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Brasília

Chuva no DF traz alegria e temor

Arquivo Geral

09/11/2017 7h00

Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) registrou 150 quedas de árvores, em regiões como o Lago Norte. Foto: Breno Esaki

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

Choveu mais nos oito primeiros dias de novembro do que durante todo outubro. O alívio, esperado aos reservatórios que abastecem o Distrito Federal e que devolve o verde à paisagem, também chega com consequências de destruição. Enquanto brasilienses lidam com alagamentos, árvores caídas, postes danificados, destelhamentos e regiões inteiras sem energia, funcionários da Companhia Energética de Brasília mantêm greve por reajuste salarial.

De acordo com o Governo de Brasília, entre terça-feira e ontem, os telefones de emergência dos órgãos de segurança receberam 458 ligações relacionadas a ocorrências causadas pelas chuvas e ventos. A Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) registrou 150 quedas de árvores. Vinte equipes de poda atuaram em 30 pontos diferentes, sendo os mais críticos na Asa Norte e no Lago Norte. Os agentes estão também limparam e desobstruíram bueiros.

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Apesar de chuvas fortes, níveis dos reservatórios continuam preocupantes

Madrugada

O Corpo de Bombeiros recebeu mais de 20 chamados relacionados às chuvas apenas durante a madrugada, especialmente na área norte da cidade. As principais ocorrências foram de árvores caídas e embarcações tombadas e à deriva no Lago Paranoá. Nas ruas, o cenário era de destruição: galhos e lama ao chão, troncos partidos ao meio ou ancorados à rede elétrica, fiação caída, postes danificados, cercas retorcidas e muitos bloqueios no trânsito.

No Sol Nascente, Estrutural, Santa Maria e Ceilândia, houve alagamentos. Em Vicente Pires, além do excesso de água e lama, muros caíram, assim como no Jardim Botânico. Nesses locais, moradores foram orientados a escorar estruturas e edificações. A equipe da Defesa Civil vistoriou localidades mais atingidas.

Apesar dos estragos, não houve registros de feridos, nenhuma casa precisou ser interditada e não há ameaças de desabamentos em virtude dessa tempestade.

“Não existe risco zero em nenhum lugar do mundo”, pondera o coronel Sérgio Bezerra, subsecretário de Defesa Civil. De acordo com ele, perigos dependem da quantidade de chuva em locais de vulnerabilidade. “Regiões vulneráveis A riscos são aquelas onde ocorreu ocupação irregular do solo e não se respeitou a natureza ou técnicas de construção. Há, portanto, risco. Se chover intensamente – e nem precisa ser como a última – alguma coisa pode acontecer”, afirma.

Otimismo apesar de tudo

“A gente precisava de água, de chuva. Nada aconteceu com ninguém, só prejuízo material. As coisas a gente põe no lugar”, relativizou Jesus Miranda, professora de 57 anos. Moradora do Lago Norte, ela foi surpreendida na madrugada com destelhamento.

“Era um vento e uma chuva de filme de terror. As telhas caíram sobre a mesa de vidro, patinhos morreram, as palmeiras ficaram peladas, uma mangueira caiu sobre o carro, os móveis foram destruídos”, conta.

Ela, assim como muitos brasilienses, passaram o dia limpando e colocando a casa em ordem. No Varjão, pelo menos dez casas foram destelhadas. A cabeleireira Regiane Freitas, 30 anos, ri de nervoso ao contar a experiência de ver a casa sem telhas.

“Eu tremia muito, tive muito medo. Pedi socorro à vizinha. Era 1h da madrugada quando começou a cair tudo no quarto, saíram telhas inteiras”, lembra. A cama foi condenada e as seis telhas repostas custaram R$ 300.

Inmet emite alerta sobre perigo

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o índice de precipitação acumulado chegou a 67 milímetros após a tempestade da madrugada de ontem. No mês passado, foram 25,4 mm. A previsão é que o tempo chuvoso se mantenha na semana e, até o fim do mês, a média esperada é de 231 mm.

O Plano Piloto e o Gama foram as regiões mais afetadas pela forte chuva. Apesar de a intensidade dos ventos ter sido de fraca a moderada, duas rajadas mais fortes chamaram a atenção e foram superiores a 50km/h. Para o meteorologista Luiz Cavalcanti, as “rajadas ocasionais” podem explicar os impactos na energia elétrica e árvores em diferentes regiões.

