CAROLINA FREITAS
Desde que anunciou a suspensão dos pacotes e emissão de passagens da linha “PROMO”, no dia 18 de agosto, a 123 Milhas coleciona (de 18/08 a 28/08) 124 registros de atendimento contra a empresa no Instituto de Defesa do Consumidor do Distrito Federal (Procon-DF). A decisão da 123 Milhas pegou de surpresa todos os clientes com viagens já contratadas, de datas flexíveis, com embarque previsto de setembro a dezembro de 2023.
De janeiro a julho deste ano, o Procon-DF já havia recebido 86 registros de atendimento contra a 123 Milhas. O Procon-DF solicitou no dia 21, após repercussão do caso, esclarecimentos preliminares com prazo de 48 horas para que a 123 Milhas respondesse aos questionamentos do órgão sobre a situação específica dos consumidores do Distrito Federal.
Ao Jornal de Brasília o Procon-DF informou que a 123 Milhas não respondeu com clareza os questionamentos do órgão, dando uma resposta genérica ao DF, igual a dos outros Procons. O Procon-DF esclarece que os questionamentos preliminares não têm caráter punitivo, e que por isso, abriu na sexta-feira (25) procedimento administrativo e agora por força de lei a 123 Milhas tem 20 dias para apresentar defesa ao órgão. “Para fugir do prazo de 20 dias, os Procons fazem questionamentos preliminares de 48 horas, e às vezes as empresas mandam resposta satisfatória, mas não foi o caso da 123 Milhas”, explica o Procon-DF.
O Procon-DF recomenda que todos os consumidores do Distrito Federal afetados pela suspensão da 123 Milhas entrem em contato com o órgão. “A aceitação dos vouchers oferecidos pela empresa não é obrigatória e, às vezes, pode ser inclusive desvantajosa aos consumidores”, alerta o Procon-DF.
Consumidores afetados no DF
A servidora pública, Lygia Oliveira, moradora da Asa Norte, foi uma das consumidoras afetadas pela suspensão dos pacotes e das emissões de passagens da linha promocional da 123 Milhas. Lygia estava com viagem comprada para o dia 6 de outubro para Nova York, nos Estados Unidos. A servidora iria visitar o seu filho com mais sete pessoas da sua família para comemorar o aniversário de 21 anos do garoto.
Lygia comentou ao Jornal de Brasília que foi inesperado o aviso da 123 Milhas “a empresa não fez nenhum aviso individual, fomos todos pegos de surpresa pela informação que a empresa disponibilizou para à imprensa. Eu tinha ligado na 123 Milhas dois dias antes e haviam informado que estava tudo certo com as passagens, e sem risco de as mesmas não serem emitidas”.
A servidora havia comprado as passagens há um ano. E cada uma custou em torno de R$ 1.500. Além dos gastos com as passagens, a família de Lygia desembolsou também cerca de R$ 1.000 com o visto americano para cada um dos sete viajantes. “Inclusive, a minha irmã que está grávida – que iria também – já havia até comprado algumas coisas do enxoval do bebê e pedido para entregar na residência do meu filho nos EUA, nem sei como ficará essa situação agora”, completa Lygia.
Por fim, a servidora avisou à reportagem que entrará na justiça em prol dos seus direitos e que não pretende aceitar a proposta da 123 Milhas de trocar as passagens por vouchers. “Acredito que tenham que ser tomadas medidas mais concretas em relação a essas empresas porque o dano é muito grande aos consumidores. A punição tem que ser maior, se não parece que fica vantajoso fazer isso. A impunidade faz com que isso continue acontecendo”, finaliza Lygia.
Na mesma situação encontra-se a biomédica Michelle Amorim, moradora do Guará, que havia contratado passagem e hospedagem com a 123 Milhas para oito pessoas, do período de 11 a 18 de novembro, para Porto de Galinhas, no Recife – onde todos iriam comemorar o aniversário de quatro membros da família na cidade. Michelle diz que já enviou vários e-mails e mensagens para a empresa pelos canais oficiais que costumavam responder e não obteve nenhuma resposta. “Na sexta-feira (25) eu entrei na justiça, inclusive da hospedagem, já que 123 Milhas não me responde mais. Não pretendo aceitar os vouchers, porque fica difícil confiar agora. Eu avalio que o meu prejuízo é de mais de R$ 6 mil. A empresa arrancou da gente um sonho de um ano, o prejuízo foi além do material”, comenta Michelle ao Jornal de Brasília.
Afetada também pela suspensão da 123 Milhas, a enfermeira, Bruna Tavares, do Riacho Fundo II, decidiu não processar a empresa e avalia concordar com a proposta da empresa sobre os vouchers. “Eu iria viajar sozinha para o casamento de uma amiga, no dia 25 de novembro. Eu entrei em contato com duas advogadas, depois da conversa com as profissionais percebi que não valia a pena processar. Está sendo bem desvantajoso aceitar o voucher, o meu dinheiro de volta seria bem mais adequado, mas infelizmente terei que me contentar com o que tenho”, lamenta Bruna.
Crise na 123 Milhas
Para piorar a situação, a Hotmilhas – controlada pelo grupo 123 Milhas – suspendeu temporariamente, no sábado (26), o serviço de compra e venda de milhas em seu site. O motivo, segundo a Hotmilhas, se deu por conta de uma queda nas vendas da sua controladora, 123 Milhas. Ainda ontem (28), funcionários da 123 Milhas, relataram demissões nos setores de recompra, promo e emissão da empresa.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Pirâmides Financeiras vai ouvir, hoje (29), os sócios e administradores da 123 Milhas, Ramiro Madureira e Augusto Madureira, sobre a suspensão da emissão de passagens aéreas já compradas pelos consumidores. O deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade—RJ) solicitou a convocação dos empresários vista a preocupação de que o caso esteja configurado como um esquema de pirâmide financeira.
Em resposta, ao Jornal de Brasília, a 123 Milhas informa “a empresa vem estudando caso a caso e está cumprindo as decisões judiciais e está fornecendo aos órgãos de defesa do consumidor, entidades ligadas ao setor de turismo e demais instâncias competentes todos os dados e informações disponíveis sobre a suspensão de emissão e venda de passagens aéreas flexíveis – linha PROMO”.
Nota completa 123 Milhas do dia 18/08:
A 123milhas decidiu suspender, no dia 18 de agosto de 2023, as emissões de passagens e pacotes da linha PROMO (com datas flexíveis) com previsão de embarque de setembro a dezembro de 2023. As vendas desse produto já haviam sido interrompidas na última quarta-feira (16/08). Todos os demais produtos da 123milhas permanecem sem nenhuma alteração.
A decisão deve-se à persistência de fatores econômicos e de mercado adversos, entre eles, a alta pressão da demanda por voos, que mantém elevadas as tarifas mesmo em baixa temporada, e a taxa de juros elevada. A 123 milhas ressalta que a linha PROMO representa 7% dos embarques de 2023 da companhia.
Os valores pagos pelos clientes que adquiriram produtos da linha PROMO com embarque previsto para setembro, outubro, novembro e dezembro de 2023 serão integralmente devolvidos em vouchers, com correção monetária de 150% do CDI – acima da inflação e dos juros de mercado. Os vouchers podem ser usados por qualquer pessoa para compra de outros produtos da 123milhas.
As medidas referentes à linha PROMO são uma decisão responsável da 123milhas, no sentido de preservar os valores pagos pelos clientes. A empresa continua comprometida com o propósito de proporcionar a mais pessoas experiências mais acessíveis em viagens e turismo.