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Brasília

Caso Villela: Culpados tiveram mandante?

Arquivo Geral

14/12/2013 9h02

A condenação dos réus Leonardo Campos Alves, 47 anos, e Francisco Mairlon Aguiar, 25, acusados de matar o casal Villela e a empregada da família, complica a situação de Adriana Villela,  que também é ré acusada do triplo homicídio. A filha do casal foi citada como mandante do crime em diversos momentos do julgamento. Além disso, o Ministério Público defende que as provas processuais exibidas durante as quase 45 horas de júri popular apontam a arquiteta como   a articuladora dos assassinatos. 

Leonardo, ex-porteiro do Bloco C da 113 Sul, foi condenado pelo júri popular a 60 anos de prisão. Já o comparsa, Francisco Mairlon, pegou pena de 55 anos de reclusão. Agora,   restam ser levados ao banco dos réus   Adriana e  Paulo Cardoso Santana,    sobrinho de Leonardo. Mas, por enquanto, eles ainda aguardam o resultado do recurso que a defesa de cada um impetrou para adiar o julgamento. 

Defesa

Embora as circunstâncias indiquem que Adriana possa ir a juri em breve, a defesa da  ré está confiante de que a cliente se livrará da condenação. O advogado da filha do casal Villela, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirma que, para a família, foi reconfortante a condenação de Leonardo e Francisco. Na avaliação da defesa, a principal condenação foi a de Leonardo. 

“Ele é criminoso confesso e assassino dos pais de Adriana. Tanto é que a filha aponta ele como sendo a pessoa que tirou a vida dos pais. Minha cliente sequer vai a júri”, assegura o advogado.

Menções não preocupam

Segundo o advogado de Adriana, o recurso da defesa de sua cliente aponta que o juiz do caso demonstrou desprezo às provas técnicas que destituem indícios contra Adriana. Para Kakay, o juiz Fábio Esteves foi induzido ao erro pelo Ministério Público a partir do momento em que determinou a prisão da filha do casal Villela. “Esse é um crime bárbaro que não podia ficar sem solução. Adriana falava o tempo todo no nome de Leonardo como sendo o assassino. Agora resta saber se o TJDFT será técnico ao julgar o recurso da defesa”, explica.

A defesa da arquiteta tem confiança na prova técnica do recurso. Além disso, Kakay diz com firmeza que a cliente é inocente e não tem   participação no ato que tirou a vida do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, José Guilherme Villela, a mulher Maria Carvalho Mendes Villela, e a empregada da família, Francisca Nascimento da Silva. 

“É normal que o júri e o MP tenham uma fixação na Adriana. São versões das mais diversas possíveis, que não nos preocupam. Somos técnicos e agimos em uma defesa técnica. Não preocupa o nome de Adriana ser citado no julgamento. Isso é um jogo mídia do júri e do MPDFT”, acredita.

A equipe de advogados de defesa de Adriana Villela acompanhou o último dia de julgamento com atenção e, inclusive, fez anotações principalmente no momento em que o nome da arquiteta era citado pelas partes de acusação e defesa dos réus Leonardo e Francisco. “É importante essa atitude para ver até  onde a acusação pode ir. Algumas provas foram exibidas, como vídeos e depoimentos. É importante estar atento”, defende Kakay.

Acusação de tortura

Ao ser ouvido pelo júri, na última quinta-feira, Leonardo (foto) garantiu que a acusação do crime não é verdadeira, nem mesmo saberia dizer o motivo pelo qual foi preso. Segundo o réu, durante os depoimentos nas delegacias houve declarações mentirosas sobre a participação no crime, uma vez que ele não tinha advogado. Leonardo afirmou que foi agredido fisicamente na 8ª DP, e na Corvida foi agredido “espiritualmente e psicologicamente”, em meio ao cansaço. “Cheguei a dormir em cima de sofá sem saber para quem estava dando depoimento”, disse.

Pena dos réus pode ser maior

O futuro dos dois réus condenados ontem também pode mudar na próxima semana. As partes de acusação defendem que entrarão com recurso para majorar a pena de cada um deles já  na segunda-feira. Com isso, a condenação de cada um pode chegar a 80 anos. Isso porque o tempo de prisão foi decidido a partir do crime continuado, o que quer  dizer que se aplicou a pena de um crime e aumentou a punição do outro. No entanto, a vida de três pessoas foram tiradas e, por isso, a responsabilidade dos réus deve ser para cada ato cometido. Para o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), o único critério a ser adotado é o da acusação de pena. “O prazo é a partir de segunda-feira e os trâmites seguem todos os passos demorados do tribunal e de recursos, mas se visualiza uma possibilidade de êxito muito grande”, destaca o promotor do caso, Maurício Miranda.

