Manuela Rolim
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“Ela nunca mais vai me atender, mas eu esqueço isso”. A frase é da auxiliar de serviços gerais Cícera Maria Cacau, 48 anos, que continua ligando para o mesmo número quase todos os dias. A pessoa que ela tanto gostaria de ouvir é Talitha Cacau Rocha Passos, sua filha. Situação nada fora do comum, se não fosse um lamentável detalhe: Talitha foi encontrada morta, aos 25 anos de idade, com sinas de estrangulamento. Para piorar, a polícia ainda não prendeu os autores do crime, e o caso completou, hoje, 75 dias sem nem um desfecho. Enquanto isso, Cícera segue a vida com sede por Justiça.
O que também permanece sem novidades é a rotina da família. O sofrimento é o mesmo desde que o corpo foi encontrado. Os pertences de Talitha continuam intactos dentro de casa. Por falar nisso, Cícera não deixa ninguém chegar perto das roupas e dos perfumes da filha. “Morro de ciúmes. É um pedacinho dela que está aqui comigo. Muitos me dizem para eu me desfazer de tudo isso, e eu fico brava. Eu não quero esquecer a minha filha”, afirma a auxiliar, que vestia uma blusa de Talitha. “Eu uso essa blusa para sentir o cheirinho dela”, completa Cícera.
Emocionada e, ao mesmo tempo, indignada com a falta de notícias da polícia, ela compartilhou seu maior desejo. “Meu sonho é descobrir quem fez essa maldade com a minha princesa. Minha dor não tem mais paciência”, declara ela, que também é mãe de mais três filhos. “Ela era meu xodó, minha caçulinha das meninas. Talitha era muito meiga e carinhosa com todo mundo. Me ligava o tempo todo para saber como eu estava, não fazia mal a ninguém”, afirma a auxiliar, acrescentando que suas noites parecem um pesadelo. “Era o horário que ela me ligava quando tinha um tempo livre no serviço. Fico olhando para o celular até hoje”.
“A ficha não cai” para a família
“A ficha parece que não vai cair nunca”, acrescenta Cícera. Segundo ela, toda vez que passa em frente ao cemitério, não acredita que a filha está ali. “Para mim, ela está viajando, o problema é que esse passeio está demorando demais. Meu coração não aguenta mais de tanta saudade, eu não sei como ainda estou viva”, completa.
Os filhos de Talitha, Natani, de um ano e um mês, e João Nicolas, cinco, também sentem a falta da mãe. A mais nova está aos cuidados do pai, que, segundo Cícera, procura retomar a rotina. Ela conta que as crianças perguntam por Talitha, e ela não sabe o que responder. “Minha neta já começou a falar ‘mamãe’, e o mais velho é acompanhado por psicólogo. Desde que a mãe morreu, ele ficou mais agressivo e sentimental. Por qualquer coisa ele chora”, relata.
Apaixonado pela irmã, Esdras Cacau Rocha Passos, 18, conta a sua relação com Talitha. “Ela era muito minha amiga, até escolheu minha namorada”, brinca ele, ressaltando que a irmã nunca esqueceu o aniversário de ninguém. “Isso era muito característico dela. Todo ano, ela era a primeira a ligar para dar os parabéns. Ela era muito prestativa e amava cultivar a harmonia familiar. Eu não sei como vou conseguir viver sem minha irmã”, lamenta.
Procurada pelo JBr., a Divisão de Comunicação da Polícia Civil (Divicom), afirmou que a 24ª DP (Setor O) continua investigando o caso, mas que ainda não há novidade.
Memória
Talitha Cacau Rocha Passos foi encontrada morta na manhã do dia 29 de junho, atrás de um campo de futebol, próximo a DF-451, em Ceilândia. De acordo com a Polícia Civil, a jovem estava desaparecida desde o dia 27 do mesmo mês, quando voltava do trabalho, em Taguatinga. Na época, os familiares pediram ajuda em uma rede social. A foto de Talitha foi compartilhada por vários usuários.
O caso de Talitha foi o segundo no mês de junho. No dia 18, o corpo de uma adolescente foi encontrado em um matagal, no Parque do Cortado, em Taguatinga. Emilly Cristiny, 14 anos, estava com pés e mãos amarrados e com sinais de violência sexual. O assassino de Emilly confessou o crime e foi preso.