Do luxo de Brasília ao inverso. Considerado na década de 1970 um dos principais redutos da elite da capital, agora o Setor de Diversões Sul, mais conhecido como Conic, sofre com a degradação. Em seu projeto original, Lucio Costa imaginou um espaço de convivência com livrarias, cafés, cinemas e teatros sofisticados. O retrato atual dos 15 prédios que formam o complexo, entretanto, pouco se parece com a ideia do urbanista. Igrejas, óticas e consultórios viraram o carro-chefe do local, que começa hoje a ser tema da série Bravo Resistente, do Jornal de Brasília.
“No plano original do Lucio Costa, o Setor de Diversões seria um só, de norte a sul, com blocos mais baixos, de três andares. A rodoviária seria escavada, não havendo subsolos nos Setores de Diversões Norte e Sul. Lucio Costa queria vielas e ruelas com teatros, cinemas bares, restaurantes, boates, ao nível do chão e ligado diretamente aos setores de hotéis”, lembra o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília, Antônio Carpinteiro, pesquisador do projeto urbanístico da capital.
Assim que foi construído, no início da década de 1970, o setor chegou a abrigar sedes de embaixadas. Por isso, afirma o docente da Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em sociologia Brasilmar Ferreira Nunes, o local atraía restaurantes e lojas mais sofisticadas. Contudo, “na medida em que as embaixadas erguem seus prédios e transferem suas atividades de rotina, o Conic começa um processo de esvaziamento e muda devagar o uso de suas instalações”, afirma o professor em artigo sobre o Setor de Diversões Sul, intitulado Elementos para uma Sociologia dos Espaços Edificados em Cidades: o “Conic” no Plano Piloto de Brasília.
A partir da década de 1980, o Conic ganhou traços de um centro comercial popular, bem distante do projeto de Lucio Costa. Hoje, dá para contar nos dedos os bares e cafés que sobreviveram no espaço.
De setor de diversões para setor de igrejas
Segundo a prefeita do Conic, Flávia Portela, é necessário interesse governamental para reformar o espaço. “Brasília precisa retomar suas características originais. Não temos mais espaço para amadorismos. Toda a cidade ganhará com esse projeto, com o Dulcina de Moraes outra vez em pleno funcionamento, os cinemas e os quase 50 auditórios que se encontram no setor”, diz.
Há pelo menos 20 anos, o Conic perdeu suas características originais, afirma quem trabalha no local. Apesar de manter a pluralidade de personagens e frequentadores, o espaço precisa de mais segurança e novas apostas culturais. “No período áureo, que foi a década de 1980, quando eu abri a Livraria Presença, que acabou fechando com a crise da classe média, o Conic era uma referência cultural. Eram, pelo menos, oito cinemas, dez livrarias e vários botequins. No lugar, assumiram as igrejas e óticas”, lembra o livreiro, dono do sebo Quiosque Cultural, Ivan Presença, 65 anos. Para ele, o Conic, em vez de Setor de Diversões Sul, virou o setor de igrejas: “Aqui era para ser um centro de convivência. Hoje, está desse jeito“.
Espaço perde seu glamour
Segundo o livreiro Ivan Presença, o glamour cultural do Conic foi uma das principais perdas ao longo dos anos. “Eram lugares bonitos, sofisticados. As melhores boates de Brasília estavam aqui. Os cinemas também. Se você viesse aqui aos sábados, iria encontrar todas as lojas abertas. Hoje não. O Conic se perdeu aí”, diz.
Sobre a má fama que o lugar sustentou durante anos, de “favorecer a prostituição”, Ivan é sarcástico: “Outros lugares em Brasília, menos visados e mais favorecidos financeiramente, como os Lagos Sul e Norte, têm muito mais profissionais do sexo do que o Conic teve em toda a sua história. E ninguém fala porque as de lá são, como dizem, prostitutas de luxo. O Conic tinha de tudo, não iria ter isso por quê?”, questiona.
Está melhor
O Conic mudou, sim. Mas mudou para melhor. Essa é a opinião de Josemar Rodrigues, 61 anos, dono de uma lanchonete do local há aproximadamente 30 anos. O senhor acredita que, nas décadas de 1980 e 1990, o espaço “estava jogado, tomado por prostitutas e traficantes”. Por isso, por mais que as vendas tenham caído, hoje, afirma, está bem melhor.
O paraibano de fala grossa afirma que lidava diariamente com o medo de ser assaltado. Agora não. “Você pode rodar aqui de dia, de noite, ninguém vai te abordar para fazer mal. É outra coisa. Os bares fecham mais cedo”.
De acordo com o comerciante, um dos problemas do Conic era o extinto Cine Ritz, “que atraía gente de tudo quanto é jeito”, afirma. “Era um nojo aquele cinema. Acontecia de tudo lá dentro”, lembra. Agora, “o espaço está limpo”, constata. Hoje, a única coisa que falta no Conic, aponta, é um banheiro público, que sirva tanto para os comerciantes quanto para os visitantes.
“Tranquilo e com muitos jovens”
Antigo funcionário do local, o zelador Geraldo Pinto, 62 anos, acredita que o Conic já foi muito bom, teve uma fase ruim e agora volta às boas com os frequentadores do local. “É um lugar tranquilo de você andar. Não vejo problemas, por exemplo, de as pessoas virem tomar uma cerveja aqui. É seguro sim. Já não foi, mas agora é. Estão acontecendo, aos poucos, pequenos investimentos. Acredito que só vai melhorar. Tem ainda muita cultura aqui dentro. Um pessoal diferenciado, tem muitos jovens”, elogia o senhor, que veio da Bahia para Brasília no início dos anos 60.
“Para mim, desde que pisei aqui na capital, não tem lugar melhor do que o Conic. Sou mais conhecido aqui do que farinha de feira, sabe? Vi muitas coisas aqui, boas e ruins. Poucos lugares têm o tesouro que o Conic esconde”, conta o zelador.