Ingrid Soares
ingrid.soares@jornaldebrasilia.com.br
Não está fácil para ninguém. A poucos dias das celebrações e com o apoio incerto do governo, as vias-sacras do DF driblam como podem o momento da crise.
Em Planaltina, a Via-Sacra ocorre há 43 anos, conta com 1,4 mil membros da comunidade e é uma das mais tradicionais da cidade. No ano passado, foram destinados R$ 500 mil para a realização do evento, que contou com mais de 150 mil espectadores.
A perspectiva da coordenação é de que o valor liberado seja o mesmo. Com ações de arrecadação como vaquinhas e pedágio, foram recolhidos R$ 2 mil. Segundo a coordenadora-geral do grupo de Planaltina, Maíra Vieira, o montante que a Secretaria de Cultura liberava foi reduzido pela metade. Antes, a ajuda era de R$ 1 milhão.
“Vemos esse cenário com muita preocupação. O próprio governo reconheceu a Via-Sacra como um bem cultural e, desde 1986, a celebração faz parte do calendário oficial. Temos que nos virar para manter a qualidade com metade do valor. Tivemos cortes inevitáveis nos figurinos, aproveitamos o que temos e contamos com o apoio da Secretaria de Cultura para som, iluminação, segurança e banheiros químicos. Mas toda ajuda é bem-vinda”, afirma.
Em São Sebastião, a Via-Sacra é apontada como a segunda maior do DF. A coordenadora de comunicação e eventos Amanda de Oliveira Rodrigues relata que aguardam liberação da verba do GDF.
“Estamos na expectativa do processo do GDF e, mesmo assim, deve ser um valor abaixo do que precisamos. Reaproveitaremos os figurinos, fazemos rifas e contamos com pequeno patrocínio de comerciantes. São Sebastião tem um déficit cultural grande, e são poucos os eventos culturais, religiosos ou não. Apesar das dificuldades, vai ter Via-Sacra”, garante. A previsão é de que cerca de 20 mil pessoas acompanhem o evento.
Sobradinho II
A situação do grupo de Sobradinho II é bem parecida. A estrutura foi reduzida em 20%, e a paróquia tenta, por meio de um site de vaquinha, angariar doações. O site recebe contribuições a partir de R$ 1 no cartão de crédito e boleto.
Do objetivo de R$ 7 mil, até agora R$ 330 foram arrecadados. O prazo para doação online acaba na segunda-feira, e o valor arrecadado ajudará, por exemplo, na compra de tecidos para confecção dos figurinos. A paróquia procura patrocinadores e investiu em vendas de camisetas com motivos da Via-Sacra e lanches após as missas.
“O apoio do governo está comprometido com o corte de gastos. Foram feitas duas emendas parlamentares, mas apenas uma foi aprovada no valor de R$ 50 mil e ainda está em trâmite. A questão da estrutura a administração sempre apoia. Sabemos da importância da evangelização e não vamos deixar de fazer. Somos a maior atividade cultural local. Estamos crescendo e precisamos de verba”, afirma Diogo Faria, assessor de comunicação da Paróquia São José Esposo de Maria.
Faria explica que é realizado um trabalho de patrimônio, e não é permitido aos participantes que levem os figurinos para casa. Também houve corte nos alambrados e na cenografia.
“Antes enfeitávamos e cobríamos toda a área com madeiras e tinta, mas agora decoramos apenas cada um dos ambientes que serão utilizados. Fizemos também um enxugamento de tendas e banheiros químicos. Na questão do aterramento, até agora só temos a terra porque não existe cooperativa para fazer o transporte, pois o GDF cancelou o contrato. Corremos contra o tempo”, diz.
Reutilização de figurinos
O coordenador do Recanto das Emas, Fabrício Silva, participa há 16 anos da Via-Crúcis. Para ele, 2016 está sendo o ano mais difícil. Para custear os gastos, seriam necessários R$ 35 mil e, por enquanto, contam com apenas R$ 20 mil. Uma saída encontrada foi disponibilizar um muro da paróquia para comerciantes que quiserem anunciar e ajudar.
As roupas utilizadas serão as mesmas do ano passado, e as que precisarem de um pouco mais de elaboração serão confeccionadas pelos próprios atores. “Temos parte da estrutura contratada e conseguimos patrocínio de alguns comerciantes que fizeram preço mais em conta. Mas estamos passando por um sufoco. Não podemos deixar de fazer e nos esforçamos por amor. Eu mesmo estou praticamente morando na paróquia, correndo atrás de ensaios e preparativos, mas está difícil”, comenta.
Segundo Viviane de Souza, coordenadora da Via-Sacra do Cruzeiro Novo, Sudoeste e Octogonal, a celebração nunca contou com patrocínio externo, mas com grande apoio da comunidade. Apesar de sentirem no bolso, ela garante que a Via-Sacra vai para a rua com tudo o que tem direito.
“Observamos o aumento nos preços de som e aluguel de tendas. Está tudo muito caro. Mas sairemos como sempre. Aproveitamos os talentos, e os próprios jovens ajudam na confecção das roupas, marcenaria, e também usamos restos de obra da paróquia. Encontramos muita burocracia e, apesar das dificuldades de apoio, temos conseguido driblar as adversidades”, aponta Viviane.
No ano passado, o público foi de 2,8 mil pessoas, e a expectativa para este ano é de que cerca de 3 mil compareçam.
José Ivan de Sousa, coordenador da Via-Sacra de Ceilândia, ressalta que, se contassem apenas com a ajuda do governo, não teriam êxito.“É tudo adaptado e improvisado de outros anos. Estamos nos virando, recuperando o figurino e realizando compras mínimas. Fazemos ‘caixinha’ e bazar. Se dependêssemos apenas do governo, a gente não conseguiria. Ainda falta montar o cenário, mas acredito que vai dar tempo”, finaliza.
Segundo a Secretaria de Cultura, o apoio às vias-sacras ainda está em definição e não há como adiantar como será a participação da pasta nos eventos.
Saiba mais
Na Via-Sacra, os cristãos ao redor do mundo celebram a importância de Jesus Cristo, enfatizando o caminho que percorreu por obediência a Deus. É feita uma reconstituição religiosa para lembrar o sofrimento de Jesus Cristo durante sua missão redentora.
A Via-Sacra é uma maneira que os fiéis têm de percorrer mentalmente o mesmo caminho até o monte Calvário. Essa maneira de meditar teve origem no tempo das Cruzadas. Os fiéis que peregrinavam na Terra Santa e visitavam os lugares sagrados da Paixão de Jesus continuaram recordando os passos da via dolorosa de Jerusalém.
Serviço
Para ajudar as paróquias que passam por dificuldades, a comunidade pode entrar em contato por telefone. São aceitas doações de tecidos, materiais de construção, alimentos e ajuda financeira.
Planaltina: 7400-6283 (Maíra)
São Sebastião: 8611-3984 (Amanda)
Sobradinho II: 9198-9336 (Diogo) / www.vakinha.com.br/vaquinha/via-sacra-sobradinho-ii
Recanto das Emas: 8553-0770 (Fabrício)
Cruzeiro Novo/Sudoeste: 8239-4700 (Viviane)
Ceilândia: 8462 3555