Quem pensa que vender e comprar fiado é negócio para pequenas cidades do interior está muito enganado. No Distrito Federal, esta prática é mais comum do que se imagina. Mesmo com os riscos, os comerciantes ainda mantêm aqueles velhos caderninhos para anotar as dívidas dos clientes.
O modelo de compra funciona tão bem em alguns lugares que o negócio vale mais que uma conta em banco ou até mesmo do que um cartão de crédito. Trata-se até mesmo de uma questão de sobrevivência, em alguns casos. Para a autônoma Lélia Alves, 30 anos, moradora da Estrutural, a confiança lhe rendeu uma ocupação. Há um ano, ela vende frangos assados, mas não tinha dinheiro para começar no ramo. “Meu marido conhece a dona do supermercado e pudemos comprar frangos fiado”, conta. A dívida chega a R$ 600 semanalmente.
Ajuda
A dona do Supermercado Ceará, Rosa Maria Pereira, 52 anos, acredita que se trata de ajuda mútua. “É um negócio. Ela me ajuda ao comprar e eu a ajudo vendendo”, fala. Ontem, Lélia foi tirar temporariamente seu nome da lista de quase 20 clientes do “fiado” da dona Rosa. “Estou pagando as compras que fiz semana passada no valor de R$ 566”, contou. Já a dona do supermercado, no mesmo ponto há 17 anos, sempre vendeu fiado. “Há pessoas que não têm sequer cartão de crédito.”
Na drogaria do comerciante Iron Ferreira, ele faz valer o ditado de que ninguém escolhe hora para ficar doente. “Não é todo dia que se tem dinheiro. E quando a doença nos pega desprevenidos, não deixo de vender”, fala. Para ele, a confiança se sobrepõe ao medo do calote. “Nunca levei cano na Estrutural. O proprietário deve ficar atento para quem ele vende desta forma”, indica. Ele tem mais de 100 clientes no caderninho e estipula um limite de compra no valor de R$ 100. “Eles pagam, afinal não querem se sujar para que no próximo mês tenham novamente esta linha de crédito.”
Pesquisa
Uma pesquisa revela que 38% da população compra fiado. Embora 62% não admitam, a parcela que compra é bem dividida entre as classes sociais, segundo a Boa Vista Serviços.
A classe C2 é a que mais costuma comprar fiado, com 46%; seguida da DE, com 45%; B, com 37%; e C1, com 35%. O percentual na classe A é 24%. E os consumidores do Nordeste e do Centro-Oeste são os que mais compram fiado, com 49% e 48%, respectivamente.
O economista e professor pela Universidade Católica de Brasília (UCB) Rogério Boueri ensina o comerciante a ficar atento para não ser passado para trás. “É importante saber se a pessoa que compra fiado é responsável, isto por meio de outros comerciantes. Quem compra fiado deve ser conhecido, ter endereço, telefone e indicações de amigos, entre outros cuidados.”
O risco do fiado para o comerciante, de acordo com o economista, é de contrair um prejuízo sem ter como comprovar legalmente.
“A relação é informal, então é comum não se pedir uma assinatura ou uma nota promissória nas vendas. Já a vantagem está na fidelidade do cliente. Quando ele é bom pagador, retorna e acaba levando mais para, em seguida, quitar a dívida. E o dono do estabelecimento não quer perder a venda”, fala Boueri.
Já para o consumidor, a única desvantagem do fiado é ser taxado como mau pagador quando não honra a palavra de voltar depois para acertar a conta. “Quem gosta do fiado geralmente não tem cartão ou está com ele estourado. E há os estabelecimentos que não aceitam o cartão”, diz o economista.