Ana Clara Arantes
anaclara.arantes@grupojbr.com
O apelo pela separação do lixo ainda é em vão em boa parte do Distrito Federal. Atualmente, quase metade da população não tem acesso à coleta seletiva. O serviço atende a 52% dos moradores do DF, em 25 regiões administrativas. No entanto, ao superar pendências judiciais, o governo espera que a cobertura chegue a 100% até o fim do ano.
O processo avançou um pouco na semana passada, quando o serviço chegou a dez regiões: Cruzeiro Velho, Itapoã, Lago Norte, Lago Sul, Paranoá, Riacho Fundo I, Riacho Fundo II, São Sebastião, Sobradinho e Varjão. A coleta nessas localidades passou a ser realizada por cooperativas de catadores de material reciclável, profissionais que antes trabalhavam no Lixão da Estrutural.
Um edital que deve completar a abrangência da coleta foi liberado pelo Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) no último dia 20. Com isso, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) dará continuidade aos trâmites. Pelo novo contrato, as empresas vencedoras vão trabalhar em todas as áreas ainda sem cobertura.
Trabalho de todos
Mas, para que o serviço seja prestado com eficiência, a separação começa dentro dos lares brasilienses. Papel, plástico, isopor e metal não devem ser misturados ao lixo comum. Em seguida, as sacolas com esse tipo de resíduo só devem ser descartadas nos dias e horários corretos – essas informações estão no site do SLU: www.slu.df.gov.br.
Segundo Márcia Nayane, diretora do Serviço de Limpeza Urbana, a coleta seletiva diminui a quantidade de rejeitos destinados ao aterro sanitário e o custo do aterramento, além de aumentar a vida útil desse espaço.
O serviço é prestado por empresas terceirizadas e pelas cooperativas. Na avaliação da diretora, onde a coleta é realizada por cooperativas a qualidade do material recolhido é ainda melhor. Principais interessados no volume de material com potencial de reciclagem, os catadores fazem uma triagem minuciosa dos resíduos.
Mas, apesar dos benefícios proporcionados, o sistema ainda não é perfeito. O Distrito Federal não recicla vidro, pois, devido a fatores como o custo alto, não há nenhuma empresa especializada na prática na região. Por isso, o SLU recomenda que a população embale esse item em jornal, caixas ou garrafas PET para evitar acidentes. Os vidros devem ser descartados na lixeira dos orgânicos/ rejeitos (veja mais dicas no infográfico).
Mas esse não seria o único entrave na questão. Insatisfeitos com o modelo atual, os catadores fazem diversas críticas. Para Rônei Alves da Silva, integrante do Movimento Nacional de Catadores, a coleta seletiva é de fundamental importância para a mudança de vida dos trabalhadores, mas ele avalia que não há interesse do governo para que a prática seja exitosa. “O aterro está saturado por não existirem campanhas eficazes de coleta. Por isso há tantos catadores nas ruas, fazendo coletas por conta própria”, afirma Silva.
Apesar de acreditar que a reciclagem tem muito a evoluir no País, Rônei reconhece que a contratação de cooperativas foi uma ação importante.

Resíduos de blocos viram compostagem
Além do vidro, que deveria ser reaproveitado, até o material orgânico poderia ganhar utilidade. É o que ressalta o presidente do Conselho Comunitário da Asa Norte, Sérgio Bueno da Fonseca. Para que o manejo do lixo no DF avance além dos moldes atuais, ele sugere a implementação da compostagem nos condomínios: assim, esse material serve de adubo para hortas comunitárias e para a agricultura, por exemplo.
Fonseca revela que alguns blocos já realizam esse trabalho, mas, como não há uma orientação governamental, não existe estímulo para a prática. No entanto, o conselho tem trabalhado junto ao GDF a possibilidade de expandir a ideia. “Se os gestores absorverem a solução, seria possível, quem sabe, fazer isso em parceria com catadores”, destaca.
O presidente observa que, apesar de ter sido interrompida há alguns anos, a separação do lixo foi retomada plenamente em todo Plano Piloto. “A coleta funciona bem da forma atual, em que não se separa os resíduos por tipo, e assim eles se valorizam. Esse material tem um valor econômico muito grande”, pondera.
Fonseca garante que a população da região participa fazendo a triagem do lixo. “Mesmo quando a coleta seletiva foi suspensa, os condomínios continuaram fazendo a separação dos materiais recicláveis e orgânicos”, revela. Para ele, tanto na Asa Sul quanto na Asa Norte há um desejo dos moradores para a manutenção do sistema.