Jéssica Antunes
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Em Ceilândia, nem o lar é seguro. Dentro de casa, uma família foi surpreendida por uma bala perdida durante um tiroteio desconhecido pelas autoridades policiais. O objeto passou perto de uma adolescente, que estava sentada no sofá, e não fez nenhuma vítima. A região é a mesma em que ataques atingiram dez pessoas em um único fim de semana deste mês e que foi palco de protestos por segurança.
Era madrugada de quarta-feira. Maria Eduarda Fernandes de Amorim, 17 anos, estava ansiosa pelo resultado da nota de corte do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), por onde espera conseguir uma vaga no curso de Química. Sentada próximo à porta da casa, na QNP 28 do Setor P Sul, ela aguardava a liberação da página da web, mas foi surpreendida pelo projétil por volta da meia-noite.
“Ouvi dois disparos. No segundo, senti algo passando por mim e caindo no chão. Quando vi o que era, assustei. Gritei para que minhas duas irmãs menores fossem para o chão”, conta a menina. A bala perdida atravessou a porta, passou por onde a garota estava e caiu no chão da copa.
Tiroteios ali não são raros, a adolescente e a mãe garantem. Ocorrências costumam começar no fim do dia e se intensificam pela madrugada. Naquele dia, a violência ultrapassou a rua e foi parar dentro de casa. A adolescente tentou acionar socorro: no celular há o registro de dez ligações, entre 0h12 e 0h30.
“Acharam que era trote. Minha voz era de choro, estava nervosa. Me mandaram fazer boletim de ocorrência na Polícia Civil”, conta. A bala ficou preservada no local que parou por horas. Ao Jornal de Brasília, a Polícia Militar informou que foi acionada, mas que nada foi constatado no local. A família contesta e afirma, com indignação, que até pelo menos 4h, ninguém esteve ali para verificar o chamado.
“Minha indignação é que ficamos à mercê da violência. Não adianta falar para ter cuidado na rua se uma coisa dessas acontece dentro da minha casa. E se minha filha tivesse morrido? O governo mandaria uma carta com condolências? Bala perdida só acha inocente”, desabafa a mãe, a enfermeira Valéria Fernandes, 41. Para ela, mais triste que ter relatos de violência constante é ter de conviver com essa realidade sem solução.
Policiamento
A Polícia Militar foi acionada para 58 ocorrências no P Sul somente neste mês. Segundo a corporação, entre as ocorrências de maior volume estão nove vias de fato, quatro furtos, sete chamados por som alto e um roubo a transeunte. Os dados apresentam redução de 30% em relação ao ano passado, mas, para a população, isso não reflete a realidade.
“Todos os dias temos assaltos, arrastões, tiroteio. Estamos à mercê da insegurança e dizer o contrário é mentira”, opina um comerciante, que mora há mais de 30 anos no local e pediu para não ser identificado. Os órgãos de segurança rebatem com a necessidade de registro de boletim de ocorrência, que baseia as estatísticas que direcionam o policiamento.
A área é de responsabilidade do 8º Batalhão de Polícia Militar, que se divide entre Ceilândia Sul, Condomínio Pôr do Sol, lado sul do Sol Nascente até a feira do produtor e algumas quadras do lado norte. A corporação diz que intensifica o policiamento a pé e com unidades especializadas, bases móveis em locais com crimes recorrentes e o Grupo Tático Operacional (GTOP), com patrulhamento reforçado nas áreas mais críticas.
Tiroteios
Em um único fim de semana, de 12 a 14 de janeiro, dez pessoas foram baleadas no setor P Sul e proximidades. Na sexta, em um posto de combustíveis, seis pessoas foram atingidas por disparos efetuados de dentro de um carro de paradeiro desconhecido. Entre as vítimas feridas, estavam quatro homens, uma mulher e uma criança.
No dia seguinte, um homem morreu e outro ficou ferido após o carro em que estavam ser baleado próximo à feira da cidade. No domingo, um morreu e outro ficou ferido em ocorrência no meio da rua. A comunidade lamenta a constância das ocorrências do mesmo tipo e teme pela segurança. As investigações dos casos são tocadas pela 23ª Delegacia de Polícia, em sigilo.