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Brasília

Concurso de beleza no DF vira alvo de manifestações racistas

Arquivo Geral

16/10/2018 10h45

Divulgação

Ana Lúcia Ferreira
ana.ferreira@grupojbr.com

O que era para ser um concurso de beleza para valorizar mulheres de comunidades carentes tornou-se caso de polícia no último sábado (13). Em sua 3ª edição, o Top Cufa DF, organizado pela Central Única das Favelas (Cufa), foi motivo de ataques racistas em grupos do WhastApp. As manifestações dos agressores foram compartilhadas nas redes sociais. O objetivo do evento é descobrir talentos de moradoras de comunidades e do Entorno do Distrito Federal.

Na segunda-feira (15), a comissão organizadora divulgou uma nota de repúdio sobre as manifestações de racismo e afirmou que todas as medidas cabíveis para a punição dos responsáveis foram tomadas. O caso foi registrado na Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual, ou Contra Pessoa com Deficiência (Decrin).

O desfile contou com a participação de 180 candidatas e foi realizado no JK Shopping, em Taguatinga. Logo após as aparições das modelos, começaram a circular na internet troca de mensagens com fotos e comentários ofensivos sobre as participantes.

Em uma das conversas, uma pessoa, identificada como “Alex”, escreve: “Tá tendo um desfile só de preta aqui no JK”. E completa: “Coisa horrorosa”.  Em seguida, uma segunda pessoa chega a repreender o jovem: “Alex, para de falar merda”.

Um terceiro indivíduo, identificado como “Muniz”, apenas sorri. Alex, por sua vez, responde aos colegas: “Mas é horroroso mesmo”. O colega anterior, que tinha apenas sorrido, completa: “Black Moda Week”.

 

Reprodução

Em um outro print da conversa, Alex compartilha uma imagem com fundo preto e escreve: “segue imagens do desfile (sic)”.

Na sequência, uma segunda pessoa responde: “KKKKKKKKKKKKKKK”, que na linguagem da internet significa muitos risos.

O primeiro agressor rebate os sorrisos com uma nova agressão: “Desculpa a qualidade. Celular é ruim”

Reprodução

 

Agressores

O Jornal de Brasília tentou contato com os números que aparecem na conversa. Em um dos casos, o dono do telefone, L.M., de 17 anos, alegou que a sua escrita está fora de contexto. “Eu coloquei risos de outra parte da conversa e não referente ao que tinha sido publicado”, afirmou.

Ao ser questionado sobre a atitude e se gostaria de comentar o caso, o adolescente informou que “não concorda, não faria e nunca fez nada parecido”. O segundo número não atendeu às ligações.

Repúdio

O presidente da Cufa DF, Bruno Kesseler, repudiou as manifestações e afirmou que vai até o fim para identificar e punir os responsáveis.

“Recebi com extrema tristeza a notícia sobre os ataques. É difícil saber que ainda existem pessoas maldosas e negativas neste mundo. Dá raiva e gera um sentimento de revolta muito grande essa situação”, desabafou.

Para Bruno, o ato praticado pelo público é apenas a reafirmação de que o racismo está longe de acabar. “Diariamente, escutamos que o racismo não existe, que é vitimismo ou ‘mimimi’. Pessoas sofrem e morrem por conta dele. O racismo mata a autoestima, a esperança e muitas vezes faz com que pessoas tirem suas vidas por situações como esta”, frisou.

Ao ser questionado sobre como as modelos receberam os ataques, Kesseler revelou que a notícia provocou forte impacto.

“Foi uma mistura de emoções. Algumas quiseram desistir do concurso por se sentirem atacadas, outras, porém, não se abalaram e deram força para as demais. Enquanto organizadores, fizemos nossa parte. Tudo isso serviu para compreendermos a importância de nosso trabalho com essas meninas. Mostrar para elas que o valor de cada uma está acima da situação econômica ou da cor da pele”, declarou.

Bruno afirmou possuir o número de registro da ocorrência na delegacia, porém só conseguirá o boletim após a identificação dos envolvidos. A Polícia Civil segue com as investigações.

Leia a nota da Top Cufa na íntegra

“Nota de repúdio às manifestações racistas sobre o concurso de beleza Top Cufa

A comissão organizadora do Top Cufa DF repudia com veemência a manifestação de racismo expressa através de conversas em grupos de WhatsApp, divulgadas no último sábado, 13 de outubro, após a primeira seletiva do concurso de beleza Top Cufa DF. O evento, que contou com cerca de 180 candidatas, aconteceu no JK Shopping e foi aberto ao público. A organização preocupa-se ainda com o crescimento de casos de racismo relatados em todo o nosso país. Uma das características do concurso é o recorte territorial, no qual apenas mulheres da periferia podem concorrer, as ofensas em questão foram direcionadas às candidatas negras que participavam da seleção. Todas as medidas cabíveis para a punição dos responsáveis junto a Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual, ou Contra Pessoa com Deficiência – DECRIN, já foram tomadas.

A Central Única das Favelas (Cufa) busca, por meio do concurso de beleza e de outros projetos, promover a igualdade racial, além de desenvolver o empoderamento e autoestima das mulheres de comunidades e entorno do DF, tendo como foco a valorização da pluralidade presente em nossa sociedade. Por isso, o concurso conta com duas categorias: Fashion (16 a 22 anos), voltado para jovens que sonham com o universo das passarelas e buscam carreira de modelo, e Street Style (16 a 25 anos), com mulheres que representam toda a diversidade da moda, da cultura e do estilo das ruas.

É importante lembrar que racismo, no Brasil, é crime inafiançável previsto na lei, com pena de até três anos. O artigo 5º da Constituição Federal, inciso 42, prevê que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”. Já o Código Penal Brasileiro, em seu artigo 140, parágrafo 3, descreve que “Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”. A pena é de reclusão de um a três anos, mais uma multa.

A organização do evento ressalta ainda que crimes realizados em redes sociais são passíveis de identificação e punição, estar em rede não significa estar invisível ou livre de responsabilidade. A organização do Top Cufa DF lamenta o ocorrido, se solidariza com as candidatas, e reafirma seu compromisso na promoção da igualdade racial por meio de projetos sociais.”

 

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