada no tratamento de transtornos mentais, teve crescimento de 83% nas vendas.
“Antigamente, as farmácias trabalhavam com um livro de controle da venda dos medicamentos. Hoje, essa ferramenta foi substituída por um sistema eletrônico, e o farmacêutico deve informar ali todo o tipo de psicotrópico comercializado. E aí encontra-se o nosso maior problema de controle. Porque se eles não colocam lá, se não for por meio denúncia, não temos como saber que a drogaria está vendendo algo proibido ou sem receita médica”, esclarece Maria Eugênia Cury, do Núcleo de Gestão do Sistema Nacional de Notificação e Investigação em Vigilância Sanitária da Anvisa.
Anvisa e polícia atuam
Caso algum cidadão faça a denúncia de venda ilegal, a Anvisa informa a Polícia Civil e ambos os órgãos vão até o local averiguar. “Aí nós vamos fazer ação fiscal, sanitária e de polícia”, completa Maria Eugênia Cury, da Anvisa. Em uma pesquisa de duas horas, a equipe do Jornal de Brasília ligou para sete farmácias da região em busca de Dualid S (Anfepramona), um dos remédios proibidos, e quatro delas confirmaram a venda deles.
Por telefone, as atendentes informavam o preço, as formas de pagamento e o tempo de entrega. Quando questionados sobre a necessidade de receita médica, respondiam: “o motoboy busca”. Mas a tele-entrega de psicotrópicos é ilegal. “Medicamentos tarja preta não podem ser vendidos por telefone. É vetado por lei”, afirma Maria Eugênia.
Comércio na internet
Em páginas e sites de relacionamento da internet, como o Facebook, a venda dos remédios acontece livremente. Mas, de acordo com a Anvisa, apenas 20% deles são verdadeiros, o resto é apenas farinha. Para os comerciantes, porém, a rentabilidade é garantida, já que muitas pessoas acabam recorrendo às substâncias, principalmente perto do verão, quando começa a corrida pelo corpo perfeito. Para o diretor-geral da Polícia Civil, Jorge Luiz Xavier, esse tipo de venda é o mais difícil de ser controlada, apesar das investigações.
“A gente está apurando as denúncias. Mas é muito complicado de identificar os responsáveis. Normalmente, quem recebe o dinheiro das vendas é um “laranja”. Além disso, muitos sites se hospedam fora do País. Por isso, é muito importante a colaboração dos denunciantes”, indica o diretor.
Ainda não há, por parte da corporação, levantamento que indique quantas pessoas já foram presas por esse tipo de crime.
Venda livre na internet
No Facebook, um grupo foi criado especialmente para o comércio das substâncias ilegais. Quase 3 mil usuários curtem a página que oferece, entre outras coisas, anfepramona e fenproporex. O chamado “kit” com três frascos do produto é anunciado pelo preço de R$ 300. Os interessados devem enviar e-mail para o endereço indicado na página. Várias pessoas demonstram interesse e chegam a fazer perguntas sobre as formas de pagamento.
Assim começou a história da jornalista Fátima (nome fictício), 26 anos. Por meio de alguns amigos, ela teve acesso às vendas e comprou vários produtos que prometiam emagrecimento rápido e sem problemas. “Comecei tomando termogênicos, o lipo 6 black. É proibido no Brasil. Dava palpitação, calor excessivo, fraqueza, estresse. Era muito forte. Tomei um mês e parei”, conta a jovem.
A segunda tentativa de emagrecer sem maiores esforços foi por meio das chamadas “bombas”. Fiquei seca e marombada. Mas minha voz engrossou e enchi de espinhas”, relata a jornalista. Depois disso, Fátima decidiu “perder peso sem roubar”, como ela mesmo diz. Hoje, fica quase três horas malhando e cuida da sua alimentação. “Como salada, frutas, proteína, iogurte natural, ovos e por aí vai. Já perdi nove quilos em três meses”, comemora.
Procurada, a Associação Brasileira de Farmácias (Abrafarma) não se pronunciou sobre o assunto. A Secretaria de Saúde do DF não possui dados concretos sobre a quantidade de consumidores dos remédios que inibem a fome.
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