A decisão tomada pela atriz Angelina Jolie surpreendeu o mundo. Retirar os seios antes mesmo que um câncer fosse diagnosticado foi a estratégia encontrada pela atriz para lidar com o alto risco da doença. O diagnóstico não veio de forma simples, já que foi necessário um exame nada popular, para trazer a informação de que havia uma mutação genética que poderia ser responsável por uma complicação no futuro. No Distrito Federal, pacientes que já tiveram câncer aprovaram a iniciativa, mas especialistas ponderam que cada caso deve ser analisado de maneira isolada.
Planos de saúde e a rede pública não cobrem o exame de sequenciamento genético feito pela atriz hollywoodiana. Justamente por conta do preço, R$ 7 mil. Com ele, é possível identificar fatores hereditários de risco, de vários genes. No caso de Angelina, a família já teve ocorrência de câncer de mama: a mãe da atriz morreu aos 56 anos.
Após os resultados, ficou comprovado que ela tinha alterações no gene BRCA1, que elevam as chances de câncer de mama em 87% e de ovário em 50%. A retirada dos seios foi a primeira das medidas, já que a atriz planeja retirar os ovários, para minimizar riscos.
Brasília
Em Brasília, o exame é feito pelo laboratório Sabin. Não há, porém, cobertura dos planos de saúde, muito menos do Sistema Único de Saúde. O doutor em biologia molecular Gustavo Barra, do Sabin, explica que é necessária recomendação médica, para ser feito o exame de sequenciamento genético. “Quais são os genes que precisam ser sequenciados? Dependendo do caso, analisamos de 50 a 60 genes, para encontrar mutações que causem pré-disposição”, disse.
De acordo com Barra, o sequenciamento não é recomendado a quem não tem o que investigar, quando não há histórico de doença grave na família. “O teste é para quem tem indicação clínica. A decisão deve ser com o médico.”
Ele acredita que, no futuro, o valor pago pelo teste poderá diminuir, graças ao avanço tecnológico. “Hoje, é possível fazer mapeamento de todo o genoma, que não tem tanta utilidade para prevenção de doenças, por mil dólares e em um dia.”
Preocupação deve começar cedo
Segundo a especialista em imagem de mama Maria Helena Mendonça, do laboratório Exame, o acompanhamento em relação a um possível câncer de mama é algo que deve ser feito por todas as mulheres, mas, em especial, por quem teve histórico da doença na família. “Não é possível fazer prevenção, já que é uma doença que não pode ser evitada, mas ela pode ser detectada precocemente”, explicou.
“A mulher que teve caso na família deve começar a fazer exames dez anos antes do que a parente que teve câncer fez. Por exemplo, se a mãe da paciente teve câncer aos 40 anos, a filha deve começar a monitorar a situação aos 30”, concluiu. O acompanhamento médico, de acordo com Maria Helena Mendonça, precisa ser iniciado após os 25 anos, por conta da densidade da mama da mulher nessa idade.
Prevenção
O oncologista Anderson Silvestrini, do grupo Acreditar, explica que existem muitas variáveis envolvidas na escolha sobre retirar ou não as mamas. Além disso, outras alternativas podem ser adotadas para prevenir o câncer, após resultados preocupantes no teste de sequenciamento genético.
“Não há um consenso sobre o que deve ser feito. E pode ser adotada uma quimioprevenção, que diminui o risco de câncer em 30%”, disse. “A retirada dos ovários é uma opção, mas pode ser mais grave do que a retirada das mamas, porque promove a menopausa mais cedo e pode causar osteoporose”, avalia.
Apesar do pedido de sequenciamento ser mais frequente quando o paciente possui câncer de mama, o médico lembra que apenas 10% dos casos pode ser motivado por componente genético. A necessidade de se fazer o teste e até da retirada de órgãos antecipadamente deve ser discutida entre médico e paciente, porque existem vários fatores a serem avaliados.
Total apoio à iniciativa
A presidente e fundadora da Recomeçar, Associação de Mulheres Mastectomizadas de Brasília, Joana Jeker, diz que a atriz norte-americana teve coragem para falar sobre o assunto, já que ainda existe um tabu. “É importante por que causa uma repercussão e traz à tona o tema. Inclusive, vamos trabalhar para que o SUS faça o teste de sequenciamento genético, que é caro. E é preciso pressionar os laboratórios para deixarem acessível o exame.”
Joana acrescenta que a escolha é pessoal e que deve ser tomada em conjunto com o médico. “Cabe à mulher decidir”, afirmou.
Diagnóstico
Ela foi diagnosticada aos 30 anos com câncer e fez tratamento pelo SUS. Joana retirou a mama, fez quimioterapia e ficou careca. Após três cirurgias, teve os seios reconstruídos. “Minha recuperação dos seios foi em três etapas. Na primeira, foi restabelecido o volume da mama. Aí, operei para deixá-los do mesmo tamanho. Por último, foram reconstruídos a auréola e o bico”, diz.