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Brasília

Brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável

Miniguia oficial propõe conhecer a capital sobre duas rodas, unindo lazer, mobilidade e uma nova forma de vivenciar a cidade.

Daniel Xavier

03/02/2026 18h20

brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos (5)

brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos (5)

Brasília passa a contar, oficialmente, com uma rota estruturada de cicloturismo, iniciativa que une turismo, mobilidade urbana e valorização do patrimônio cultural da capital federal. Lançado pela Secretaria de Turismo do Distrito Federal (Setur-DF), o projeto inclui um miniguia com percursos mapeados para quem deseja conhecer a cidade sobre duas rodas, seja morador ou visitante.

Ao Jornal de Brasília, o secretário de Estado de Turismo, Cristiano Araújo, afirmou que a principal motivação da pasta foi diversificar a oferta turística e reforçar a imagem de Brasília como um destino associado à qualidade de vida, ao lazer ao ar livre e à sustentabilidade. “Brasília reúne características únicas para o cicloturismo, como áreas verdes extensas, vias planejadas, paisagens icônicas, infraestrutura de ciclovias e clima favorável. A rota oficial organiza e qualifica essa experiência, garantindo mais segurança, informação e incentivo ao uso da bicicleta”, explicou.

brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos
brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos

Segundo o secretário, o miniguia vai além da promoção turística e atua também como instrumento de mobilidade urbana. O material estimula o deslocamento não motorizado, reduz impactos ambientais e incentiva hábitos mais saudáveis, ao mesmo tempo em que integra rotas cicláveis a pontos turísticos, áreas de lazer e serviços.

brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos (3)
brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos (3)

A iniciativa dialoga diretamente com o perfil de Brasília como cidade planejada e patrimônio cultural da humanidade. “O cicloturismo permite uma leitura mais próxima da arquitetura, do paisagismo e do urbanismo reconhecidos pela Unesco. É uma experiência imersiva, educativa e conectada à identidade da capital”, destacou Araújo.

Embora ainda não haja um projeto formal de ampliação da rota, a Setur-DF trabalha com a perspectiva de futuras edições do guia e de novos trajetos em outras regiões administrativas.

Olhar técnico e vivência sobre duas rodas

A elaboração do miniguia contou com a contribuição técnica do arquiteto e urbanista Graco Santos, fundador da Camelo Bike Tour, agência brasiliense de cicloturismo urbano criada em 2014. Apaixonado por Brasília e pelo uso da bicicleta como ferramenta de leitura da cidade, Graco acumula mais de uma década de experiência guiando turistas e moradores pelos principais eixos e paisagens da capital.

“Pedalar por Brasília é uma forma de compreender a cidade para além dos monumentos. É uma aula viva sobre arquitetura, história, contradições e afetos”, afirmou. 

Ao longo de 11 anos, a Camelo Bike Tour percorreu mais de 80 mil quilômetros e guiou mais de seis mil turistas brasileiros e estrangeiros. Um de seus roteiros foi reconhecido como uma das 100 melhores experiências do Brasil pelo programa Feel Brasil, da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). 

Essa trajetória foi decisiva para a participação de Graco na construção do miniguia. Segundo ele, o processo de escolha das rotas foi ao mesmo tempo técnico e vivencial, baseado na experiência prática de quem pedala a cidade diariamente. “A ideia não foi inventar caminhos artificiais, mas organizar, qualificar e dar leitura turística a percursos que já existem e são usados espontaneamente por ciclistas. Respeitamos a cidade real”, explicou. Parte das rotas já havia sido mapeada e georreferenciada pela própria Camelo Bike Tour.

brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos (2)
brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos (2)

O material prioriza, sobretudo, a segurança viária, com rotas que utilizam ciclovias, ciclofaixas e vias de menor fluxo de veículos. Paisagem, pontos turísticos, áreas ambientais e acessibilidade também foram critérios fundamentais. “O resultado é um produto bonito, inspirador, mas, acima de tudo, usável e seguro”, resumiu.

Pensado tanto para quem visita Brasília quanto para quem vive na capital, o miniguia propõe experiências distintas, mas complementares. Para o turista, oferece uma alternativa ao turismo motorizado, permitindo conhecer a cidade em ritmo mais humano e sensorial. Para o morador, funciona como um convite à redescoberta do espaço urbano.

brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos (4)
brasília aposta no cicloturismo para diversificar oferta turística e estimular mobilidade sustentável créditos graco santos (4)

“Muita gente mora aqui há anos e não enxerga esses trajetos como possibilidade de lazer ou deslocamento cotidiano. O guia ajuda a mudar essa percepção e a criar uma relação mais afetiva com a cidade”, disse Graco. Para ele, há uma “revolução silenciosa” em curso, cujos efeitos só serão plenamente sentidos na próxima década.

Política pública e desafios

Além do aspecto turístico, o projeto reforça a bicicleta como política pública transversal, dialogando com saúde, meio ambiente, lazer e desenvolvimento econômico. Graco destaca, porém, que ainda há entraves importantes. “É fundamental que o Poder Legislativo enxergue a mobilidade ativa como estratégica. Existem leis no DF que preveem, por exemplo, a instalação de suportes para bicicletas nos ônibus, mas que nunca foram regulamentadas. Isso é inadmissível”, criticou.

Para o arquiteto, investir em cicloturismo é também investir em comércio local, geração de emprego e renda. “Mais acessibilidade atrai mais pessoas, fortalece o comércio e movimenta a economia. Se queremos salvar o comércio, precisamos salvar a rua, e a bicicleta é parte fundamental dessa equação”, concluiu.

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