
Joabe Rodrigues Duarte tem dez anos e uma convicção: é contra a descriminalizaçã o do aborto. “A exceção tem que ser em caso de estupro”, expressa-se, com certa dificuldade na pronúncia da palavra, o estudante do Centro de Ensino Fundamental 1, de Sobradinho. Seus colegas de turma não se intimidam e demonstram posicionamento sobre outras questões polêmicas, como legalização da maconha. “Sou contra porque não seria bom para o Brasil. Ia aumentar o número de viciados”, argumenta Kauã Fernandes, também de dez anos. Neste Dia da Criança, o JBr. deu voz a pequenos brasilienses, que, em tempo de eleições, contaram o que pensam sobre a política e diversos temas que vêm à tona devido ao pleito.
Outros três colegas se envolvem em discussão sobre a importância de votar. Maria Eduarda, de dez anos, acredita ser importante existir a opção de votar nulo, pois nem sempre o eleitor concorda com os candidatos possíveis. Joabe discorda, mas encontra apoio na fala de José Lucas Costa Souto, também de dez anos, que pensa ser necessário, sempre, a escolha de um “menos pior”.
Yasmin Alves, 11 anos, prefere pensar no presente. Entre Aécio e Dilma, ela se diz indecisa sobre em quem confiar. “O Aécio nunca foi presidente, então não temos como saber se vai ser uma coisa boa. A Dilma já foi e tem experiência, mas pode não ter sido tão boa”, pondera, pensativa. As cinco crianças se interessam pela situação política da cidade e do País por um motivo bem simples: é da conta delas.
Surpresa?
As opiniões, emitidas por jovens com tão pouca idade, podem impactar um cidadão desavisado, mas não são novidade para o instrutor dos meninos, Carlos Lima Campos, de 32 anos. Segundo o professor, as crianças se mantêm informadas por conta própria. “Muitas vezes os adultos não entendem a República e como funcionam os três poderes. Por conta disso, decidi introduzir o assunto em sala de aula. Eles se tornarão adultos mais conscientes”, explica o docente.
Não raro ele se diz surpreendido por um aluno que pergunta sobre delação premiada da Petrobras e a substituição de candidatura de Arruda. “A maioria vai até mesmo de encontro à opinião dos pais. Um estudante meu é mais preparado que muito eleitor de hoje em dia”, afirma Carlos, que levará os estudantes para participar da Câmara Mirim no dia 30 de outubro, uma iniciativa do Plenarinho, da Câmara dos Deputados.
Atentos às promessas
O estudante José Lucas Costa Souto, de dez anos, se incomoda com a quantidade de promessas não cumpridas pelos políticos ou pelas cumpridas somente em ano eleitoral. “Foi prometida uma creche perto de um posto de gasolina, no caminho de casa, nas eleições passadas. Só que ela ainda está em construção, porque começou a ser feita neste ano”, critica.
É a mesma reivindicação de Maria Eduarda, dez anos, só que em relação à saúde. “Fazem isso só para ganhar voto em ano de eleição. A UPA perto da minha casa começou a ser construída em 2014”, disse.
Educação
Todos compartilham uma preocupação em comum, a educação básica. “Estão falando demais sobre inflação, mas não estão olhando para as escolas. Nossos pais não deveriam ter que pagar para ensinar os filhos, deveria ser coisa do governo”, defende Kauã Fernandes, dez anos.
José Lucas, por exemplo, defende a obrigatoriedade do ensino em tempo integral aos alunos do Ensino Fundamental. “Muitas vezes, o professor não consegue passar todo o conteúdo porque não dá tempo”, justifica.
Prova disso é uma cobrança de Kauã em relação aos políticos eleitos neste ano. “Queria que ressuscitassem a Lei Rouanet. Porque emprestar dinheiro para alguém fazer uma coisa boa é algo muito bom para a sociedade”, explica.
A referida lei foi criada como forma de incentivar empresas a patrocinar eventos artísticos e culturais, mediante desconto de impostos ao fim do ano. No entanto, a legislação foi criada 13 anos antes de o garoto sequer nascer, o que demonstra conhecimento histórico do jovem estudante.