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Brasília

Com rodoviários em greve, usuário paga o preço da queda de braço

Arquivo Geral

17/07/2014 7h00

Às 6h20, Aurenice Queiroz,   26 anos, saiu de casa, no Gama, para mais um dia de trabalho. Pegou o circular normalmente, com destino à estação terminal do BRT Sul, de onde partiria até a Rodoviária do Plano Piloto, mas lá se deparou com um problema. Às 7h, os ônibus pararam. Outras 18   regiões sofreram com a falta de transporte   ontem. A greve deve continuar, uma vez que as negociações foram interrompidas à noite e provavelmente serão retomadas hoje.

 Ao todo, 1,6 mil ônibus das empresas Pioneira, Marechal e São José ficaram parados, prejudicando 320 mil usuários. Como resultado, muitos passageiros ficaram revoltados e fecharam vias do DF.

Na saída do Gama, cerca de 200 pessoas, segundo a polícia, bloquearam a principal pista de acesso à Brasília, a DF- 480, e as saídas leste e oeste da região administrativa. O protesto   foi iniciado pelos próprios passageiros após serem noticiados de uma nova paralisação – a última ocorreu há 15 dias. O motivo é o mesmo: a cobrança do pagamento da segunda parcela do reajuste   de 20%. “Agora não acreditamos mais em promessas”, disse o motorista João Batista,   43 anos. 

“Ilhados”

“Nos deixaram no meio do caminho e agora estão tirando nosso direito de ir e vir”, reclamou a estudante Thalita Meluá,   20 anos. Assim como Aurenice, ela foi deixada na estação e não conseguia ir ao destino ou voltar para casa.  

Pouco antes das 9h, o subcomandante do 9º Batalhão da PM, major Paiva, procurou o  DFTrans, que prometeu o envio de três ônibus de cooperativas. Uma hora e meia depois,   uma kombi que teria sido cedida pela administração regional chegou para transportar os nove passageiros que ainda esperavam. Outros dois pegaram carona   com a   PM.  

“Nos deixarem aqui, no meio do nada, sem ter como ir ou voltar foi a gota d’água”, diz o operador Moisés Francisco,   31.

Falta de alternativa desagrada
 
No último dia 27, o Expresso DF Sul iniciou as operações definitivas no Gama. Assim,   linhas que iriam à Rodoviária do Plano Piloto e Esplanada  foram desativadas, sendo o único meio para chegar a esses destinos. A promessa era de que a faixa exclusiva faria com que o percurso fosse feito mais rapidamente. Entretanto, a população se queixa de lentidão e lotação.
 
“É um problema. Temos de vir apertados no ônibus lotado, além de ser lento. A propaganda de diminuição de tempo é falsa porque demoramos muito mais   para chegar ao destino”, afirmou a massoterapeuta Shirlene Gomes,   32 anos. Ela esperava há pelo menos três horas por algum transporte. 
 
Às 12h, o terminal sul do Expresso DF tinha usuários à espera. Alguns com esperança do retorno dos ônibus. Glauco de França,   20 anos, era um desses. “É complicado porque o ônibus já costuma demorar e ir lentamente. Agora, pararam. A gente fica sem escolha, sem ter como sair daqui”, lamenta.  
 
Na garagem da Viação Pioneira, dezenas de ônibus estavam estacionados, com alguns funcionários de braços cruzados na porta.  
 
Espera e falta de informações
 
No terminal rodoviário do Gama, centenas de pessoas esperavam sem respostas. Desde as 5h30 aguardando, o auxiliar administrativo Vinícius Lima,   18 anos, ainda tinha esperanças de ir trabalhar, no Riacho Fundo. Ele reclama da falta de informações  e completa: “Há duas semanas enfrentei essa mesma situação e já estou aqui de novo. É ridículo ter que passar por isso!”. 
 
Correndo o risco de perder o ônibus que seguiria da Rodoviária Interestadual de Brasília à Cavalcante (GO), a aposentada Antônia Ramos,   62 anos, tentava achar um meio de chegar ao destino. “Realmente não temos condições de depender do transporte público”, lamenta. 
 
Negociações  
 
O diretor-geral do Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans), Jair Tedeschi, informou que o governo tenta um acordo com as empresas, que dizem não ter condições de fazer o repasse sem o pagamento. A pasta ressaltou, ainda, que a negociação é entre empresários e rodoviários, com intermédio do GDF. 
 
A pasta destacou que não há verba pública para o pagamento dos salários dos rodoviários e que não tem participação nessa relação trabalhista. Há, entretanto, uma discussão sobre o ajuste da tarifa técnica, que é o valor repassado das passagens às empresas. Segundo o DFTrans, esse ajuste não será repassado aos usuários e “não tem relação alguma com o cumprimento do acordo coletivo por parte das empresas”. 
 
Em função da paralisação, o metrô  funcionou  com a capacidade máxima de 24 trens, e o movimento de usuários aumentou em torno de 20%. “O fluxo de Ceilândia, Samambaia e Taguatinga foi maior que o normal. Tendo demanda, o metrô pode ampliar a frota em horários alternativos”, explica a pasta.   
 
Ônibus piratas fazem a festa
 
A volta para casa também  foi confusa e com poucas opções para driblar o caos decorrente da greve. Com baias vazias e plataformas cheias, a Rodoviária do PlanoPiloto foi tomada pelo transporte pirata, que atuou livremente. Carros, vans e até ônibus saíam com  lotação  máxima  para atender aos passageiros que não tinham como voltar para casa.
 
Houve quem desviou a rota ou conseguiu uma carona, mas a principal escolha   foi a utilização de transportes clandestinos.  “Não me sinto segura utilizando esse tipo de transporte, mas não nos dão outra opção. Se eu não fizer isso,   não volto para casa”, afirmou Gracilene da Silva Matos, prestadora de serviços gerais, 28 anos.
 
Ela é moradora de Samambaia Sul, mas estava a caminho do Itapoã. “Não tive para onde correr. As duas áreas foram afetadas pela greve”, lamentou.
 
Gracilene não foi a única. O pintor Antônio de Deus,   40 anos, é morador de Ceilândia e para chegar ao trabalho teve que utilizar o serviço pirata. “Sem os ônibus, ficamos praticamente ilhados”, contou o pintor, que chegou uma hora atrasado no trabalho.  Para voltar para  casa, ele utilizaria o metrô e posteriormente tentaria pegar uma van, sem a certeza de que conseguiria.
 

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