Demora

 O promotor afirma que Leonardo recebeu a maior pena, pois foi o coordenador da conduta dos demais réus acusados no triplo homicídio. Ele diz, ainda, que havia agravantes que seriam aplicados ao ex-porteiro do condomínio. “Infelizmente eles (os réus) não se sentiram à vontade para esclarecer aos questionamentos do MPDFT e preferiram o silêncio. A previsão, agora, é de que Adriana Villela seja julgada em nível de tribunal ainda em janeiro, mas isso não significa muito, pois ainda pode acontecer vários recursos”, esclarece. “A ideia é que o julgamento definitivo não aconteça tão cedo em razão da fase de instrumentos”, conclui Miranda.

Defesa não ficará inerte

A defesa dos réus não pretende ficar inerte à situação. Os advogados também pretendem entrar com recurso para anular o júri. “Queremos anular o júri em razão das provas trazidas aos autos pelo MPDFT de forma ilegal, sobretudo, com atitudes que contrariam o código de processos penais”, afirma o advogado de Leonardo, Paulo Henrique Abreu. Segundo ele, haverá entrada de apelação para que o tribunal, em segunda instância, anule o julgamento que foi considerado pelo advogado como viciado e suspeito. “Leonardo foi condenado com provas piratas. As peças processuais distribuídas aos juradores foram documentos de interesse do MP”, conclui.

O advogado de Francisco Mairlon, Cleber Lopes, explica que a família do acusado está inconformada com a sentença e, inclusive, a defesa ficou decepcionada. Para ele, verdadeiramente não há prova para incriminar o jovem. “O menino é inocente e a família está sofrendo. Sou um defensor do júri, mas de fato eles cometeram um erro e por isso vamos recorrer no prazo de cinco dias que temos direito. Estou convencido de que vão acatar a defesa”, ressalta o advogado.

“Histórias mirabolantes”

Lopes afirma que o cliente não apareceu na investigação, mas foi colocado na cena do crime para substituir alguém que lá esteve. Para o advogado, a situação está clara, mas o juiz não entendeu as explicações da defesa. “O Leonardo, em primeiro momento, presta depoimento envolvendo o nome de Francisco Mairlon, mas depois retrata a acusação. Só que o problema foi a perda da validade dos depoimentos de Leonardo, pois ele contou histórias mirabolantes”, esclarece o advogado de Francisco Mairlon, Cleber Lopes.

 Relembre o caso

O ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, José Guilherme Villela, a mulher Maria Carvalho Mendes Villela e a empregada da família, Francisca Nascimento da Silva, foram assassinados a facadas no início da noite de 28 de agosto de 2009. No entanto, os corpos só foram encontrados três dias depois.

Eles foram atacados no apartamento do casal, no bloco C da SQS 113. Joias e dólares foram roubados do local. Até hoje provas dão conta de que a mandante do crime teria sido a filha do casal, Adriana Villela, que visava a herança dos pais e estava insatisfeita com a mesada de quase R$ 10 mil que recebia da família.

O crime sempre foi cercado de mistérios, que geraram mais polêmica quando uma vidente entrou no caso, contando o que teria acontecido e o que iria ocorrer a partir de então. Na época, a 1ª DP (Asa Sul) investigava o caso, mas o inquérito passou pela 8ª DP (SIA) e foi concluído na Corvida que, na época, era a delegacia especializada em investigar homicídios. 

Houve uma série de irregularidades no caso: pessoas inocentes foram presas; uma chave do apartamento teria sido plantada na casa de um indivíduo que não tinha relação com o crime; pessoas teriam sido torturadas para confessar a suposta participação no assassinato; e até mesmo a primeira delegada do caso, Martha Vargas, foi afastada da investigação que tinha duas linhas: uma que apontava  Adriana Villela como mandante do crime e outra que sugeria um roubo seguido de morte, cometido pelo ex-porteiro do condomínio do casal Villela, Leonardo  Alves.

Em outubro de 2010, o juiz do Tribunal do Júri de Brasília acatou a denúncia do Ministério Público, na qual quatro réus foram denunciados: Adriana Villela;  Leonardo Alves;  Paulo Cardoso Santana, sobrinho de Leonardo; e Francisco Mairlon Barros Aguiar.  

Os autos do processo têm mais de 12,8 mil folhas. Mais de dez audiências foram feitas durante a fase de instrução processual. Mais de 40 pessoas foram ouvidas, entre elas, policiais.

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