As apreensões de maconha no primeiro semestre de 2014 ultrapassaram o volume de todo o ano passado no Distrito Federal. O aumento foi de 65,6% com relação ao mesmo período de 2013, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Isso sem contar a 1,5 tonelada apreendida pela Polícia Civil neste mês, maior montante capturado numa única operação, intitulada Tártaro.
Além dessa droga, crack e LSD foram os entorpecentes que mais apresentaram aumento de apreensões na capital federal, totalizando mais de duas toneladas nos primeiros seis meses do ano. A Coordenação de Repressão às Drogas (Cord) da Polícia Civil, no entanto, garante que pelo menos três toneladas e meia foram apreendidas pela delegacia até este mês. No ano passado, o montante total equivale à apreensão da operação Tártaro.
A maconha é, historicamente, a droga de maior circulação, o que, para o especialista em segurança pública Nelson Gonçalves, pode explicar o número elevado de apreensões. O crack, por sua vez, é mais barato comparado às outras drogas, o que aumenta o consumo por ser mais acessível. Já o LSD, que passou um tempo distante dos holofotes, é mais recorrente entre os usuários de classe média alta.
Prevenção
“As operações policiais são essenciais para desmantelar quadrilhas especializadas. Quando a polícia intensifica as ações, o número de apreensões aumenta, mas de nada adianta se não tiver como coibir e prevenir as ações criminosas”, assegura Gonçalves, lembrando que a segurança pública envolve uma atuação multidisciplinar: “É questão dos sistemas de saúde, de educação e de inclusão social, na medida em que é essencial ter campanhas educativas, recuperação de viciados e instrução, por exemplo. Demanda uma série de políticas públicas”, explica.
Por outro lado, o maior número de apreensões de entorpecentes na capital federal pode significar maior despreocupação e ousadia dos criminosos, que estariam apostando numa impunidade construída ao longo dos anos. “Essa certeza de impunidade e incapacidade do sistema de Justiça criminal dá aos bandidos uma maior liberdade. Ocorre que o sistema tem se mostrado muito aquém do que é necessário para o controle da criminalidade”, analisa.
Rota do tráfico
De acordo com o delegado da Cord, Rodrigo Bonach, cerca de 80% da maconha consumida no Brasil é produzida no Paraguai. A rota natural teria como ponto de partida no território nacional a região do Mato Grosso do Sul ou Paraná, sendo mais recorrente o primeiro estado. “A maconha geralmente atravessa Goiás em direção ao Distrito Federal e a estados do Nordeste”, informa.
Quatro meses até pegar quadrilha
A investigação da operação Tártaro começou há quatro meses, após denúncia anônima. Em 6 de agosto, a corporação apreendeu 1.116 quilos da maconha escondidos no fundo falso de uma carreta na BR-060, próximo ao Engenho das Lajes. O montante está avaliado em R$ 1,5 milhão e, de acordo com o delegado da Cord, Rodrigo Bonach, a maconha seria distribuída no DF, GO e estados do Nordeste.
Com um alicate hidráulico, os Bombeiros rasgaram a lataria do veículo, carregado com 15 toneladas de milho. Quando o grão começou a cair, o fundo falso apareceu. Lá, estavam os malotes da maconha, que vinham de Ponta Porã (MS). Na última segunda-feira, mais 400 quilos do entorpecente foram apreendidos na mesma cidade, na segunda etapa da operação. Além disso, 22 quilos de cocaína, pertencentes à quadrilha, foram interceptados em Sidrolândia (MS).
De dentro da cadeia
Condenado há dois anos a 42 anos de prisão por tráfico internacional de drogas, Clodoaldo Antônio Felipe, o “Gasolina”, comandava a operação ilícita de dentro do local onde cumpria a pena, em Aparecida de Goiânia (GO), por meio de celulares adquiridos em visitas de familiares e advogados.
“Ele tinha a facilidade de ter acesso a telefones celulares e dali de dentro comandava a aquisição de drogas, transporte, contratação de pessoas e dava ordens a serem seguidas por quem estava fora da prisão”, explica Bonach. O caso não é isolado. Há pouco mais de um mês, 81 celulares foram apreendidos na Casa de Prisão Provisória (CPP) na mesma cidade em que Clodoaldo cumpre a pena.
Para o delegado, isso demonstra a importância de acabar com celulares dentro dos presídios. “Isso é um fator criminógeno que causa um impacto direto na segurança pública não só no Distrito Federal como no Brasil inteiro”.
Ainda segundo ele, a posse dos aparelhos por detentos caracteriza uma deficiência do sistema, que não ocorre de forma reiterada nos presídios do DF. Mas lembra que, quando isso acontece, é preciso averiguar se a situação é fruto de incapacidade ou de facilitação.
Transferência do chefão para lugar seguro
Como medida de segurança, o delegado informou que será feita uma solicitação para a transferência de Clodoaldo a um presídio que possa garantir segurança suficiente para que não tenha acesso a telefones. Assim, acredita que poderá impedir novas ações do criminoso de dentro de penitenciárias. “Enquanto não conseguirmos acabar com os celulares dentro dos presídios do Brasil, o tráfico de drogas e o crime organizado vão prosperar e a violência extramuros vai continuar”, enfatizou o delegado.
Reincidentes
Ao todo, seis pessoas foram detidas. Entre eles, Joselaine Gomes Lourenço, a “Jose”, braço direito do líder. Ela era responsável pela contratação de motoristas e de mecânicos que instalavam fundos falsos nos caminhões e está em Ponta Porã (MS), junto com um homem identificado como “Branquinho”.
Aderci Divino do Carmo, o “Bodão”, e Gilberto Dembiski, o “Alemão”, encarregados de preparar os caminhões e gerenciar os negócios dos traficantes em Goiás, estão presos em Goiânia. Ainda nesta semana, todos os integrantes da quadrilha devem ser transferidos para o DF, onde já está o motorista do caminhão com milho e maconha, Marcelo Amorim.
Todos possuem condenações anteriores e responderão por tráfico interestadual de drogas, com pena de até 25 anos de prisão, e organização criminosa, com pena de 5 a 15 anos. No caso de Clodoaldo, a pena passa dos 40 anos de prisão.
Saiba mais
Clodoaldo é considerado pela Polícia Civil como um aluno do megatraficante Leonardo Dias Mendonça, o “Barão do Tráfico”, que, segundo investigações, em três anos ele trocou de celulares dentro do presídio por pelo menos 50 vezes para evitar grampos. Ambos ficaram presos por anos na mesma penitenciária e o “Gasolina” passou a operar da mesma forma que ele, com a facilidade de operação por celulares.
A Operação Tártaro recebeu este nome em referência à mitologia grega, na qual tártaro é um dos deuses nascidos a partir do caos e também o local onde criminosos são castigados.
O milho apreendido será doado nesta terça pela manhã ao Zoológico de Brasília. As carretas serão leiloadas e o dinheiro arrecadado terá como destino a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas no combate as entorpecentes no Brasil.
