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Brasília

Cobrança de estacionamentos afasta público e ameaça sobrevivência do Conic

Nova cobrança na Rodoviária afasta clientes do Conic, derruba faturamento e acende alerta de crise no Setor de Diversões Sul

Daniel Xavier

08/07/2025 18h57

Foto: Daniel Xavier

Foto: Daniel Xavier

“Estão nos expulsando aos poucos. O trabalhador e o pequeno empresário não conseguem arcar com esses custos. Se nada mudar, o Conic vai definhar.” O alerta é de Flávia Portela, prefeita do Setor de Diversões Sul (Conic), diante da cobrança de estacionamento iniciada neste fim de semana passada nas imediações da Rodoviária do Plano Piloto. O novo modelo, adotado pela Concessionária Catedral, gestora da Rodoviária do Plano Piloto pelo prazo de 20 anos, prevê tarifas que variam de R$ 7 a R$ 12 por hora – valores que, para quem frequenta o local diariamente, são considerados insustentáveis.

Com mais de 10 mil trabalhadores diretos e um fluxo diário que chega a 20 mil pessoas, o Conic é um dos últimos redutos da economia popular no coração de Brasília. O novo sistema de cobrança, iniciado de forma parcial no domingo (6), já mostra reflexos negativos. Na segunda-feira (7), primeiro dia útil de funcionamento, os estacionamentos estavam quase vazios – um contraste com o cenário habitual, quando as vagas eram disputadas desde cedo.

Para João Paulo Perroni, 39 anos, empreendedor com cinco negócios instalados no setor – incluindo uma franquia do Subway, o restaurante Garfo de Ouro, uma barbearia e uma macarronaria chamada Don Perroni, além da loja de acessórios Smart Tech – os prejuízos chegaram antes mesmo do final da primeira semana. Ao Jornal de Brasília ele conta: “Tivemos uma queda de quase 30% no faturamento em dois dias. Tenho uma DRE [Demonstração de Resultados] muito detalhada e posso comprovar.  Mesmo sendo mês de férias, estou comparando com julho do ano passado, então o impacto é real”, afirma.

Foto: Daniel Xavier
Foto: Daniel Xavier

Segundo ele, a maior parte do público do Conic é rotativo e depende do acesso rápido ao estacionamento. “Hoje o estacionamento está vazio. Isso mostra o quanto o valor cobrado está espantando o público. Essa mudança pode inviabilizar muitos negócios aqui”. João Paulo também critica a forma como a cobrança foi implementada. “Começou errado. Não houve nenhuma consulta com os lojistas nem com a prefeitura. É uma mudança muito radical, com um valor altíssimo. R$ 7 a 12 por hora é surreal. Para mim, sai mais barato vir de Uber. Mas eu sou lojista, preciso sair para fazer compras, voltar, e ainda ter que caminhar até a rodoviária para pagar pelo estacionamento. Agora imagina o transtorno para um cliente PCD? Tenho vários clientes com deficiência, e esse sistema limita muito o acesso”, desabafa Perroni.

Foto: Daniel Xavier
Foto: Daniel Xavier

O empresário sugere alternativas de um valor entre R$ 4 e R$ 5 por hora.  “Além disso, deveria haver condições especiais para lojistas e até um sistema de voucher para que eu possa pagar o estacionamento dos meus clientes que vêm até aqui. Estou aqui todos os dias, gerando emprego, oferecendo serviço. Precisamos ser ouvidos”, comenta. O JBr tentou ouvir outros logistas, mas eles preferiram não comentar ainda sobre a situação já que estão tentando tomar providências.

A prefeita do Conic, Flávia Portela, defende também uma abordagem mais sensível por parte da Concessionária. “Estamos propondo valores reduzidos e um possível zoneamento, onde os preços possam ser ajustados de acordo com a área e o perfil dos frequentadores. Se esses preços forem mantidos, os trabalhadores serão expulsos do setor. E com eles, vai embora a atividade econômica”, conta. 

Apesar das críticas, Flávia vê espaço para negociação. “A concessionária nos procurou agora e já iniciamos conversas. Acreditamos que, com diálogo, será possível chegar a soluções que atendam tanto os comerciantes quanto os interesses da empresa”, aponta.

Procurada pelo JBr, a Concessionária Catedral, responsável pela gestão da Rodoviária, divulgou nota afirmando que a cobrança está prevista em contrato firmado com o Governo do  Distrito Federal (GDF), como forma de viabilizar investimentos na infraestrutura do terminal. Segundo a empresa, os valores seguem padrões técnicos e referências da região central. Entre os investimentos já realizados, a Catedral destaca a reativação de escadas rolantes e elevadores, instalação de câmeras de segurança, telas digitais com informações em tempo real, além da entrega de uma sala multissensorial para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Rodoviária.

A nota afirma ainda que a cobrança está sendo feita de forma gradual e que há planos mensais a partir de R$ 250, com 10 minutos de tolerância gratuita para embarques e desembarques. A concessionária garante manter diálogo com comerciantes e associações, buscando “alternativas viáveis, sem comprometer os parâmetros legais da concessão”.

Para os lojistas, no entanto, o problema é mais profundo. “Estamos há cinco anos enfrentando descaso. Eventos irregulares, insegurança, falta de políticas públicas. O Setor de Diversões Sul é mais do que um ponto comercial: é um polo cultural e social. Esse encarecimento pode ser o ponto final para muitos aqui”, lamenta Flávia.

A Prefeitura do Conic também pretende acionar o GDF. “Queremos que o governo nos apresente um plano de transporte público eficiente, que atenda a essa região. Não dá mais para depender do improviso. Essa é uma área central, viva, diversa.” A mobilização, segundo ela, já envolve síndicos dos 13 condomínios do setor, além de profissionais de diversas áreas – advogados, médicos, artistas, pequenos empresários. “Estamos unidos e queremos construir. Não estamos contra a modernização, estamos contra a exclusão”, conclui Flávia.

Foto: Daniel Xavier
Foto: Daniel Xavier
Foto: Daniel Xavier
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Foto: Daniel Xavier
Foto: Daniel Xavier
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