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Brasília

Crianças do DF discutem sobre as eleições dentro de sala

Arquivo Geral

12/10/2014 8h30

Joabe Rodrigues Duarte tem dez anos e uma convicção: é contra a descriminalizaçã o do aborto. “A exceção tem que ser em caso de estupro”, expressa-se, com certa dificuldade na pronúncia da palavra, o estudante do Centro de Ensino Fundamental 1, de Sobradinho. Seus colegas de turma não se intimidam e demonstram posicionamento sobre outras questões polêmicas, como legalização da maconha. “Sou contra porque não seria bom para o Brasil. Ia aumentar o número de viciados”, argumenta Kauã Fernandes, também de dez anos. Neste Dia da Criança, o JBr. deu voz a pequenos brasilienses, que, em tempo de eleições, contaram o que pensam sobre a política e diversos temas  que vêm à tona devido ao pleito.

Outros três colegas se envolvem em discussão sobre a importância de votar. Maria Eduarda, de dez anos, acredita ser importante existir a opção de votar nulo, pois nem sempre o eleitor concorda com os candidatos possíveis. Joabe discorda, mas encontra apoio na fala de José Lucas Costa Souto, também de dez anos, que pensa ser necessário, sempre, a escolha de um “menos pior”.

Yasmin Alves, 11 anos, prefere pensar no presente. Entre Aécio e Dilma, ela se diz indecisa sobre em quem confiar. “O Aécio nunca foi presidente, então não temos como saber se vai ser uma coisa boa. A Dilma já foi e tem experiência, mas pode não ter sido tão boa”, pondera, pensativa. As cinco crianças se interessam pela situação política da cidade e do País por um motivo bem simples: é da conta delas.

Surpresa?

As opiniões, emitidas por jovens com tão pouca idade, podem impactar um cidadão desavisado, mas não são novidade para o instrutor  dos meninos, Carlos Lima Campos, de 32 anos. Segundo o professor, as crianças se mantêm informadas por conta própria. “Muitas vezes os adultos não entendem a República e como funcionam os três poderes. Por conta disso, decidi introduzir o assunto em sala de aula. Eles se tornarão adultos mais conscientes”, explica o docente.

Não raro ele se diz surpreendido por um aluno que pergunta sobre delação premiada da Petrobras e a substituição de candidatura de Arruda. “A maioria vai até mesmo de encontro à opinião dos pais. Um estudante meu é mais preparado que muito eleitor de hoje em dia”, afirma Carlos, que levará os estudantes para participar da Câmara Mirim no dia 30 de outubro, uma iniciativa do Plenarinho, da Câmara dos Deputados.

Atentos às promessas

O estudante José Lucas Costa Souto, de dez anos, se incomoda com a quantidade de promessas não cumpridas pelos políticos ou pelas cumpridas somente em ano eleitoral. “Foi prometida uma creche perto de um posto de gasolina, no caminho de casa, nas eleições passadas. Só que ela ainda está em construção, porque começou a ser feita neste ano”, critica.

É a mesma reivindicação de Maria Eduarda, dez anos, só que em relação à saúde. “Fazem isso só para ganhar voto em ano de eleição. A UPA perto da minha casa começou a ser construída em 2014”, disse.

Educação

Todos compartilham uma preocupação em comum, a educação básica. “Estão falando demais sobre inflação, mas não estão olhando para as escolas. Nossos pais não deveriam ter que pagar para ensinar os filhos, deveria ser coisa do governo”, defende Kauã Fernandes, dez anos. 

José Lucas, por exemplo, defende a obrigatoriedade do ensino em tempo integral aos alunos do Ensino Fundamental. “Muitas vezes, o professor não consegue passar todo o conteúdo porque não dá tempo”, justifica.

Prova disso é uma cobrança de Kauã em relação aos políticos eleitos neste ano. “Queria que ressuscitassem a Lei Rouanet. Porque emprestar dinheiro para alguém fazer uma coisa boa é algo muito bom para a sociedade”, explica. 

