A época de seca do Distrito Federal traz com ela as inúmeras queimadas que ocorrem em todo o território da capital. Somente no mês de agosto, até o dia 10, o Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF) combateu 605 incêndios em vegetação. Na última segunda-feira, foram 78 ocorrências no dia, e os números estão aumentando. Os registros em menos de duas semanas neste mês já passam da metade do total visto no mês de julho inteiro (1096).
Nos últimos dias, incêndios florestais de grandes proporções foram notados em diversos pontos do DF. Na terça-feira (11), as aulas da Universidade de Brasília (UnB) no campus de Ceilândia precisaram ser suspensas devido ao fogo na vegetação ao lado que se aproximava do prédio. Conforme o Decreto N° 48.599, a capital se encontra em estado de emergência ambiental por conta do aumento de risco de incêndios característicos dos meses de seca e baixa umidade do ar.
De acordo com o biólogo e doutor em botânica, Marcelo Kuhlmann, os incêndios ambientais são uma grave ameaça impulsionada pelo período seco. “Entre os meses de maio e setembro, a combinação de vegetação ressecada, baixa umidade do ar e ações humanas irresponsáveis transforma o DF em um local propício para queimadas de grandes proporções”. Ele explicou que no cerrado, principal bioma encontrado no DF, muitas espécies de plantas são resistentes ao fogo, e até dependem dele de forma natural para se regenerarem.
“Esse processo natural de regeneração está associado ao fogo de origem natural, provocado por raios, que só ocorre durante o início da estação chuvosa, quando a própria chuva logo em seguida impede a propagação do fogo. Já os incêndios florestais que ocorrem durante a estação seca são exclusivamente provocados por ação humana, seja de forma acidental – como a queima de lixo, bitucas de cigarro jogadas no chão ou a limpeza inadequada de terrenos – ou proposital, em práticas ilegais e criminosas”, comentou Kuhlmann.
Além disso, continuou o biólogo, o fogo no período seco afeta negativamente até as plantas mais adaptadas. “Muitas espécies do cerrado, como caliandras, ipês e pequizeiros, florescem nessa época, oferecendo alimento para uma grande variedade de polinizadores como abelhas, beija-flores e borboletas. Outras espécies estão em fase de frutificação e dispersão de sementes, momentos cruciais para a manutenção da biodiversidade. A queima dessas plantas interrompe ciclos ecológicos importantes e compromete a reprodução de aves, insetos e mamíferos que dependem delas para sobreviver”.
Perigo para a saúde
Além do fator ambiental, as queimadas também representam perigo para a saúde humana, principalmente por conta da fumaça, como destacou Thiago Fuscaldi, pneumologista do Hospital DF Star, da Rede D’Or. “A fumaça é feita de partículas muito finas, invisíveis, que passam direto pelo nariz, chegam ao fundo do pulmão e entram no sangue. Por isso aparecem a tosse que não passa, garganta ardendo, nariz sangrando, sinusite e, principalmente, crises de asma e de bronquite. Muita gente não sabe, mas a fumaça também mexe com o coração: aumenta o risco de infarto e de derrame em quem já tem problema cardíaco”, explicou.
Os mais afetados, segundo o especialista, são os idosos, as crianças, as gestantes e as pessoas que já possuem algum tipo de doença relacionada ao pulmão ou ao coração. O prejuízo causado pela fumaça ainda é intensificado no período de seca, apontou Fuscaldi. “O nariz é o filtro do corpo: ele segura a sujeira antes que ela chegue ao pulmão. Mas esse filtro só funciona se estiver úmido. Com a umidade baixa em Brasília, ele resseca e para de funcionar bem”.
Para tentar amenizar os impactos desse cenário que deve permanecer até pelo menos setembro, o pneumologista orientou tomar água constantemente e manter o nariz umidificado com soro fisiológico ou umidificante ajuda bastante. “Em casa, deixar um umidificador ligado, uma bacia com água ou uma toalha molhada no quarto à noite, fechar as janelas quando estiver muito enfumaçado e limpar com pano úmido, não com vassoura”. Sair imediatamente do local onde a fumaça estiver também é recomendável.
Para evitar queimadas
De acordo com Marcelo Kuhlmann, a colaboração da população é essencial para evitar ao máximo os incêndios florestais. “Não usar fogo para limpeza de terrenos, evitar queimar lixo, nunca jogar bitucas de cigarro em áreas verdes ou margens de estradas, não soltar balões, não fazer fogueiras em áreas naturais e não estacionar veículos sobre vegetação seca são atitudes simples, mas que fazem toda a diferença”, destacou o biólogo.
Para o período, o CBMDF também conta com a Operação Verde Vivo para reforçar a prevenção e combate aos incêndios florestais no DF. Segundo a corporação, a ação desempenha um papel fundamental na resposta rápida aos focos de incêndio e na preservação de áreas ambientais sensíveis da capital, especialmente unidades de conservação, parques ecológicos e regiões rurais. Em caso de incêndios, o ideal é acionar o Corpo de Bombeiros através do número 193.