Jessica Antunes
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A fatalidade que tirou a vida do ciclista Raul Aragão aos 23 anos foi classificada por parentes e amigos como uma perversa ironia. Momentos antes de ser cremado no Cemitério Jardim Metropolitano, em Valparaíso (GO), o corpo do jovem idealista, entusiasta e pesquisador recebeu as últimas homenagens no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. Entre lágrimas, aplausos e muitas histórias, todos se despediram dele, que vestia um boné de ciclismo e carregava uma cartola e um nariz de palhaço, usados constantemente nos trabalhos voluntários.
Pernambucano de Recife, Raul era voluntário da ONG Rodas da Paz e da Bike Anjo. Ele ensinava pessoas a pedalar, era responsável pela Coordenação de Contagens de Ciclistas e participava de um levantamento sobre as condições das ciclovias no DF. No mês que vem, iria à Fixolimpíadas, um evento de bikes fixas, no Nordeste.
Mesmo com carteira de habilitação, a primeira opção dele sempre foi a bicicleta. Helder Rocha, o pai, disse que o primeiro acesso do filho à magrela foi ainda na infância. Morador da Asa Norte, o estudante conhecia bem o caminho que percorria na tarde de sábado, quando foi atropelado por um motorista de 18 anos, que prestou socorro. Raul foi levado ao Hospital de Base, mas faleceu no dia seguinte.
“Acho que ninguém quer morrer por causa nenhuma, mas, se é nosso destino, que nossa vida sirva para isso. O que interessa não é o destino, é o caminho”, afirmou o pai durante o velório. A cerimônia foi realizada por uma monja, sob a ótica do budismo. “A despedida é vista com mais otimismo, como era o Raul”, explicou.
Sociólogo
O jovem também foi um dos fundadores do Observatório de Brasília. Cursando o penúltimo semestre da faculdade de Sociologia na Universidade de Brasília, ele pesquisava sobre os impactos do automóvel na capital. Braço-direito da professora Christiane Machado Coelho, já era considerado, por ela, “um sociólogo urbano brilhante”.
“Raul era muito entusiasta, alegre, dedicado, empenhado, criativo, inteligente, solidário, do bem. Vai fazer muita falta, era um acadêmico acima da média, um ser humano excepcional. Para ele, não existia o impossível. Viveu o que ele acreditava”, define a orientadora. Ela destacou que, em um roteiro cruel, o rapaz foi atropelado pelo objeto de pesquisa da própria monografia.
Coordenador-geral da Rodas da Paz, Bruno Leite classifica Raul como um dos voluntários mais ativos e engajados. Em homenagem, uma bicicletada nacional foi marcada para sexta-feira. Aqui, a mobilização sairá da Praça do Complexo Cultural da República com destino ao local do acidente. Há intenção de colocar uma ghost bike (bicicleta fantasma, em inglês) na quadra. Atos também devem ocorrer em Recife, Salvador e Porto Alegre.
Para o coordenador, a fatalidade “levanta, mais uma vez, a questão da segurança das nossas vias”. Ele pede que a questão seja trabalhada nas autoescolas. Apesar de o DF ter apresentado redução no número de ciclistas vítimas no trânsito (14 neste ano, contra 19 em 2016), Leite defende: “Nenhuma morte é aceitável”.
Aos amigos, restam as lembranças
A fila de bicicletas na porta da Capela 5 do Campo da Esperança dava tom à despedida. As últimas homenagens foram prestadas entre lágrimas, aplausos e sorrisos arrancados pelas boas memórias. Entre os muitos amigos, Raul Aragão era apontado como uma pessoa boa, bem-humorada e que queria menos velocidade e mais ciclistas nas ruas.
“Ele estava sempre com a bicicleta a tiracolo e brilhava, literalmente, com a roupa refletora que sempre utilizava”, conta Maria Juliana, estudante de 21 anos. Mas Raul não era apenas bike, ressalta Alice de Castro. A jovem, de 21 anos, estudante de Artes, o via com carinho.
“Ele frequentava a minha casa toda semana. Apaixonado por jogo de tabuleiro, ficava bravo quando eu ganhava. Estava comigo nos momentos bons e ruins”, diz.
Versão oficial
O governador Rodrigo Rollemberg emitiu nota oficial pela morte do rapaz. “Com sua juventude, sua alegria, ele ensinava crianças a aprender a respeitar, desde cedo, o direito do ciclista de dividir o espaço público com carros, motos e outros veículos. Meus pêsames a sua família, com uma mensagem de reconhecimento e agradecimento por tudo que Raul Aragão fez pela sua boa causa em defesa dos ciclistas e da convivência harmoniosa entre todos os usuários das vias de Brasília”, afirmou.