“As rajadas de vento são um movimento instantâneo do vento e acontecem de maneira rápida. Provavelmente foi isso que afetou o sistema de energia e não as chuvas em si”, explica. Ontem, o Inmet emitiu alerta para a área do DF. A situação é de perigo potencial por chuvas intensas, com possibilidade de alagamentos deslizamentos.

Sem energia, população refém da greve da CEB

Morte em Samambaia

Há pouco mais de um ano, uma tempestade com ventanias de 60 km/h matou um homem, destelhou mais de seis mil residências, deixou mil pontos sem energia, derrubou imóveis e suspendeu aulas em Samambaia. O vigilante Carlos Henrique Ramos Freitas, 32 anos, foi vítima do temporal. Atingido por um muro que desabou quando ia trabalhar, ele foi socorrido, mas morreu no hospital. Na época, a Polícia Civil estava em greve, o que dificultou o registro da ocorrência. Parte das famílias afetadas recebeu auxílio vulnerabilidade e telhas do governo.

Todo o DF foi sofreu com quedas de energia. Segundo a CEB, as áreas mais afetadas estão na área norte da capital. “As causas estão relacionadas à ventania que lançou objetos nos cabos energizados, além de derrubar árvores e galhos nas redes”, explicou a empresa. Foram quase dois mil chamados.

No Lago Norte foram registrados pelo menos dez pontos de obstrução. Ali, Novacap, Administração Regional, Departamento de Estradas de Rodagem e Corpo de Bombeiros prestaram auxílio aos moradores e trabalharam na liberação das vias onde cabos de energia não prejudicavam o serviço. Parte dos problemas, porém, dependia de equipes da CEB, que estão em greve desde segunda-feira.

Enquanto a população ficava sem energia, empregados votaram, em assembleia, pela manutenção do movimento grevista. Eles pleiteiam reajuste salarial. Segundo a CEB, o sindicato da categoria ofereceu recomposição das perdas inflacionárias, mas “a proposta vem sendo rejeitada pela categoria, que pede reajuste de R$ 1,2 mil para todos os empregados, o que, em média, representa 8 vezes mais que a inflação do período”, afirmou a estatal, em nota.

Estrutural

Outro local afetado pela tempestade é a Chácara Santa Luzia, na Estrutural. A casa de Anderson Gonçalves, motorista de 40 anos, foi invadida pela água por volta da meia- noite. “Eu já tenho a mureta para tentar evitar, mas a água passou e estragou um armário”, reclama.

O setor em questão é uma área invadida há mais de 20 anos, sem qualquer infraestrutura. As famílias não dispõem de asfaltamento e rede de água, esgoto ou luz, tendo de recorrer a “gatos” para sobreviver. Além das enxurradas, incêndios causadas por curtos-circuitos são recorrentes na região.

Esse tipo de problema fez a catadora Maria Ivanilda, 40, economizar para transformar o barraco dela em uma casa de alvenaria, há cerca de três meses. A estrutura mais sólida não impediu a entrada da água e ela perdeu um refrigerador. “Eu gritei, chorei, para ver se acordava os vizinhos. Prefiro sair de casa porque é muito ruim ver tudo o que a gente tem estragando”, desabafa. (Colaborou Eric Zambon)

Saiba mais

  • Além dos estragos, o temporal da madrugada de ontem prejudicou as aulas na Universidade de Brasília. Segundo a prefeitura, 1,2 mil alunos do campus Darcy Ribeiro ficaram sem dia letivo devido a um curto- circuito na rede elétrica. Os pavilhões Anísio Teixeira e João Calmon foram interditados. Não havia previsão de normalização.
  • A falta de energia na estação de tratamento do Lago Norte também interrompeu o fornecimento de água no Paranoá e no Itapoã. Apesar disso, a Caesb garante que a situação não deve afetar os moradores, pois por lei são obrigados a ter caixa d’água.
  • As precipitações têm contribuído, ainda que timidamente, para a recuperação dos níveis dos reservatórios que abastecem a capital. Ontem, segundo dados da Agência Reguladora de Águas (Adasa), o Descoberto subiu de 5,7% para 5,8%, e o Santa Maria de 21,9% para 22,3%.

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