
Qual nota você daria para a sinalização do trânsito do DF? Brasília ficou em 7ª lugar no ranking da pesquisa Sinalize!, que avaliou as 13 maiores capitais do País quanto ao estado de conservação de faixas, semáforos e placas indicativas para pedestres, ciclistas e usuários do transporte público. Assim como nas demais cidades, o resultado local decepciona: a média das notas não passou de 2,5 (em uma escala que vai de zero a dez) e os resultados foram abaixo do esperado em todas modalidades.
Brasília teve o maior número de participações em dois meses de campanha, com 55 avaliações. Os colaboradores percorreram diferentes pontos da capital. De acordo com eles, no quesito transporte coletivo, o veículo mais bem sinalizado é o BRT (Expresso DF), com nota 6,8; seguido do metrô, 6,1; e do ônibus, pior colocado, com 1,7.
A sinalização para pedestres obteve média 3, e em último lugar ficou a sinalização para ciclistas, com nota 1,4. Segundo a pesquisa, dentro da estrutura cicloviária, a melhor sinalização está nas próprias ciclovias (2,9). Já em ruas comuns e calçadas compartilhadas a nota foi zero, indicando que nesses locais não há sinalização.
De acordo com Eduardo Dias, coordenador da campanha, o objetivo do levantamento é chamar a atenção das autoridades e da opinião pública para a precariedade da sinalização urbana, especialmente a voltada para quem não anda de automóvel.
“No Brasil, os passageiros chegam aos pontos de ônibus e não encontram nada que indique quais linhas passam por ali, a que horas e quais os itinerários. Também não há mapas para ajudar os pedestres a encontrar o melhor caminho ou indicar os pontos de referência. Por esse motivo, quando podem, as pessoas optam sair de carro, aumentando os congestionamentos”, diz.
A arquiteta Ana Paula Gonçalves Barros, 36 anos, foi uma das colaboradoras mais empenhadas da campanha. Ela percorreu vários pontos e fez 40 avaliações sobre a sinalização para ciclistas, pedestres e no transporte público. Para ela, a principal falha é a prioridade dada ao trânsito motorizado.
Segundo Ana Paula, quando uma ciclovia e uma via se cruzam, por exemplo, existe sinalização alertando o ciclista, mas não há qualquer indicação aos motoristas. No Eixinho L Sul – via marginal de acesso às quadras residenciais e local de passagem de ônibus – ela se deparou com uma situação complicada para quem está a pé. “A 208 Sul praticamente não tem sinalização para pedestres”, conta.
A diarista Delfina Maria de Sousa, 59, que trabalha na região, concorda: “Muitos locais deixam a desejar em relação à sinalização. Como pedestre, acho que poderia haver mais faixas. Nos lugares onde elas já existem faltam placas que chamem a atenção do motorista”.
Responsabilidade dividida
O Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) explica que cada órgão sinaliza a parte que lhe compete. “O Detran é responsável por sinalizar as vias que cortam a cidade, o DER das rodovias distritais e o DNIT pelas rodovias federais”, afirmou.
Segundo a Secretaria de Transportes, há um estudo técnico para atualização do Plano Diretor de Sinalização. “Temos um projeto para atualizar as placas de Brasília com a aplicação de películas refletivas mais duráveis, nos moldes das usadas na Copa do Mundo. Nas cidades satélites, está em andamento um projeto de revitalização e implantação de sinalização indicativa e de endereçamento”, disse.
Segundo o órgão, as atuais placas foram feitas em aço galvanizado, têm durabilidade média de 12 anos e as películas refletivas de sete anos.
Difícil achar
A capixaba Jéssica Duque Zanotti, farmacêutica de 23 anos, diz que dirigir na cidade, para quem é de fora, pode ser difícil e perigoso. “As placas ficam em cima dos locais onde temos que entrar e isso é péssimo porque nos faz cometer barbeiragens no trânsito para não perder o acesso. Se houvesse sinalização alguns metros antes, indicando que devemos permanecer em determinada faixa, ajudaria”, diz.
O jornalista Du Dias, 34, afirma que com “exceção das ciclovias recentemente implantadas em várias cidades, nas ruas não se vê placas, sinalização de solo ou semáforos específicos para ciclistas. Essa carência aumenta as chances de acidentes”, afirma.
Especialistas criticam cenário
De acordo com o especialista em trânsito Luiz Miúra, a sinalização de trânsito do Distrito Federal é deficitária e isso se deve, em parte, a falta de revitalização. “As placas estão em estado de conservação ruim e a pintura de asfalto deveriam ser renovadas todos os anos, mas isso não acontece. O problema também seria menor se o asfalto fosse lavado, como já acontece em outros estados. Sem a lavagem as pistas acumulam grande quantidade de terra e óleo, o que ajuda a ocasionar acidentes”, explicou.
Miúra lembra ainda que recentemente diversas áreas do DF passaram por operações de recapeamento, mas muitas ainda não foram pintadas novamente. “Sei que há um prazo para secagem do asfalto, mas nada impede os órgãos de fazerem pelo menos uma pré-marcação da sinalização, o que já auxiliaria muito na orientação de motoristas e transeuntes”, afirma.
Segundo ele, as obras também contribuem para a perda progressiva da sinalização. “Muitas construtoras não cumprem a responsabilidade de sinalizar seus perímetros”.
Responsabilidade
Na visão de Fábio de Cristo, especialista em trânsito e professor do Centro Universitário (UniCeub), o fato de Brasília ser a capital do País – o que por si só já a transforma em ponto turístico – e uma cidade com características distintas das demais, faz com que uma sinalização adequada seja primordial para a fluidez do trânsito.
“A sinalização precisa atender as demandas locais e externas, de pessoas que vem de fora e não sabem andar pela cidade. Em Brasília há de se ter um cuidado maior com isso, já que a estrutura de endereços é totalmente diferente dos outros estados”, aponta.
O especialista destaca ainda que uma das principais funções da sinalização é alertar os cidadãos para que eles possam se antecipar aos eventuais acontecimentos no trânsito. “Por esse motivo precisa ser facilmente identificável. Se for colocada de maneira errada pode confundir e atrapalhar ao invés de ajudar”, afirmou.