O celular está sempre em mãos. Os dedos alcançam muitos toques por minuto no pequeno teclado digital do telefone, que recebe diversas notificações. Antes de comer, uma foto da comida e com os amigos. Antes de dormir, o foco é no aparelho. Entre uma atividade e outra, uma checada em todas as redes sociais. No computador, várias abas ficam abertas, e são conferidas a todo instante em busca de novidades. A descrição é do estudante Felipe Carvalho, 22 anos, que possui conta em 16 redes sociais diferentes, mas também pode ser aplicada a milhares de pessoas em todo o País.
Segundo um estudo da comunidade de pesquisa Conectaí Brasil, 90% dos internautas brasileiros entre 15 e 32 anos têm o hábito de navegar em redes sociais e possuem, em média, sete perfis. O Facebook é a rede mais popular entre os jovens: 96% da população possui uma conta, seguida por YouTube (79%), Skype (69%), Google+ (67%) e Twitter (64%). Para especialistas, o acesso deve ter limites para não se tornar prejudicial.
Lúcio Teles, pós-doutor em educação e tecnologias, entende que o uso de vários perfis é um padrão da juventude em vários países que têm acesso à banda larga: “O que nós vemos é uma padronização global no comportamento dos jovens em relação a como se comunicam e o que consomem na Internet”.
Superusuário
Felipe se considera um “heavy user”, expressão usada para designar os superusuários da Internet. “Passo muito tempo usando e mexendo em algumas redes sociais, mas algumas vezes posso ficar sem elas e não sinto falta”, analisa. Ele usa frequentemente cinco delas: Twitter, WhatsApp, Instagram, Snapchat e YouTube. Outras, nem sabe usar direito.
“Eu gosto das redes sociais porque elas me dão a liberdade de poder dizer o que penso, mas sabendo respeitar os outros. Posso acompanhar as opiniões de pessoas que acho relevante e ainda consigo ver o que as pessoas estão fazendo”, esclarece. Felipe diz se identificar com os novos meios de comunicação porque se atualizam rapidamente.
O interesse serve de base, ainda, para um estudo acadêmico. Mesmo com o alto número de contas e o longo tempo que passa conectado, o estudante diz saber moderar a exposição e controlar o tempo. “Eu não recuso um convite para sair por causa de Internet”, garante.
Excesso leva à dependência
Especialista, Lúcio Teles lembra que o uso excessivo pode levar a uma dependência crescente da mídia, existindo casos em que o indivíduo que fica sem acesso por muitas horas já começa a se sentir ansioso, nervoso, e pode até mesmo entrar em estado de crise. “Muitos são aconselhados a se tratarem em clínicas que operam programas de contenção da dependência da mídia, as ‘clínicas da Internet’”. Em Brasília, o SUS ainda não atende a esse tipo de síndrome, mas em São Paulo, o acompanhamento existe há anos.
Há vantagens e desvantagens no uso das redes sociais. Para o psicólogo Luiz Flávio Mendes, a interação e troca de culturas, costumes, línguas e pontos de vista são benefícios. Além disso, “o grande leque de assuntos e informações que podem ser confirmas ou revogadas nas próprias redes sociais ensina a administrar as informações e também prioridades”.
Por outro lado, a pessoa acaba perdendo muito tempo, o que pode prejudicar nas demais atividades, na relação pessoal com amigos e familiares e pode gerar mais dependência por querer dar a mesma atenção a todos os perfis.
Uso restrito a duas opções,
O empreendedor Orlando Fiorilo, 24 anos, tem conta em dez redes sociais diferentes. No entanto, só costuma acessar duas ou, no máximo, três delas. “As pessoas que quero interagir estão nelas, então não vejo necessidade de entrar nas outras”, afirma. Os perfis, acima da média indicada pela pesquisa, foram feitos aos poucos. No início, conta, usava muitas, mas o ritmo começou a diminuir.
Para o psicólogo Luiz Flávio Mendes, essa é uma realidade comum. “Muitos têm uma conta em cada rede social, mas acabam tendo uma participação efetiva em duas ou três, de acordo com a demanda”, explica.
Orlando demonstra maior interesse nas redes quando os motivos são profissionais, “já que são tendência e precisam ser exploradas”. Em seu smartphone, há oito aplicativos de diferentes redes sociais, sendo que muitas ele diz nunca ter acessado por lá.
Regras
Viciada confessa, a estudante Gabriela Cimas, 22 anos, abandonou a rede social que mais a atrapalhava há dois anos. “Eu não conseguia estudar com o Facebook. Entrava para dar uma olhada e lá perdia horas”, lembra ela, que pretende passar em um concurso público. O psicólogo alerta que as redes sociais realmente não podem atrapalhar os estudos, as atividades extracurriculares e a interação com amigos e familiares. O estabelecimento de tempo e horário pode ser a melhor saída para não ter prejuízos nos rendimentos das demais atividades.
30 mil seguidores em cinco anos
Com quase 30 mil seguidores conquistados em cinco anos no Twitter, o estudante Paulo Roberto, 23 anos, está sempre com o celular ao lado. Mesmo atualizando a rede social várias vezes por dia, não se considera viciado. “Eu só uso bastante”.
O microblog é a ferramenta preferida dos oito perfis ativos que mantém. Para ele, seu lado humorístico é interessante. “Gosto de falar sobre qualquer coisa sem ser julgado. Isso não acontece no Facebook, por exemplo. No Twitter o pessoal é mais bobão e serve para postar bobagem”, brinca.
Mesmo com muitos seguidores e mais de 157 mil publicações, dispensa o título de famoso: “É um número muito pequeno se formos considerar o tamanho da internet. Não sou relevante”. As outras redes sociais, usa para conversar e manter contatos.
Controle
Mas para o psicólogo e especialista em redes sociais Luiz Flávio Mendes, estar sempre antenado às redes sociais acaba prejudicando o sono, as atividades físicas, e até a alimentação. Pode diminuir os contatos presenciais e tonar as relações mais vulneráveis e frias. “O ideal é buscar ter momentos offs das redes sociais, como à noite e ao praticar alguma atividade esportiva. Nos demais momentos, é preciso ter uma administração para não prejudicar as tarefas presenciais”, indica.