O banheiro comunitário no setor comercial sul, largamente utilizado por moradores de rua e comerciantes do local, está ameaçado de fechar. A ong que faz a administração do bem público, Ong No Setor, afirmou não conseguir mais custear o espaço, o que fazia por meio de doações. É através do banheiro comunitário que dezenas de moradores de rua conseguem ter acesso diário a banho, banheiro e bens de higiene pessoal como sabonete, shampoo, escova de dentes, pasta dental e absorventes.
O banheiro é encontrado no meio do caminho, entre a Galeria dos Estados e o Shopping Pátio Brasil. Se trata de uma construção baixa, que chama pouca atenção do olhar mais desavisado, mas que guarda em si ferramentas pelas quais as pessoas em situação de rua, que habitam suas imediações, podem ter condições mais dignas. Nesse espaço, limpo por funcionários contratados pela Ong, estão banheiros, chuveiros, itens de higiene básica, um espelho e água potável à vontade.
Segundo informações disponibilizadas pela Ong No Setor, o espaço tem mais de 1.000 visitas semanais, a maioria de pessoas que trabalham ou se abrigam ali. Uma dessas pessoas é Shirley Meirelles, moradora de rua. Segundo diz o espaço é essencial, ainda mais se a pessoa que precisar das instalações for uma mulher. “Eu chego aqui eu tenho sabonete, toalha, absorvente, para mim, como mulher, ele é muito importante”. Maria do Socorro, também em situação de rua, concorda com Shirley. “É a única opção que nós temos aqui”, e informada do risco que o lugar sofre, complementa, “ não pode fechar”.
Shirley, acostumada a vida na rua, e as pressões de pedestres e comerciantes afirma que a ausência do banheiro vai afetar não apenas a vida das pessoas que precisam usá-lo, mas de todas as pessoas que forem fazer uso do espaço e suas imediações. “ Às vezes eu não vou ter onde fazer as necessidades, vou ter que fazer na rua, e isso para mim às vezes não é um problema, mas para os comerciantes é. Fechando esse banheiro eles estão pedindo para a cidade ficar uma imundice, aí depois vão reclamar dos moradores de rua, mas quem fechou as portas foram eles”, argumenta.
“Reclamam de mim, mas não ajudam a manter a limpeza do espaço”.
O banheiro estava no lugar há muito tempo, mas não tinha o significado e a importância Social que tem hoje. Segundo a prefeita do Setor comercial Sul, Niki Tesemos, há quatro anos o banheiro foi reconstruído em contexto de pandemia por iniciativa de comerciantes locais, para ajudar as pessoas que usavam a via e precisavam se higienizar. Depois disso, através do programa Adote uma praça, a Ong No Setor passou a gerir o local com a ajuda de doações.
A iniciativa foi de tamanho sucesso que em 2023, já passada a pandemia, o banheiro foi apresentado no projeto ‘Insurgências – Experiências no Espaço Público, Rio 2023’, pela dignidade que levou a população em vulnerabilidade. Na época Rafael Reis, então coordenador da Ong, comentou no evento que o bem público “foi muito reconhecido por ser uma experiência que fala do coletivo”. E exaltou o impacto que o banheiro gerou. “Conseguimos apresentar não só como um espaço físico que foi adotado, mas como uma ferramenta de transformação territorial”, disse.
Segundo informações da Organização, o equipamento exige 6 mil reais por mês para conseguir ser mantido com a limpeza, os materiais de higiene pessoal fornecidos à população de rua e a manutenção, tudo com o dinheiro de doações tanto dos membros da Ong, como da comunidade em geral. O fato, no entanto, de grande parte do dinheiro ter de sair dos membros , foi o que tornou a situação “insutentável”. No Setor, continua aceitando contribuições, através do link ‘benfeitoria.com/projeto/contribuanosetor’, onde tenta angariar 6 mil para manter o espaço, até, no máximo, 4 de abril. “O único caminho para reverter o seu fechamento e continuarmos na gestão do Banheiro Comunitário é com a garantia de que teremos o valor total do custo mensal (vindo de uma ou mais fontes) por um período certo (no mínimo, um ano)”, informou.
A Secretaria de Desenvolvimento Social destacou que a população em situação de rua que vive no Setor Comercial Sul é acompanhada pelas equipes de Abordagem Social, que viabilizam o acesso dessas pessoas à política de assistência social e de outras áreas, como Saúde e Educação, incluindo encaminhamento para o serviço de Acolhimento Institucional, caso seja da vontade do delas. Informou também que, próximo ao local existe o Centro Pop, nas proximidades, na 903 sul, onde, além do acesso aos serviços socioassistenciais, podem fazer documentos pessoais, higiene pessoal, lavagem de roupas e fazer as quatro refeições do dia (café da manhã, almoço, lanche e jantar).
Segundo a Administração do Plano Piloto, o projeto tem apoio da pasta desde o início da pandemia, através do fornecimento de água e luz. “A Administração não possui recursos próprios para manter o banheiro e já faz sua contrapartida com serviços básicos”, informou o órgão.