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Brasília

Conic é alvo de disputa que vai da cultura à estrutura

Arquivo Geral

10/01/2016 7h30

Jéssica Antunes

jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

O Conic é alvo de uma disputa que vai da cultura à estrutura. De um lado, um livreiro que trabalha há mais de 30 anos, e faz parte da história do lugar, e, há 12, tem um sebo em um quiosque. Do outro, a necessidade imposta pela Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap) para que ele deixe o local para que obras resolvam problemas estruturais do prédio, que teve o subsolo interditado no início do ano. 

Ivan Presença, de 66 anos, tinha até o dia 1º de 2016 para deixar a banca de concreto redondo que parte de seus livros, revistas e quadrinhos preenchem. É o que dizia um documento enviado no início de dezembro pela Terracap após tentativa de regularização por parte dele. No papel, assinado pelo responsável pela Diretoria de Prospecção e Formatação de Novos Empreendimentos da agência, a informação é que chamadas públicas “sem prejuízo social e cultural” acontecerão. 

Findo o prazo, Ivan continua lá, e a Terracap diz negociar um novo prazo para a desocupação. De acordo com a empresa, o Quiosque Cultural está localizado em um dos três lotes de sua propriedade, e “a desocupação se faz necessária devido à necessidade de realizar obras para reforçar as estruturas das edificações. A revitalização trará mais conforto e segurança para quem circula pela região”, garante a empresa. E, segundo a administração do Conic, Ivan não paga para ocupar o espaço.

ESTRUTURA COMPROMETIDA

“O prédio está para cair. Existe um laudo da Defesa Civil desde 2000. Não podemos brincar porque a estrutura está muito comprometida. Estamos com os dois subsolos escorados. A situação é muito séria. Os prédios são importantes para o setor e, depois de 15 anos de descaso, a Terracap iniciará a recuperação estrutural. Conseguimos sensibilizar a atual gestão da empresa”, informou Flávia Portela, prefeita do Conic. 

O subsolo foi escorado no início do ano e passará, agora, pelas fases de laudos, projetos e obras. De acordo com a Terracap, a previsão de conclusão é fevereiro de 2017. Também foi realizado um termo de referência que, por meio de um processo licitatório, deve contratar o projeto executivo da reforma estrutural, que deve abrir licitação para os trabalhos.

“A execução dessa obra fica mais difícil com o subsolo escorado e com o restante do prédio em funcionamento. Todos esses procedimentos foram necessários para resguardar a segurança das pessoas que trabalham naquele local e por ali transitam”, ressaltou a Terracap.

Serviço

Ivan Presença sugere criar um aluguel social para livrarias e serviços no 

Distrito Federal. Para ele, seria possível ceder espaços inutilizados para empreendedores, que arcariam com água, luz e IPTU apenas. 

Os postos comunitários desativados da Polícia Militar, por exemplo, poderiam se transformar, segundo ele, em livrarias em todas as regiões administrativas. Para Ivan, seria transformar o que está abandonado em utilidade.

Despejo de um sebo de livros gera comoção

“Quero conversar com o Rollemberg porque a obra é no subsolo. Não precisa destituir isso aqui para fazer. Eu vou ficar, é o meu território. Não posso colocar tudo na sacola e ir embora. É o que eu sei fazer. Não tenho condições de alugar uma loja. Livro é produto que não dá retorno para isso. Quero regularizar isso aqui, que era abandonado. Funcionava como um dormitório para viciados. Eu que recuperei”, argumenta Ivan Presença. 

Quem não gostou nada dessa história de despejo são os frequentadores do Conic e ativistas culturais. Para manter Ivan ali, fizeram um abaixo-assinado online e uma manifestação em frente ao quiosque no último fim de semana. Com ações culturais, músicas e discursos, os participantes pedem a manutenção do que consideram patrimônio cultural de Brasília. 

Para o escritor Laurez Cerqueira, 60 anos, “há uma onda conservadora na cidade que é inimiga da cultura, da arte, da democracia”. Diz ainda que instituições culturais, como o Quiosque, não combina com o que eles querem. “É lamentável”, define Rafael Augusto, de 24 anos, que trabalha há dois no sebo. “Querem tirar para deixar abandonado, largado”, emenda. 

Não paga aluguel

Nem tudo são flores. Segundo Flávia Portela, prefeita do Conic, a estada de Ivan Presença causa mal-estar nos corredores do Setor de Diversões Norte por ele não arcar com encargos: “Quando assumimos a gestão, o Ivan vinha de problemas financeiros e pediu para ficar por dois meses. Isso faz 12 anos. Ele não paga aluguel, encargos. Os lojistas se sentem incomodados. Tenho dois abaixo-assinados sobre isso. O que eu pude fazer por ele, eu fiz. Acho que a Secretaria de Cultura poderia conseguir algum espaço para o Ivan trabalhar”.

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