Às 10 horas da manhã desta quinta-feira, 22 de julho, um total de 26 calouros do curso de Farmácia começou uma peregrinação que saiu do Minhocão e só terminou às 18 horas no centro acadêmico do curso. Foi mais um trote organizado por alunos da UnB. Desta vez, os calouros assinaram uma lista consentindo com as brincadeiras que marcaram o “ritual de passagem”.
A relação com os nomes dos calouros foi um artifício encontrado pelos veteranos para garantir que ninguém foi forçado a participar. O ‘documento’ não definia que tipo de situação os participantes teriam de enfrentar. “Fizemos uma lista para mostrar que os calouros consentiram e ninguém foi obrigado a nada”, explica Maísa Raposo, do segundo semestre de Farmácia.
A preocupação em dividir as responsabilidades surgiu em consequência da repercussão do último trote da Agronomia. Realizado no dia 13 de julho no campus Darcy Ribeiro, o trote recebeu críticas da comunidade acadêmica, do reitor José Geraldo de Sousa Junior e provocou discussões sobre a prática. O Conselho de Ensino e Pesquisa (Cepe) chegou a discutir a inclusão do tema na pauta.
PASSO A PASSO – O trote da Farmácia começou no ICC e seguiu até um gramado ao lado da Faculdade de Saúde. Os veteranos sujaram os calouros com comida de gato, café, farinha, mel, tinta, molho de alho e mostarda. Depois, deram início a uma competição entre cinco equipes, com provas de gincana. Após rodar ao redor de um cabo de vassoura, os calouros quebravam um ovo na própria cabeça e respondiam a perguntas relativas ao curso. A equipe que ganhasse, teria de arrecadar menos dinheiro.
Como ocorre em outros trotes, os calouros deveriam seguir, sujos e cheirando mal, em busca de R$ 70,00 para promover um churrasco. “Quem não quiser recolher, pode trazer o dinheiro de casa”, explica Paula Martins. “Brinca quem quer, porque é divertido”. O acerto de contas estava marcado para às 18h no CA. Quem trouxesse material de limpeza ou alimentos para doação teria um abatimento da dívida.
Enquanto algumas veteranas afirmavam que o trote era realizado com total anuência dos calouros, uma outra gritava no mega-fone: “Ou participa de tudo, ou não participa de nada. Quem começou vai até o final”.
TUDO PLANEJADO – Ninguém foi pego de surpresa. Os veteranos combinaram com os calouros a data e o horário para o ritual. “A gente avisou para eles trazerem uma roupa que pudessem sujar. Guardamos as coisas deles com cuidado”, conta Marina Cassago, do 2º semestre. “Trouxemos comida e água para dar para eles durante o trote”, completou Maísa Raposo, também do segundo semestre.
Thaís Leite, caloura, achou o trote tranquilo. “Não vou dizer que ficar sujo é bacana, mas estou aqui por vontade própria”, declara. “É divertido e, até agora, está tudo normal”. Luiz Felipe Machado afirmou que a turma estava preparada. “Trouxemos roupa de casa”, diz. “Eu não acho que é obrigatório passar por isso, mas quem está aqui escolheu participar. Eu acho que é um ritual importante”. Para Maísa, quem não participa do trote acaba se sentindo excluído. “É tão difícil passar na UnB que, se não tiver trote, a felicidade não fica completa”, defende.
Para realizar o trote, os veteranos compraram doces e deram para os calouros venderem pelo preço que quisessem. O valor arrecadado foi usado para adquirir o material usado no trote.
PRESSÃO – Para especialistas, a lista criada pelos veteranos não legitima a prática e nem elimina a violência embutida no trote. “O consentimento já é feito sob coação. É uma coação em relação à integração do grupo. Os calouros se sentem coagidos porque vão ser ‘sacaneados’ se não assinarem. Nem todos assinam com tranquilidade”, defende o professor de Direito, Alexandre Balduíno.
Ele explica que a lista não tem valor legal. “Do ponto de vista jurídico, o fato deles consentirem pessoalmente, não avalisa o trote”, explica. “As regras são da universidade, não são um acordo entre partes”. Segundo o professor, o documento não garante os rumos que a “brincadeira” pode tomar e nem protege os participantes de atos violentos ou consequências graves. “O mais importante é perceber que as práticas de trote ridicularizando, com bullying, não são adequadas para quem está no século XXI, em uma universidade pública”, destaca. “Iniciativas como o trote solidário são muito mais eficazes e interessantes para o ambiente universitário. Do ponto de vista pedagógico é uma manifestação de retardo reproduzir práticas seculares que visavam a humilhação como rito de passagem”, completa.