O Distrito Federal é a 5° capital mais arborizada do Brasil. É o que aponta a Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o levantamento, 84,2% dos moradores da capital vivem em ruas com presença de árvores. Ainda segundo o estudo, realizado a partir dos dados do Censo 2022, 15,5% da população reside em vias sem qualquer tipo de arborização. Apesar do índice elevado, a pesquisa revela diferenças na distribuição do verde: 16,6% das pessoas moram em ruas com até duas árvores, 11,2% em vias com três ou quatro árvores e 56,4% vivem em áreas mais arborizadas, com cinco ou mais árvores no entorno de suas casas. Segundo o levantamento, entre os municípios das capitais que tinham os maiores percentuais de moradores em vias com arborização, Brasília (84,2%) apareceu na quinta colocação, atrás de Curitiba (85,2%), Palmas (88,7%), Goiânia (89,6%) e Campo Grande (91,4%).
A Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem como objetivo principal gerar informações de infraestrutura urbana relativas à acessibilidade, circulação de pessoas e veículos, drenagem pluvial e arborização nas áreas selecionadas para a pesquisa. Segundo o IBGE, esses dados servem para fornecer informações que apoiem a formulação de estudos, diagnósticos, políticas públicas e programas relativos ao planejamento e gestão urbana para ampliar o conhecimento sobre as condições habitacionais da população, em um contexto de cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis. “Fornecer informações para melhorar a cobertura da coleta domiciliar do Censo Demográfico, como a atualização de faces nos setores censitários”, disse o IBGE.
Raimundo de Sousa, 68 anos, que trabalha como vigia de carros, reconhece a presença de árvores em sua região e valoriza a sombra e o alívio térmico que elas oferecem. “Aqui tem muitas árvores espalhadas, mesmo sem parque, o verde ajuda a refrescar”, afirma. Para ele, não é necessário plantar mais. “Se mantiverem o que já tem, já tá de bom tamanho. O importante é cuidar, podar, não deixar morrer.” O morador da Ceilândia também destaca a importância da arborização no dia a dia: “A sombra das árvores ajuda a aguentar o calor, e a cidade fica mais bonita, mais tranquila.” Apesar de não cultivar plantas por morar de aluguel, ele revela vontade: “Se eu tivesse um cantinho meu, já teria plantado umas três árvores. Acho bonito e faz diferença”, revelou.
Já Marco Gomes, 55 anos, produtor audiovisual e morador de Taguatinga, tem uma visão crítica sobre a desigualdade na distribuição de áreas verdes no Distrito Federal. “O Plano Piloto ainda é arborizado porque foi pensado assim, mas nas outras regiões isso se perdeu com o tempo. Cidades como Taguatinga e Vicente Pires sofreram com o avanço desordenado da urbanização. Hoje tem mais prédio e asfalto, menos árvores. Perdemos muito do que já tivemos”. Marco também alerta para os impactos da falta de vegetação: “A árvore não cai porque chove. Ela caiu porque foi mal cuidada, porque tiraram o solo, colocaram cimento em volta. A falta de planejamento destrói o que a natureza construiu.” Para ele, arborização não é só estética: “É clima, é ar puro, é qualidade de vida. Isso tinha que ser prioridade em qualquer cidade.”
5° lugar
A engenheira civil Ângela Bertazzo afirma que a arborização urbana exerce um papel fundamental na melhoria da qualidade de vida nas cidades. Segundo ela, além de reduzir as chamadas “ilhas de calor”, a presença de vegetação impacta diretamente o bem-estar da população e a saúde pública, com a diminuição da incidência de doenças respiratórias causadas pela poluição. “A vegetação proporciona uma ambiência mais relaxante e agradável”, explica. No entanto, a especialista aponta desigualdade na distribuição das áreas verdes no Distrito Federal. De acordo com Ângela, essa estrutura é mais visível no Plano Piloto. “Nas outras regiões administrativas, as áreas verdes dependem dos proprietários dos lotes para garantir a arborização. No Plano Piloto, temos projeções urbanísticas que entremeiam os lotes com áreas públicas”. Ela destaca ainda que o tombamento do centro da capital contribui para preservar o conceito original da cidade como “Cidade Jardim”, apesar de pressões urbanísticas. “Há uma constante tentativa de ocupação irregular de áreas verdes, como ocorre com restaurantes que invadem espaços públicos nas superquadras”, alerta.
Na avaliação da especialista em urbanização, um aspecto positivo foi a destinação de grandes áreas para parques urbanos. Uma iniciativa que permitiu criar espaços de lazer e contato com a natureza dentro da área urbanizada. “A organização urbana prevista em projeto estabelece limites para ocupação privada, o que não acontece numa cidade tradicional, não planejada. É preciso fazer reservas de espaços para plantio de árvores como canteiros, calçadas largas, e parques. Isso temos bastante aqui”, comentou.
O futuro da capital
A manutenção e ampliação da arborização urbana em Brasília esbarra em obstáculos comuns a outras cidades brasileiras, como explica a arquiteta e urbanista Andréa dos Santos, presidente da Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas (FNA). Segundo ela, “os desafios urbanos são os mesmos de qualquer cidade brasileira. “Manutenção dos espaços públicos, plantio e manejo adequado da vegetação e o cuidado com a infraestrutura urbana, como pavimentação, drenagem, redes de abastecimento e calçadas”. Para Andréa, é essencial que esses elementos estejam alinhados a projetos que priorizem as pessoas. “Devemos ter projetos pactuados com as necessidades de uma cidade e priorizar a relação com as pessoas. É indispensável que o projeto de arborização dialogue com os projetos de infraestrutura e com as redes já existentes”, explica. Ela também defende que políticas públicas eficazes de gestão da arborização devem ter como base a paisagem urbana. Apresentando compromissos que devem ser implementados por todos os envolvidos, pessoas, empresas e o próprio governo. “O plano de arborização que tenha como princípio a paisagem urbana é o fundamental. A partir disso, a política pública deve passar por caminhos de conscientização e educação ambiental”, afirma.
Com o avanço do crescimento populacional no Distrito Federal, a especialista aponta que o futuro da arborização dependerá da qualidade urbana que a cidade será capaz de oferecer. “O crescimento populacional é, também, consequência do que a cidade pode oferecer para as pessoas”, diz. Para ela, a arborização deve ser parte de uma proposta de desenvolvimento equilibrado. “O futuro da arborização está ligado à oferta de qualidade urbana e de acolhimento da paisagem pelas pessoas. Uma boa proposta de desenvolvimento da cidade deve dialogar harmonicamente com todos que nela vivem.”
A Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) informou que realiza o plantio de cerca de 100 mil mudas de árvores anualmente nas regiões administrativas do Distrito Federal. Em nota, a empresa declarou que “Brasília possui mais de 6 milhões de árvores” e que áreas no Paranoá e no Sol Nascente estão em análise para receber novos bosques urbanos. De acordo com a pasta, neste ano, a expectativa é dobrar o volume de plantio, alcançando 200 mil mudas por meio do Programa Anual de Arborização. “Em 2024, foram plantadas 82.614 mudas, entre árvores e palmeiras. As espécies priorizadas para o plantio são nativas do Cerrado ou adaptadas ao bioma local. A escolha de cada árvore considera o porte, a projeção das raízes, o impacto na visibilidade urbana e a proximidade com redes elétricas, esgotos e calçadas”, destacou a pasta.