Medo e insegurança são sentimentos que acompanham quem precisa enfrentar um parto prematuro. É um momento desafiador e que, muitas vezes, representa uma batalha pela vida. Com o objetivo de minimizar os danos físicos e psicológicos causados pelo nascimento precoce, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) adota uma série de estratégias para um atendimento eficiente e humanizado. Entre elas, destaca-se o método canguru – um plano de cuidado integral para fortalecer a saúde e o desenvolvimento dos bebês.
Os benefícios são vários, como favorecimento do vínculo entre mãe e filho, diminuição do tempo de separação e estímulo do aleitamento materno. “No Brasil, é uma política pública para os bebês considerados de risco. Por exemplo, aqueles que passam pela unidade neonatal ou por cirurgia”, explica a fisioterapeuta e tutora do método canguru no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), Letícia Narciso.
Para ampliar a técnica na rede pública local, a SES-DF instituiu uma comissão inédita de promoção do método canguru para normatizar, monitorar e subsidiar as políticas e os programas de apoio ao método canguru. A iniciativa é pioneira em todo o país.
Surpresa, batalha e superação
Quando Jécita Pereira se preparava para mais uma consulta de pré-natal às 25 semanas de gestação, ou seja, cerca de seis meses, não imaginava que seria a última. Ela recebeu o diagnóstico de diabetes gestacional e começou a sentir os primeiros sinais de que algo sairia do planejado. Em menos de 24 horas, sentido piora nos sintomas, decidiu ir para o Hospital de Samambaia, onde chegou já com 9 centímetros de dilatação.
Por conta da baixa idade gestacional, Jécita foi transferida para o Hospital Regional de Taguatinga (HRT). Apesar da mãe ser monitorada e tomar medicações para inibir o parto, Benjamim nasceu pesando apenas 750 gramas na tarde seguinte à internação, em 23 de julho deste ano. O pequeno foi imediatamente levado à Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (Utin) e iniciou uma jornada que a mãe guarda viva na memória: “Assim que ele nasceu, me mostraram. Ele era muito pequenininho.”
Etapas do método canguru
A internação do bebê na Utin, além do diagnóstico de gravidez de risco, corresponde à primeira etapa do método canguru. A partir desse momento, é incentivado o livre acesso dos pais ao prematuro e também orientada e estimulada a participação dos genitores nos cuidados. “As mães participam ativamente no toque e no diálogo, além de realizarem a extração manual do leite a ser ofertado”, pontua a fonoaudióloga e tutora do método canguru no Hospital Regional de Taguatinga (HRT), Caroline Ribeiro.
Por isso, após se recuperar do parto, Jécita passou a visitar o filho a cada três horas. “Eu gostava de ir na hora dele comer para que ele me associasse à alimentação”, conta. Benjamim se fortaleceu e os profissionais indicaram que era hora de mais um passo: aproximar mãe e filho por meio da posição canguru. Nessa etapa do método, o recém-nascido de baixo peso é mantido em contato pele a pele, na posição vertical, junto ao peito dos pais com o auxílio de um tecido que é amarrado envolvendo o bebê e o genitor.
“Eu estava insegura. Então, me orientaram a trabalhar isso na minha mente e a dizer para mim mesma que era algo bom pra ele”, recorda a mãe. Durante uma semana, ela recebeu suporte e apoio da equipe da Utin do HRT, que possui tutores treinados para orientar e promover o método canguru. “Fiquei tensa, com medo de deixá-lo cair, mas queria ficar o máximo possível com ele. A felicidade em tê-lo nos meus braços foi indescritível. Chorei muito”, recorda emocionada.
Depois de 57 dias, mãe e bebê foram liberados para a segunda etapa do método canguru que corresponde aos cuidados na Unidade de Cuidados Intermediários Canguru (UCINCa). Nesse momento, os dois ficam juntos em tempo integral. Isso é possível porque essas unidades possuem infraestrutura para acolher mãe e filho no mesmo ambiente, 24 horas por dia, até a alta hospitalar.
A essa altura, Jécita se sentia cada vez mais confiante e utilizava a posição canguru com ainda mais frequência. “[O contato 24 horas] fortalece os laços familiares e a mãe adquire segurança em relação aos cuidados, o que permite a alta”, explica Caroline. Seguindo todo o protocolo, em 17 de outubro, Jécita e Benjamim estavam prontos para ir para casa. Foram 84 dias de internação até o início da terceira e última etapa do método canguru e uma nova vida para a família.
Nesta última fase, o bebê continua sendo acompanhado pela equipe do hospital e da Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência. O primeiro retorno ocorre após 48 horas da alta hospitalar, e as demais consultas são realizadas, no mínimo, uma vez por semana.
O acompanhamento ambulatorial compartilhado é assegurado até o bebe alcançar o peso de 2.500g e 40 semanas de idade gestacional corrigida, ou seja, a contagem é feita como se o nascimento tivesse ocorrido na época esperada. “Ao atingirem este marco, os bebês são encaminhados para os ambulatórios de seguimento ou de reabilitação e para o atendimento especializado, caso necessário”, acrescenta a fonoaudióloga do HRT. Hoje, Benjamim – que segue ganhando peso e tem quase dois quilos – passa por avaliação semanal na sua UBS de referência.
- Foto: Divulgação
- Foto: Divulgação
Especialização
As equipes das unidades de neonatologia dos hospitais do DF são formadas por médicos, enfermeiros, técnicos, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. Parte da equipe possui formação como tutores do método canguru. Atualmente, o DF conta com 48 tutores ativos.
?Os servidores fazem cursos e oficinas de sensibilização, que consideram diversos aspectos durante o cuidado do recém-nascido. “Anualmente ofertamos vários cursos para formar os profissionais que trabalham nas unidades. Trabalhamos em rede, com os tutores e hospitais se ajudando. Não trabalhamos sozinhos”, explica a fisioterapeuta do Hmib e tutora, Letícia Narciso.
O trabalho conjunto garante um melhor desenvolvimento dos bebês. “Vários fatores contribuem para a recuperação do prematuro. Estudos já mostram que controle de ruídos e da luminosidade, por exemplo, interfere no desenvolvimento cerebral”, exemplifica a coordenadora da Política de Aleitamento Materno no Distrito Federal, Mariane Borges.
“O carinho e o amor vão além do trabalho. Os profissionais sempre me instruíram e impulsionaram. Aprendi muito com eles, perdi o medo de pegar Benjamim no colo”, elogia Jécita sobre a importância das equipes. “É um trabalho incrível, intenso e doloroso ao mesmo tempo. Inúmeras foram às vezes que chorei ali [na UTI]. Sou extremamente grata pela vida e dedicação de cada um deles”, acrescenta.
Com informações da Agência Brasília

