Eric Zambon
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O semblante cansado de dona Dalvina Maria dos Santos esconde apenas 41 anos de vida, 28 deles vividos em função de sua prole. Ela chorou quando o neto, Jhony Jr., foi sequestrado da maternidade do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), há quatro meses, mas agora segura as lágrimas para lutar pela guarda da criança, que foi levada, na última terça-feira, para um abrigo pela Vara da Infância e Juventude (VIJ).
O pai do menino, filho de dona Dalvina, vive na casa ao lado, mas está tão distante como se morasse em outra cidade. Pouco se veem, pouco se falam e há pelo menos um mês o pequeno Jhony Jr. já é responsabilidade quase integral da avó. “A gente ensina, mas eles só acham que a gente é velho. Todo pai e mãe de primeira viagem sofre, mas eles são muito imaturos”, lamenta, ressaltando que a mãe do bebê teria desistido da responsabilidade há mais tempo.
“Questão de justiça”
Quando o sequestro da criança foi noticiado, o conselheiro tutelar Djalma Nascimento alertou para o fato de os pais da criança terem um grande desafio pela frente, tamanha a juventude dos dois. Com a ida do bebê para o abrigo, mesmo provisoriamente, ele defende o papel do Conselho e previne a onda de julgamentos que podem surgir dessa notícia. “Muitos vão falar que era melhor ele ter ficado com a sequestradora, mas isso não é uma verdade. Foi uma questão de justiça”, diz.
Segundo Nascimento, o órgão ajudou o pai do bebê, Jhony dos Santos, 21 anos, a conseguir um emprego, mas ele teria faltado ao serviço muitas vezes e sido demitido após poucas semanas. Eles também teriam ajudado a mãe, Sara Maria da Silva, 19, a tirar documentos para tentar uma oportunidade de trabalho, sem sucesso. “O que estava ao nosso alcance nós fizemos”, desabafa.
O conselheiro não entrou em detalhes sobre o que motivou a VIJ a tomar a criança, mas a avó teve a coragem de admitir que seu filho e a namorada não corresponderam. Eles não teriam conseguido alimentar adequadamente o bebê e, por vezes, teriam frequentado lugares considerados, por ela, impróprios para a idade do pequeno. “Depois que o Jhony pegou a criança para cuidar sozinho, ele não deu conta e eu já comecei a me preparar para a possibilidade de a Justiça fazer alguma coisa”, resigna-se.
Saiba mais
- Segundo Dalvina, ontem a VIJ entrou em contato com ela e avisou que poderia dar entrada no processo de guarda de Jhony Jr. a partir da próxima semana.
- Dalvina já cuida de outra neta, filha de uma das gêmeas, e estava planejando expandir a casa onde vive para fazer um quarto maior e comportar Jhony Jr.
- A sequestradora da criança, Gesianna de Oliveira Alencar, 25 anos, foi presa no Guará com a criança e, inicialmente, foi condenada a dois anos de prisão. Por decisão da 8ª Vara Criminal do TJDFT, no entanto, sua pena foi convertida em prestação de serviços comunitários e doações de cestas básicas.
Situação comove a vizinhança
Dona Dalvina teve o primeiro dos cinco filhos aos 13 anos de idade, quando ainda vivia no Piauí. Eram outros tempos e outro contexto, mas ela não esconde certo ressentimento por ter tido parte da sua juventude espremida pelo peso da nova responsabilidade. “Eu era muito nova, mas aprendi a gostar daquela obrigação e eu sempre amei meus filhos. Eu já morei em lixão na L2 Norte, mas sempre tentei dar para eles coisas melhores”, emociona-se.
Sua luta comove e inspira a vizinhança onde mora, na invasão Santa Luzia, na Cidade Estrutural. Quando Dalvina passou a cuidar do neto mais novo, implorou por uma vaga na creche Vovó Luzimar, uma das poucas a atender a região, e foi atendida. A alegria de Jhony Jr. contagiou as cuidadoras e as mães que frequentam o local. Quando a equipe da VIJ buscou a criança na terça-feira, havia pelo menos 20 mulheres chorando em frente à casinha de alvenaria.
“A gente já tinha sido avisado que isso ia acontecer, mas tínhamos esperança de o juiz mudar de ideia ou alguma coisa assim”, lamenta a secretária Ana Flávia de Souza, 29 anos, vizinha de Dalvina. “Mas eu sei que daqui a seis meses ele vai voltar e a vaguinha dele ainda vai estar aqui”, emociona-se.