Menu
Brasília

Buraqueira nas vias paralisa o transporte de crianças para escola

Arquivo Geral

21/02/2018 7h00

Atualizada 20/02/2018 22h05

João Stangherlin

Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com

As crianças e adolescentes do Morro da Cruz, em São Sebastião, estão desde ontem sem transporte escolar público. O motivo é a falta de manutenção das vias rurais da região, que estragam os veículos. A empresa responsável afirmou que os escolares não vão rodar nas áreas críticas até que o problema seja solucionado. Enquanto isso, os pais se esforçam para levar os filhos às escolas.

A dona de casa Cíntia Silva de Paula, 25 anos, tem três filhos que estudam em colégios diferentes e teve de pagar R$ 10 mototáxi na volta para casa. “É perigoso, mas não tenho o que fazer. Se continuar assim, o fim do mês vai ser complicado. Não tenho dinheiro”, alega.

Cíntia conta que problemas como esse são comuns. “Todo ano é a mesma coisa. Ou é a rua que está ruim e os ônibus não passam, ou é a greve dos escolares. A gente sempre tem uma despesa com transporte”, relata. A dona de casa cogitou a possibilidade de pagar um escolar particular, mas ela e o marido sobrevivem com um pouco mais de um salário mínimo. “Cobram R$ 200 por criança. Ou seja, se eu pagasse, daria R$ 600 por mês. É impossível”, argumenta.

A dona de casa Maria Luciene Mendes, 30 anos, passa por situação semelhante. Ela não pode pagar uma van, então depende exclusivamente do transporte público. Ontem, o marido precisou sair do serviço duas vezes para levar e buscar o filho Samuel, de 8 anos, que estuda na Escola Classe Cerâmica da Benção. “Ele corre risco de levar uma advertência no trabalho. Mas, fazer o quê?”, indaga.

Em dias normais, Maria Luciene enfrenta outro problema: “Tenho que caminhar um quilômetro para deixar meu filho no ponto para o ônibus buscar. Se não deixo lá, o escolar não pega, porque falaram que eu moro a menos de dois quilômetros da escola”, revela.

Quando a solução é pagar

Cansado dos imprevistos do transporte escolar público, o autônomo Gilmar da Conceição Vieira, 43 anos, resolveu pagar, a partir deste ano, uma van particular para o filho, João Mateus, de 11 anos. “Meu filho tinha que sair de casa e caminhar até o ponto para o ônibus pegar. Não tem faixa de pedestre, não tem segurança. Eu ficava preocupado. Por segurança, coloquei na van”, justifica. “As ruas estão precárias. Escolar do governo não chega aqui”, completa.

No entanto, o autônomo, que paga R$ 160 por mês, garante que o dinheiro faz falta. “Aperta o bolso. Se tivesse um transporte público de qualidade, seria melhor, porque com esse dinheiro eu poderia pagar outras contas. Ainda mais eu que não tenho um trabalho fixo”, conta.

Seis veículos atolados em um único dia

Uma funcionária da empresa Faco, que atende a região do Morro da Cruz, contou ao Jornal de Brasília que na segunda-feira seis ônibus ficaram atolados nas vias rurais. “Não recebemos nenhum suporte do governo para retirar os carros. Dois ficaram na rua, porque não conseguimos tirar. Isso tudo com risco de roubarem, depredarem ou até colocarem fogo”, afirmou a mulher, que não quis se identificar.

A funcionária apontou que os ônibus não pararam completamente o serviço. “Só em quatro locais críticos, como o Capão Comprido e o Zumbi dos Palmares”, explicou. No entanto, ela também garantiu que os carros não vão passar enquanto as vias não estiveram em boas condições. “Não vamos colocar a vida dos alunos em risco. As vias estão totalmente precárias, sem condições de passar carro”.

Pedido da comunidade

Segundo o líder comunitário do Morro da Cruz, Bernardo Rogério Mata, pelo menos três ofícios foram protocolados na Administração Regional de São Sebastião. O mais recente é de 26 de janeiro deste ano. “A situação se agravou no ano passado, quando as empresas começaram a recusar a passar por determinados locais. A comunidade trouxe até mim diversas reclamações. A solução que encontramos foi começar a notificar a Administração sobre o que estava acontecendo”, esclarece.

O que foi repassado para o líder comunitário é que, além da comunidade, a empresa Faco e a Regional de Ensino também protocolaram outros pedidos solicitando a manutenção das estradas. “Infelizmente ninguém fez nada pelas crianças. A dúvida é: se o governo não faz, quem vai poder nos ajudar?”, questiona.

Como solução, Bernardo sugere que o governo pavimente as ruas do Morro da Cruz. “Assim acabaria todo problema, não só de ônibus escolar. Dentro do bairro já existem quatro quilômetros de asfalto. Seria só continuar o serviço de pavimentação. Apesar de o Morro da Cruz ser considerado rural para o governo, temos posto de saúde, coleta de lixo, ônibus circular… só falta o asfalto, porque sofremos na época de chuva, com a lama, e na seca com a poeira”, conclui.

Versão oficial

Em nota, a Administração Regional de São Sebastião informou que, desde segunda-feira, está colocando cascalho nos buracos. “Até o fim de semana os buracos que têm atrapalhado a circulação do ônibus serão tapados”, prometeu. A administração não respondeu os questionamentos da reportagem sobre a existência de projeto de pavimentação do Morro da Cruz. Já a Secretaria de Educação negou que os alunos estejam sem transporte escolar. “Em virtude dos problemas nas vias, com risco de atolamentos e acidentes, os estudantes foram orientados a embarcar nos ônibus em dois pontos: Caixa D’água e Dois Irmãos”. A previsão da pasta foi a mesma da administração: até o fim de semana os problemas de acesso estarão resolvidos.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado