Moradores da quadra 203 de Águas Claras têm relatado a presença frequente de caramujos africanos nas proximidades das áreas residenciais. A espécie é invasora e representa um risco tanto para a saúde pública quanto para a biodiversidade local. No Residencial Dom Pedro II, de acordo com o síndico Francisco Júnior, os animais chegaram a entrar na garagem do prédio.
O Jornal de Brasília foi até o local onde os animais foram vistos. Próximo aos condomínios, há um grande terreno baldio. Segundo Júnior, o terreno é o foco de onde saem os caramujos. Com a chegada das chuvas, a situação piorou. “Nesse terreno nunca houve de fato uma construção. Então ele está sempre dessa forma, de uns dois anos para cá, ele praticamente ficou abandonado”, contou o síndico.
O transtorno com os animais já chega nas áreas residenciais, conforme destacou Júnior. “Com essa época de chuvas, o terreno fica mais úmido e com a quantidade de mata, só vai aumentar a quantidade de caramujos no local. Eles já adentraram o condomínio. A gente estava com moradores tirando fotos deles no subsolo da garagem”, contou.

A professora de biologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Marta Luciane Fischer, explicou ao JBr sobre os caramujos africanos. “É uma espécie invasora que foi levada ao redor do mundo como alternativa para alimentação. É considerada invasora, pois se estabeleceu e causa danos. É uma espécie generalista, muito resistente pois evoluiu na região da África, que é muito quente”, detalhou a professora.
Segundo a Secretaria de Saúde do DF (SES-DF), os caramujos africanos são hermafroditas e procriam a cada dois ou três meses com fecundação cruzada, podendo colocar em média 200 ovos por postura e se reproduzir mais de uma vez por ano. Estes ovos são parecidos com a semente de mamão, branco-amarelados e ficam parcialmente enterrados. A estimativa média de vida do caracol é de 5 a 6 anos.
Os riscos que a espécie traz são diversos. “A infestação, em um primeiro momento, causa danos a plantações e jardins. Também é um risco real para a biodiversidade quando vai até a área nativa, o que não é muito comum”, comentou Fischer. Ela também ressaltou que existe um risco à saúde quando eles são infectados por parasitas vindos de ratos. Quando infectado por vermes, o caracol africano pode transmiti-los e provocar doenças, como a meningite eosinofílica ou a enterite eosinofílica. “Se eles [caramujos africanos] estivessem infectados, a saúde pública estaria em colapso”, apontou.
Segundo a professora, lixo orgânico espalhado em terrenos baldios e lixões são propícios para a proliferação do caramujo africano. Júnior relatou ao JBr que os moradores da quadra 203 querem que seja feita uma ação a respeito do terreno baldio ao lado dos prédios porque a preocupação com os caramujos cresce a cada dia.
A moradora Rose Santos tem tido bastante cuidado recentemente no local. “A gente desce muito [na praça]. Geralmente eu desço três vezes ao dia com a minha cachorrinha, e é perigoso. O pessoal aqui vive relatando sobre esses caramujos, que é uma espécie muito perigosa. A gente tem esse mato aqui do lado, e aqui é uma pracinha que tem muitas crianças, muitos pets. Então, assim, é bem difícil”, disse a moradora.
Para Jaqueline e Carlos, a preocupação é com o bebê pequeno. Os dois também moram na quadra, e ela já se deparou com o caramujo enquanto caminhava. “Agora o que eu faço? Eu prefiro ficar debaixo do bloco, porque como o bebê quer muito ficar no chão, não tem condição de ficar aqui onde pode ter esses caramujos”, disse Jaqueline. “Todo mundo está sabendo da nossa preocupação e a gente está pedindo ajuda porque já até fizemos ações que não estão dentro das responsabilidades do condomínio”, contou Júnior.
Medidas para combater os animais
De acordo com a professora Fischer, a retirada constante dos caramujos é a ação ideal de combate, “porque normalmente tiram os maiores, e os filhotes ficam enterrados. Quando tiram os maiores e mais velhos, abre espaço para a colônia ressurgir com mais força”, ressaltou.
“A grande questão ética é como matar os caramujos, pois os métodos tradicionais podem causar sofrimento. O ideal sempre é prevenir para não precisar chegar nesse ponto. O ideal, nesse caso, é ter apoio do município ou estado para coleta e destinação dos animais”, completou Fischer.
Esse é um dos problemas enfrentados pelos moradores da quadra, já que não podem entrar no terreno para fazer a limpeza do mato. A Secretaria de Estado de Proteção da Ordem Urbanística do Distrito Federal (DF Legal) informou em nota ao Jornal de Brasília que esteve no local no último sábado (10) e verificou a irregularidade no terreno baldio. “A pasta agora irá fazer a busca no sistema para identificar o responsável e lavrar notificação para que seja realizada a manutenção necessária”, indicou.
Até lá, os moradores continuam com medo de que os animais possam trazer mais transtornos para a comunidade local. “A gente quer que o proprietário tome providência com relação à limpeza desse terreno o mais rápido possível, porque a gente não está mais aguentando esse tipo de problema”, finalizou Francisco Júnior.