Jéssica Antunes
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Uma tentativa de ultrapassagem em local proibido é a principal suspeita do que provocou uma tragédia na rodovia BR-070 na tarde do último sábado (10) que matou quatro pessoas. Um carro e uma caminhonete bateram de frente e o acidente matou, na hora, uma família brasiliense inteira. Ontem, o choro de uma mulher que reviveu o pesadelo de enterrar um parente morto em acidente de carro ecoou pelo Cemitério de Taguatinga. Há 24 anos, ela perdeu o marido. Ontem, precisou se despedir de filha, genro e neto. As investigações que apontarão a real dinâmica do ocorrido começam hoje.
O velório da família moveu uma multidão. Familiares, amigos e conhecidos lotaram a Capela 5 e deram o último adeus a pai, mãe e filha vítimas da colisão. José Augusto de Moraes, 26 anos, Fernanda Sena de Medeiros, 25, e Maria Júlia, 4 anos, recebem as últimas homenagens antes do enterro, carregado de emoção, com coros de cânticos e rezas.
“O amor de Guto, de Fernanda e de sua filha ficou marcado. Talvez o acidente tenha ocorrido para que valorizemos mais ainda quem está ao nosso lado”, discursou o padre da paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde a família participava de um grupo de jovens. A fala foi seguida por abraços, choros e aplausos. Após um minuto de silêncio, os caixões foram enterrados.
“Eles eram muito queridos, estavam sempre no meio de todo mundo e tinham muitos amigos”, disse Neuza Araújo, autônoma de 49 anos, que conviveu com Fernanda. “A família está arrasada. A mãe perdeu a filha, a neta e o genro. (A filha) sempre foi uma menina boa, estudiosa, nunca deu trabalho. Um acidente como esse é uma tragédia que não desejo a ninguém”, afirmou Rosângela Paz, 61 anos, vizinha da vítima.
A família não teve condições de falar com a imprensa. Fernanda era filha única e havia acabado de se formar em Enfermagem, mesma profissão da mãe, pela Universidade de Brasília (UnB). Guto deixa um irmão, e receberia o diploma de farmacêutico neste mês pela mesma instituição. Colegas de curso e profissão dos dois também estiveram na despedida.
A família morava em Taguatinga e pegou a estrada com destino a Jaraguá, cidade goiana a quase 150 quilômetros do Distrito Federal, onde vivem os pais de José Augusto, Guto, como os mais próximos chamam o farmacêutico.
A viagem foi interrompida nos 40 quilômetros finais. Eles ocupavam um Peugeot 208 que, no km 57 da BR-070, em Cocalzinho de Goiás, se chocou frontalmente com uma Toyota Hilux em uma suposta ultrapassagem perigosa.
Polícia procura testemunha
Segundo informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), o carro ocupado pela família teria transitado na contramão para, supostamente, ultrapassar um veículo. Na direção oposta, a Hilux passou para o acostamento para evitar a colisão, mas o veículo menor também desviou e os dois chocaram-se frontalmente.
Apesar das suspeitas, as reais dinâmicas e circunstâncias do acidente serão reveladas após resultado da perícia criminal, que deve ficar pronto em até 30 dias. A Polícia Civil de Goiás investiga o caso. Segundo o delegado Adriano Melo, titular de Cocalzinho de Goiás, o inquérito será instaurado nesta manhã.
A previsão é que o laudo cadavérico seja emitido ainda hoje, mas é o parecer da dinâmica do acidente que mais deve ajudar a investigação. “Vamos também ouvir os sobreviventes, quando tiverem alta hospitalar, e ver se encontramos mais alguma testemunha – inclusive o condutor do carro que o Peugeot teria tentado ultrapassar. Nossa intenção é finalizar o quanto antes”, afirmou o delegado.
A caminhonete era conduzida pelo vice-prefeito de Cocalzinho de Goiás, Alair Rabelo Neto (PSD), conhecido como Nenzão, de 51 anos, e era ocupada pelo filho Yagor Azevedo, 21, e pelo cunhado Bruno Rodrigo Abreu, 25. Este último não resistiu aos ferimentos e morreu no local. Pai e filho foram levados em estado grave para o Hospital de Urgência de Anápolis (GO) com fraturas na mão e no pé, respectivamente. O cunhado do parlamentar foi enterrado no início da tarde de ontem no cemitério do município.
Saiba mais
Em 2017, a BR-070 teve 65 acidentes, com 48 feridos e 21 mortos somente na área do Distrito Federal. Neste ano, até a metade de fevereiro, foram registradas quatro colisões, que deixaram uma pessoa ferida e quatro mortos no mesmo trecho.
Os centros acadêmicos de Farmácia e Enfermagem divulgaram notas de pesar pela morte dos ex-colegas de curso. O primeiro pediu orações e boas energias para lidar com a juventude perdida. O outro garantiu que Fernanda deixou sua marca na vida de todos que a conheceram.