A referida lei foi criada como forma de incentivar empresas a patrocinar eventos artísticos e culturais, mediante desconto de impostos ao fim do ano. No entanto, a legislação foi criada 13 anos antes de o garoto sequer nascer, o que demonstra conhecimento histórico do jovem estudante.

Aprendizado vem da vivência
 
Conhecido como “experimento de Bobo Doll”, um estudo dos anos 1960, conduzido por um psicólogo canadense, mostrou que crianças aprendem não necessariamente passando pelas mesmas experiências que os adultos, mas também observando as consequências dos fatos. Na Asa Sul, o jovem de 13 anos Pedro Nasser tirava suas opiniões do que via acontecer com a mãe, até sofrer na pele.
 
“Antigamente eu comprava cachorro quente a R$ 3,50. Agora está quase R$ 6. Percebo que isso é inflação”, diz o garoto, que também exemplifica quando a mãe não pode lhe dar um brinquedo ou agrado devido à alta dos preços.
 
Observador, Pedro prestou bastante atenção à campanha eleitoral deste ano e se interessou pelas propostas apresentadas pelos candidatos. “Ele assistia ao horário político e toda vez que surgia uma pessoa diferente na TV, ele perguntava: ‘esse é rouba’? Aí percebi que eu provavelmente estava comentando muito sobre o assunto”, revela a mãe, Adriana Faria Nasser, assessoria de imprensa de 43 anos.
 
“Ele tem uma noção da situação política por minha causa. Mas sempre conversei com ele que devemos saber em quem votar porque são eles quem cuidarão da cidade depois”, conta Adriana. 
 
O filho parece ter aprendido a lição, e inclusive ataca a falta de seriedade de algumas campanhas de  determinados candidatos. “Tem aqueles engraçadinhos, que só querem chamar atenção, fazer palhaçada”,  afirma.
 
Pedro diz que a experiência mais marcante foi quando se viu vítima de assalto, no caminho de volta da escola para casa. “Eu andava na ciclovia com alguns amigos e fomos abordados por três bandidos. Levaram meu celular”,  relembra o menino, que desde então não brinca na rua depois das 18h. Por conta disso, ele diz ter noção de que é preciso investir em segurança pública.
 
Cidadania política
 
A Câmara Municipal de Porto Alegre dedica uma página na internet sobre “como uma criança exerce cidadania política”. No site, é expressado que não é algo “exercitado somente na vida pública, participando do processo eleitoral por meio do voto”, mas também “nos pequenos atos”. 
 
Assuntos mais complexos são bem-vindos
 
Assim como os estudantes do CEF 1 de Sobradinho, política faz parte do conteúdo escolar ministrado pelo professor de Geografia da Escola Atual, em Águas Claras, Luciano Luiz da Silva. De acordo com o docente, os alunos costumam aderir bem a introdução dos assuntos complexos em sala de aula.
 
“Trabalho de uma forma que eles fiquem atentos à realidade e agucem o senso crítico. A ideia é não deixá-los alienados em relação ao assunto e inseri-los no contexto político atual”, explica o professor.
 
Para incentivar ainda mais a formação de opinião dos estudantes, Luciano, que tem turmas do 6º ao 9º anos, conta que instrui seus meninos, na faixa etária de 10 a 16 anos, a procurar uma reportagem sobre o cotidiano toda semana.
 
Dúvidas 
 
Segundo Luciano Luiz, “os alunos perguntam sobre Lei da Ficha Limpa, querem saber por que Arruda saiu e como se dá a substituição. Você trabalha passo a passo para não dar muita informação num primeiro momento, mas tem que prepará-los”, informa.
 
Na fala das crianças estão as motivações que devem se tornar a inspiração para que votem nas próximas eleições. Suas opiniões não são meras reproduções do que seus pais pensam e suas reivindicações são legítimas. Quem tem a ganhar com essa “brincadeira” muito séria é a sociedade, que terá uma juventude e posteriormente adultos engajados decidindo o futuro que eles mesmos foram preparados para desbravar.
 

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