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Brasília

Crianças encontradas no lixão foram encaminhadas a abrigo pelo Conselho Tutelar

Arquivo Geral

17/09/2014 7h00

A primeira coisa que o menininho perdido de três anos contou a Elton Ferreira, eletricista de 39 anos, foi que a mãe era usuária de drogas. “Era depois da meia noite e os cachorros começaram a latir. Saí de casa e vi o gurizinho na porta. Chamei a polícia e fiquei conversando com ele até chegarem”, relatou o morador de Parque Mingone II, bairro do Jardim Ingá, distrito de Luziânia (GO), na Região Metropolitana do DF.

A criança foi abandonada, junto ao irmão de cerca de seis meses, em uma rua com chão de terra batida, perto do que os moradores chamam de “Lixão do Umuarama”. O menor teria  caminhado até a casa de Elton, em busca de ajuda, deixando o irmãozinho para trás. 

O eletricista vasculhou a propriedade em busca de sinais de invasão, mas nada viu. Chamou a polícia por volta da meia-noite. “A viatura não conseguiu localizar minha casa. Aí da segunda vez que liguei, vieram em dez minutos. Eram quase 3h já”, disse. Ele não quis deixar o garoto entrar, a princípio, pois a região é afastada da cidade, e ficou com medo de sua generosidade atrair alguém perigoso para a propriedade, mas também não o permitiu continuar vagando.

Bebê

Por volta das 6h, a Polícia Militar   teria localizado o bebê, a 200 metros da residência de Elton, envolto em panos, ao relento. Duas fraldas, uma Bíblia e um cachimbo estavam   dentro de uma bolsa.

De acordo com o sargento Souza Alves, a mãe das crianças seria usuária de crack, mas ainda não se sabe sobre seu paradeiro. “O bebê estava no matagal sem nenhum ferimento. Levamos ele e o irmão ao hospital, mas nada foi constatado”.

Ele disse que, apesar da gravidade da situação, tudo indica não ter havido   maus-tratos. A mãe, inclusive, parece ter sido cuidadosa antes do abandono, pois as crianças estariam de banho tomado e alimentadas. O bebê estaria de fraldas trocadas e vestido com um macacão rosa quando foi achado.

A enfermeira que atendeu o irmão mais novo confirmou a informação. “Não havia sinais de agressão nem desidratação. Tanto é que o médico avaliou o bebê e já encaminhou ao Conselho Tutelar”, disse a funcionária do Hospital Regional de Jardim Ingá.

Outros integrantes do corpo médico disseram, também, que o menininho era “esperto” e só teria chegado ao local com sede de leite.

Notícia comove  a vizinhança
 
“Já tinha visto lixo de tudo quanto é jeito ser jogado por aqui, mas gente jogada fora eu nunca tinha visto”, comentou a catadora Maria Helena Vieira, de 64 anos, que mora no Jardim Umuarama e caminha ocasionalmente pelo lixão. “Ainda por cima, aqui é super perigoso, especialmente de noite. Meus filhos dizem para eu tentar não vir aqui depois de o sol descer”, horrorizou-se a senhora.
 
Carrinho
 
Reação parecida à do pedreiro Mário Francisco Bispo, de 50 anos, morador do Parque Mingone II. Ele ficou sabendo sobre o abandono por volta das 8h30, por meio de operários de uma obra do lado de sua casa, e correu para o local. “Quando cheguei lá, só tinha duas viaturas e as crianças já tinham sido levadas. Tinha um carrinho de bebê e um colchãozinho onde foram achados”, contou.
 
Mário é residente do Parque Mingone II, segundo o próprio, há pelo menos 24 anos. Ele diz ser a primeira vez que tem notícia de abandono nessa região, mas admite a presença de “gente estranha” nas imediações.
 
Mulher  “ganhou  o mundo”
 
O primeiro a entrar em contato com as crianças, Elton    tem medo de sair pelas ruas do bairro à noite devido aos usuários de drogas. “De uns meses para cá a situação piorou muito. Eles se encostam em um muro desse terreno baldio e até limpam o local para ficar  se drogando”, contou, indicando escombros ao lado de uma propriedade.
Ele disse que a mãe das crianças teria passado o dia   com os meninos no local onde foram encontrados. “Algumas pessoas até ofereceram água  a ela. Acho que passou a tarde     usando drogas”, sugeriu. “O menino  falou que a mãe tinha ‘ganhado o mundo’”, completou.
Os dois   foram encaminhados pelo Conselho Tutelar  a ao abrigo Sagrada Face, no Jardim Ingá. Uma funcionária do local informou que familiares visitaram as crianças. “A avó, o pai e o tio apareceram aqui mais cedo. Imagino que eles devem entrar na Justiça para ter a guarda dos dois”.
 
A assistente social do abrigo, Quédina Ferreira,  adianta que procedimentos devem ser tomados antes de os parentes reivindicarem os menores. “Temos que fazer um estudo social na casa para saber se essa família biológica não é cúmplice do que aconteceu”, explicou.
 
Segundo ela, os familiares   teriam sabido do caso pela imprensa. “Temos de ver muita coisa ainda. Pode ser que a mãe teve de deixar os filhos por uma situação mais séria”.
 
Memória
 
O caso remete à situação denunciada pelo JBr. em 28 de agosto. Sete irmãos – o mais novo com três e a mais velha com 18 – teriam sido abandonados em uma casa, em Planaltina, pela mãe, usuária de crack. A mulher teria deixado os filhos para morar com um homem também viciado. Eles foram levados a um abrigo.
 
Saiba mais
 
A assistente social que acompanha o caso acredita que, passadas as exigências legais e verificações quanto à capacidade da família para cuidar dos filhos, a situação dos meninos deve ser resolvida em poucos dias. Em entrevista a uma emissora de televisão, tanto a avó quanto o pai das crianças demonstraram desejo de criá-las. Até o fechamento desta edição, a mãe ainda não havia sido localizada pela PM.

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