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Brasília

Casa de Moisés precisa de ajuda

Arquivo Geral

14/02/2010 7h05

Ana Clara Martins

Toda família passa por momentos difíceis e, mais dia menos dia, precisa da ajuda de parentes ou vizinhos. O caso do orfanato Casa de Moisés só é diferente pelas proporções em que tudo acontece. Essa família tem 74 crianças, nove voluntários, além da diretoria e da mãe de todos, mais conhecida como Mãe Vera. A casa precisa da ajuda de toda a comunidade para se manter.
Situada em Águas Lindas (GO), a 50 km de Brasília, o orfanato está na cidade desde 1990, tendo tido Ceilândia como endereço na década de 80. Mãe Vera, ou Raimunda Silvéria Soares Luz, tem 67 anos e agora já é chamada de vó pelos menores. Foi ela quem começou a história dessa família. Hoje, ela luta por verbas para construir uma escolinha para crianças em idade de alfabetização.
A obra, prevista para começar ainda esta semana, vai levantar três salas de aula e um auditório. A estrutura básica foi orçada em R$ 10 mil. A instituição já conseguiu R$ 3 mil e parcelou o resto em 12 prestações. Além de dinheiro, a casa recebe também todo tipo de material que ajude na construção.
Mas não só material de construção são bem vindos. Um lugar que consome dez quilos de arroz, quatro quilos de feijão, oito frangos inteiros ou de seis a quatro quilos de carne e quatro quilos de macarrão por dia no almoço, precisa de todo o apoio possível. “Tudo aqui é muito, tudo é em grande quantidade”, afirma a voluntária Maria Socorro Franco da Cruz. Ela trabalha na diretoria da Casa, organizando a documentação das crianças.
Socorro conta que só a fatura de energia do mês de janeiro foi de R$ 930. “Energia é o nosso bicho-papão”, afirma. Com o telefone, eles gastam entre R$ 250 e R$ 300 por mês. Um botijão de gás comum dura apenas quatro dias na Casa de Moisés. Portanto, a cozinha usa um cilindro maior, que dura 15 dias, se o forno não for usado. O gasto total com o produto chega a R$ 520 por mês.
Sem internet
A internet chegou à casa no meio do ano passado, mas só fez uma visita rápida. Dois meses depois de instalada, algum cabo deu problema. “Agora, a gente precisa de algum voluntário para vir olhar o que está acontecendo. Estamos sem rede desde então”, explica Socorro. Com os computadores, a história é a mesma. As crianças têm 14 máquinas no total, mas seis não estão funcionando.
Mesmo com todas as dificuldades, o lugar é limpo, organizado, os horários são cumpridos, há monitores para auxiliar nas tarefas da escola e um professor para dar reforço. “Nós temos um tripé que é limite, respeito e humildade. O que nos dá força é o amor. Sem amor e perseverança não há trabalho”, assegura a Mãe Vera.
A história de Raimunda Silvério começou por acaso há quase 40 anos. Um assistente social lhe pediu para cuidar de uma criança. Ela não hesitou. “Eu aceitei, mesmo contra a vontade da minha família. Mais um pouco e eu desmanchei meu lar para montar a instituição”, conta. Ela é viúva, têm três filhos e mora na Casa de Moisés. Segundo ela, no começo os filhos não gostavam da ideia, mas depois se acostumaram e, hoje, também ajudam.
O primeiro terreno, em Ceilândia, era da Terracap. Ela foi despejada e seguiu para Águas Lindas de Goiás com 20 crianças e oito madeirites. Lá, invadiu uma área e começou a construir a Casa de Moisés. Hoje o terreno foi desmembrado e cedido para uso da instituição por 15 anos, renováveis para mais 15.

“Quando cheguei a Águas Lindas eu quase desisti. Foi um dos períodos mais difíceis, entre 1990 e 1995. Mas são fases que passam, quando a gente vê que a necessidade é maior que a nossa vontade”, fala Mãe Vera, que cuida da Casa de Moisés, com 74 crianças. Aos poucos ela conquistou uma estrutura melhor. Já chegou a cuidar de 200 crianças. Hoje a Casa tem brinquedoteca, biblioteca, lavanderia, uma horta e um pomar, um parque e até um consultório odontológico.
A Casa tem regras a serem seguidas. Os meninos ajudam na limpeza da área externa. As meninas ficam responsáveis pela parte interna. “É assim que elas criam vínculos mais fortes. Cuidando do que é delas”, explica Socorro. Ela e mais três irmãs moraram no orfanato em Ceilândia, a partir de 1985 e, há oito anos, ela começou a ajudar o projeto.
“Aqui se mata um leão por dia, mesmo assim é um lar”, fala Socorro. Tudo que tem na Casa é proveniente de doação. O cardápio das refeições é feito de acordo com o que há no freezer no dia. Mas a casa conta com alguns doadores fixos, e outros que “deixaram contatos para quando a situação apertar”.
Também são realizados dois bazares para arrecadar dinheiro. Um permanente, no próprio local, com mercadorias doadas e que não servem para os moradores da Casa e outro de fim de semana.
A instituição só tem uma kombi. Assim, as crianças que estão no ensino infantil até o 5o ano têm o transporte da prefeitura para chegar à escola. Já as outras, do restante do ensino fundamental e do médio, de responsabilidade estadual, vão para a aula a pé: enfrentam 40 minutos de caminhada.
Mesmo assim, a média das notas das crianças é motivo de orgulho na instituição. “No ano passado tivemos apenas uma reprovação, mas nem conta porque o menino teve muitos problemas de saúde. As notas são, geralmente, muito boas”, se anima Socorro.
E quem tira nota boa e tem um bom comportamento, merece um passeio de vez em quando. Mas só quando sobra um pouco de dinheiro para isso. A Casa de Moisés já oferece a eles várias festas para que se divirtam. Festas de aniversário de dois em dois meses (todos ganham presentes), festas juninas, natalinas, de dia das crianças. Todas as datas comemorativas têm seus eventos característicos.
Além disso, há um concurso de leitura que premia os vencedores com passeios. Cada um deve ler quatro livros em dois meses, fazer os resumos deles e aguardar o resultado. O concurso foi idealidado e é realizado por voluntários.
As crianças, entre zero e 18 anos, chegam até lá pelo Conselho Tutelar ou pela própria família. Todas elas estão sendo cadastradas pela Vara da Infância e da Juventude, para se adequarem à nova lei de adoção, sancionada em agosto de 2009. A lei criou o Cadastro Nacional de Adoção, o qual reúne os dados das pessoas que querem adotar e das crianças e adolescentes aptos para a adoção.

 

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