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Brasília

Chuva evidencia problemas no P Sul

Arquivo Geral

27/02/2018 7h00

Atualizada 26/02/2018 22h26

Árvore caiu no fim de semana: apenas um dos vários estragos na região. Foto: Divulgação

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

Basta cair uma chuva um pouco mais forte que a apreensão toma conta dos moradores do Setor P Sul, em Ceilândia. Ruas viram rios, placas de veículos são arrancadas, árvores caem e casas inundam. Assim foi, novamente, no último fim de semana, quando a correnteza cruzou a cidade até chegar ali, onde a população se diz refém da falta de atenção do governo e de investimento em drenagem pluvial.

O pedagogo Max Maciel, 35 anos, se deparou com a casa alagada no domingo, na quadra QNP 28. “Moro há sete anos aqui e é sempre a mesma coisa. O problema é que toda a água desce para cá. As vias alagam naturalmente, mas quando a chuva vem com mais força, é transtorno permanente porque as ruas não têm boca de lobo”, reclama.

“Estamos falando de uma área que foi construída pelo governo. A questão de escoamento pluvial não é só deficiente, não tem nenhum planejamento. Isso não é de agora: as reclamações de alto volume de água são históricas”, afirma o pedagogo. Quem mais sofre são os moradores das residências do lado mais baixo das ruas, que até tentam improvisar um bloqueio com calçadas mais amplas.

No fim das tempestades, as placas dos carros perdidas ficam aparentes e os condutores começam a caçá-las. Entre sexta e domingo, ao menos seis pessoas foram vítimas da correnteza. A comunidade diz que já fez abaixo-assinado, já se reuniu com representantes do governo, mas não consegue nada além de promessas. “Falta interesse”, acredita Max Maciel. “Enquanto não cair uma casa, ninguém morrer eletrocutado ou tiver perda total, enquanto não acontecer uma tragédia, nada vai se resolver”, completa.

“O que sobra é a revolta”

No domingo, quando o pedagogo Max Maciel entrou na rua, já sabia com o que se depararia. “Vimos muita água, terra e entulho. Esperávamos que a casa tivesse sido atingida. A rotina é tão cruel que, apesar da revolta, sabemos o que podemos encontrar. Fizemos o de sempre: rodo e vassoura. Mas isso cansa”, lamenta. A cozinha ficou alagada, e as portas, empenadas, terão de ser trocadas.

“Existia um muro no portão que nunca entendi. Derrubei para construir uma garagem. O que eu não sabia era que o antigo morador fez aquilo justamente para evitar esse problema”, conta.

“Nós lutamos para conquistar as coisas, a gente paga impostos, que inclusive aumentaram recentemente e não sabemos para onde vai. Por que a gente mora tão mal? Por que o Estado não olha para a gente? O que sobra é a revolta e a mobilização, porque a situação constrange”, desabafa.

Chuva continua

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), das 9h de domingo às 9h de ontem choveu 8,6 milímetros no Distrito Federal, de forma generalizada. Com isso, o acumulado do mês chegou a 263,2 mm, o que corresponde a 21% além da média mensal de fevereiro, de 217,5 mm. Apesar da intensidade e do volume de chuvas dos últimos dias, a Defesa Civil não recebeu nenhum chamado.

A tendência é que as precipitações continuem ao menos até amanhã, sem temporais ou raios como os que atingiram a cidade nos últimos dias. Depois, o fim de semana deve ser ensolarado, elevando a temperatura até 31 °C, em um fenômeno conhecido por veranico.

Bom para os reservatórios, que se recuperam do pior índice da história. Após chegar ao volume morto, o volume útil da bacia do Descoberto é quase o dobro do previsto para fevereiro. Ontem, ele atingiu 55,9%, quando a expectativa era que estivesse ao menos em 32%. O de Santa Maria chegou a 41,5%, enquanto a previsão era de 36%.

Versão oficial

A Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sinesp) informou que não há obra no P Sul e que não recebeu abaixo-assinado dos moradores. A administração regional, por sua vez, disse que recebe por meio de moradores a manifestação das áreas atingidas e passa para a Novacap, que realiza a manutenção e vistoria dos locais solicitados. Em junho de 2016, houve solicitação de apoio e providências quanto ao escoamento de águas pluviais da QNP 28. Procurada, a Novacap não respondeu ao Jornal de Brasília até o fechamento desta edição.

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