A emergente China tinha objetivos muito além dos econômicos quando lançou a candidatura de Pequim a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2008. Agora, sete anos depois de ter sido confirmada pelo COI como anfitriã das competições, a capital chinesa é palco de uma conquista esportiva bastante aguardada pelos chineses: a liderança do quadro de medalhas.
A conquista chinesa não surpreende, já que o milagre econômico recente teve seus reflexos também no já incentivado esporte do país. Desde o início da década, o país se transformou em um verdadeiro canteiro de obras esportivo, recebendo investimentos na construção de arenas, na contratação de treinadores e no patrocínio de equipes. Os resultados acabaram sendo colhidos nas Olimpíadas, encerradas neste domingo.
“O sucesso dos Jogos Olímpicos de Pequim é atribuído aos esforços concentrados do povo chinês e dos povos de todo o mundo”, justificou Hu Jintao, presidente do país, em jantar oferecido a lideranças mundiais na véspera da cerimônia de encerramento, segundo a agência de notícias Xinhua. “A glória é da família olímpica, dos atletas que competiram, dos voluntários de diferentes partes do mundo e dos amigos que estiveram envolvidos nos Jogos de Pequim de várias maneiras”, acrescentou.
O fato de ter competido em casa, é claro, ajudou no desempenho da China. Seus atletas contaram com o apoio massivo das arquibancadas em todas as modalidades – aliás, os chineses tinham vagas como anfitriões em todas as disputas. Pese ainda o fato de os chineses não precisarem de adaptação ao clima e ao fuso horário, e a equação ganha uma resposta simples. Ou quase.
Há que se considerar que, até a década de 80, o país havia disputado os Jogos apenas em 1952, e sem qualquer destaque. Em 1984, porém, os chineses encerraram o longo hiato na competição, causado pela instabilidade política do país, e desembarcaram para concorrer em Los Angeles. Resultado: 15 medalhas de ouro, oito de prata e nove de bronze.
Desde então, os chineses vêm em uma ascensão constante no quadro geral de medalhas de Olimpíadas, garantindo o quarto lugar em 1996, o terceiro em 2000 e o segundo em 2004 – este último, com 32 medalhas de ouro, contra apenas 36 dos EUA. Em 2008, enfim, a China conquistou o topo da tabela, com uma goleada sobre os norte-americanos: foram 51 medalhas de ouro, contra as mesmas 36 dos rivais.
Jogando em casa, a China construiu sua ampla vantagem graças às modalidades individuais. Foram nove ouros na ginástica artística (sendo três com Kai Zou, que venceu a final masculina do solo), oito no levantamento de peso, sete nos saltos ornamentais, cinco no tiro esportivo, quatro no tênis de mesa, três no badminton e outras três no judô. A China era tão favorita que conseguiu medalhas de ouro até em esportes nos quais não tem tradição, como boxe (Shiming Zou e Xiaoping Zhang), esgrima (Man Zhong) e vela (Jian Yin).
Mesmo com as decepções de ídolos como Liu Xiang, que se contundiu e sequer participou da final masculina dos 110m com barreiras, a China começa a emplacar ídolos mundiais. Nem mesmo os oito ouros de Michael Phelps na natação salvaram a liderança dos EUA, que não perdiam o posto no quadro de medalhas desde 1992, quando a CEI terminou na frente. Sobrou, ao menos, o consolo de terminar com o maior número absoluto de medalhas, que tem mais peso nos critérios norte-americanos: 110, contra 100 da China.
O resultado, por sinal, pegou os norte-americanos de surpresa. Em projeção anterior ao início das Olimpíadas, a prestigiada revista Sports Illustrated previa liderança tranqüila do país no quadro, com 35 medalhas de ouro e 103 medalhas no total. A China seria novamente a terceira, com 63 medalhas (32 ouros), atrás das virtuais 92 medalhas da Rússia (27 ouros). Agora, os EUA esperam tirar a prova nas Olimpíadas de 2012, em Londres, quando a Grã-Bretanha promete endurecer a briga.
A China, porém, promete consistência para mostrar que também é capaz de vencer fora de seus domínios. “O povo chinês saudou a todos os convidados com entusiasmo e dividiu sua alegria com todas as pessoas ao redor do mundo”, disse Hu Jintao. “Estamos todos muito ansiosos pelo encontro em Londres, daqui a quatro anos.”