Jurana Lopes
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Quatorze horas foi o tempo em que o aplicativo para smartphone WhatsApp ficou bloqueado – o suficiente para que muitos brasileiros constatassem a dependência da ferramenta de conversas instantâneas. Por decisão judicial, as principais operadoras de telefonia móvel do País foram obrigadas a bloquear o WhatsApp por 48 horas, a contar da 0h de ontem. Entretanto, uma nova decisão judicial, no início da tarde seguinte, determinou o restabelecimento do aplicativo, que voltou a funcionar por volta das 13h.
Para a cabeleireira Serena Santos, 19 anos, o bloqueio do app causou transtornos para todos os usuários. “Uso o WhatsApp diariamente, tanto para lazer como para o trabalho. Tive de recorrer ao bate-papo do Facebook ou enviar mensagens de texto, que gastam muito mais, o que é uma desvantagem em comparação ao WhatsApp, já que internet se tem em quase todos os lugares”, avalia.
Mais gastos
E muita gente acabou gastando os créditos do celular, como a técnica em enfermagem Ilda de Sousa, 32 anos. Ela precisou fazer ligações para resolver assuntos que poderiam ter sido solucionados via mensagem. “O custo de uma ligação é muito alto. Além disso, hoje, só ligamos para as pessoas mais íntimas. Com as outras, a gente conversa pelo WhatsApp. Sem contar que não é toda hora que podemos atender o telefone”, observa.
O vendedor Marcos Moreira, 26 anos, utiliza o aplicativo principalmente no trabalho. “É uma ferramenta essencial, pois muitas negociações com clientes são feitas por meio do WhatsApp. Às vezes, falta algum documento para finalizarmos o contrato e, por meio de uma mensagem, o cliente envia a foto, o que é bem mais rápido”, explica. De acordo com Marcos, nem sempre é possível resolver alguma pendência por meio de ligação e o aplicativo torna as negociações mais rápidas.
A estudante Gabriela Costa, 18, admite ser completamente viciada no WhatsApp. Em princípio, ela pensou que o bloqueio fosse somente um boato, até que as notificações pararam. “É horrível ficar sem o aplicativo, não sei o que fazer”, diz.
E o problema repercutiu internacionalmente. Até o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, comentou. “Estou chocado que nossos esforços em proteger dados pessoais poderiam resultar na punição de todos os usuários brasileiros do WhatsApp pela decisão extrema de um único juiz”, disparou.
Alternativa parecida à disposição
Em meio à confusão, quem se deu bem foi o Telegram, aplicativo semelhante ao WhatsApp. Segundo os desenvolvedores, quando o bloqueio passou a valer, a partir da 0h de ontem, o app já havia sido baixado mais de 1,5 milhão de vezes. Porém, a grande quantidade de novos usuários não foi bem suportada.
Para começar a usar o serviço de bate-papo, o usuário precisa inserir um código, enviado por SMS. Mas o volume de solicitações fez com que as plataformas que enviam esses torpedos automaticamente entrassem em colapso. Por isso, alguns usuários esperaram até duas horas.
O educador físico Vinícius de Castro, 27 anos, é usuário assíduo do Telegram. “Acho o Telegram mais seleto e objetivo, não tem tantos grupos como o WhatsApp e é bem mais prático. Meu uso é muito voltado para a questão profissional. Já utilizei o WhatsApp, mas achei o aplicativo insatisfatório”, compara.
Desbloqueio
O desbloqueio do WhatsApp ocorreu após o desembargador Xavier de Souza, do Tribunal de Justiça de São Paulo, conceder liminar para que as operadoras voltassem a oferecer acesso ao serviço. “Em face dos princípios constitucionais, não se mostra razoável que milhões de usuários sejam afetados em decorrência da inércia da empresa em fornecer informações à Justiça”, escreveu Souza. O julgamento do mérito do recurso ainda será analisado pela 11ª Câmara Criminal (TJ-SP).
Saiba mais
O TJSP explicou que o bloqueio foi determinado porque a empresa descumpriu pedidos judiciais para ceder informações a uma investigação em andamento, iniciada em 23 de julho de 2015. A decisão foi tomada em um procedimento criminal, que corre em segredo de Justiça. A empresa foi notificada mais uma vez em 7 de agosto, com uma multa fixada em caso de não cumprimento. O aplicativo não atendeu à determinação novamente. Por isso, o Ministério Público solicitou a interrupção dos serviços por 48 horas com base no Marco Civil da internet.