CARLIANE GOMES
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“Com o jiu-jitsu, a gente se sente mais confiante. Não que você saia enfrentando alguém na rua, mas, se acontecer alguma coisa, pelo menos sabe o que fazer”. A declaração resume bem o sentimento de muitas mulheres que, como Renata Costa, 38 anos, buscam no projeto Lago Forte uma forma de se sentirem mais seguras nas ruas.
Criado pelo 24° Batalhão de Polícia Militar (BPM), o programa oferece aulas gratuitas de defesa pessoal e jiu-jitsu para comunidades do Lago Norte, Varjão, Taquari e Granja do Torto.
Aluna há mais de um ano, Renata não esconde o entusiasmo. “Eu recomendo para todo mundo. Faço propaganda no grupo do bairro, na igreja, para os amigos”, brincou. De acordo com a esteticista, além de melhorar o condicionamento físico, a prática regular das aulas ajudam a equilibrar a mente, alivia a ansiedade e ainda contribui para a aprendizagem de técnicas de autodefesa. “Sou uma pessoa muito ansiosa. Faço corrida, natação, aula de cerâmica, academia… Mas aqui é diferente. Aqui eu consigo canalizar tudo isso, me equilibrar. Além disso, a gente aprende a se defender, a lidar com situações de risco, que infelizmente fazem parte da nossa realidade como mulher”, relata.
Além da parte física, a prática traz ensinamentos práticos de defesa pessoal. Renata destaca que nas aulas, por exemplo, aprende o que fazer se alguém tentar segurá-la pelo braço ou se posicionar para aplicar um golpe de escape. “O professor ensina esquivas, como reagir em um contato físico direto. E só isso já te dá outra postura na rua. Você começa a andar mais confiante, não olha para o chão, se sente mais preparada. Isso é muito importante para nós, mulheres”, afirma.
Renata conheceu o projeto por meio de uma divulgação no grupo de moradores do Taquari feita pelos próprios policiais que fazem ronda na região. Curiosa, decidiu conhecer a iniciativa de perto. “Eu mesma tinha aquela ideia de que jiu-jitsu era algo muito violento, mas não é. É um ambiente tranquilo, acolhedor. Os professores são ótimos. Quando um não pode vir, tem substituto. E os policiais que participam são super acessíveis. Quebra aquele preconceito de que são todos marrentos”, conta.
SAIBA MAIS:
– O projeto é promovido pelo 24º Batalhão da PMDF e visa aproximar a corporação da comunidade por meio do esporte e da promoção do bem-estar.
– As aulas são abertas ao público, com foco na inclusão, no autocuidado e na prevenção da violência.
Como participar?
O projeto Lago Forte nasceu em 2018 dentro do 24º Batalhão da Polícia Militar, no Lago Norte. A iniciativa foi idealizada por um policial da própria corporação com o objetivo de promover saúde, disciplina e aproximação entre PM e comunidade, por meio da prática do jiu-jitsu. No entanto, com a chegada da pandemia, as atividades foram suspensas. “A gente manteve os treinos internamente, só com os policiais, por necessidade de preparo físico e técnico. Mas, para o público externo, só conseguimos retomar em meados de 2021”, explica o sargento Guilherme Castro, faixa preta de jiu-jitsu 3º grau e atual responsável pelas aulas.
Desde então, o projeto foi reestruturado e passou a aceitar pessoas da comunidade a partir dos 14 anos de idade, uma decisão baseada na maturidade física necessária para treinar junto aos adultos, já que as turmas são mistas e abrangem diferentes faixas etárias. “Já tivemos alunos com 60 e 70 anos. Aqui a gente trabalha com inclusão. O foco é a pessoa estar presente, praticar dentro do seu limite e participar da proposta comunitária do projeto”, diz o sargento.
Segundo ele, não é exigido atestado médico para iniciar as aulas, mas cada aluno assina uma declaração reconhecendo que está apto a praticar atividades físicas. “A gente sempre pergunta se há alguma limitação ou lesão. Quando há, a gente adapta. A ideia não é forçar ninguém além do que pode, mas sim incluir, respeitar o ritmo de cada um e, muitas vezes, ajudar a pessoa a superar até dores antigas”, completa.
Para participar, basta ir ao próprio 24º BPM, no Lago Norte, preencher a ficha de inscrição e comparecer às aulas com roupa adequada. “O projeto vai além da prática desportiva. A ideia é fortalecer o vínculo da polícia com os moradores, fazer com que a comunidade conheça o batalhão e veja a PM além do patrulhamento. A gente cria laços, escuta demandas, troca experiências. Isso é polícia comunitária de verdade”, ressalta.
Embora o projeto esteja sediado no Lago Norte, a participação é aberta a qualquer morador do Distrito Federal. “As aulas são para todo mundo. Claro que é mais prático para quem mora ou trabalha perto do batalhão, mas se a pessoa tem disponibilidade e quer participar, será muito bem-vinda”, destaca o sargento.
Para quem ainda tem receio ou dúvidas sobre a prática, o sargento deixa um convite: “Tem gente que acha que arte marcial é violenta, que jiu-jitsu é sair batendo nas outras pessoas na rua. Não é! Basta vir e conhecer. A pessoa vai se sentir mais disposta, mais confiante, vai fazer amigos. O jiu-jitsu não te torna mais agressivo, ele te dá equilíbrio. Vale a pena dar essa chance”.
Jiu-jitsu, disciplina e acolhimento
Aline Meneses, 33 anos, é cozinheira, empreendedora e moradora da Asa Norte. Desde agosto do ano passado, ela faz parte do projeto social Lago Forte. “Já fazia jiu-jitsu há 3 anos, mas estava parada. Foi quando uma amiga me mandou a publicação do batalhão em uma rede social, dizendo que o projeto era aberto para a comunidade. Me inscrevi e desde então não parei mais”, conta.
Ela destaca ainda que participa regularmente das aulas de jiu-jitsu, onde tem aprendido técnicas de defesa e fortalecido a confiança. “A aula começa com um aquecimento e um fortalecimento para evitar lesões. Depois vem a parte técnica, os movimentos que usamos nas lutas. E no fim tem o rola, que é quando a gente simula o combate. É muito bom, eu sempre indico para todo mundo”. Para Aline, os benefícios vão muito além do físico. “Você aprende autodefesa, claro. Mas também aprende a se respeitar, respeitar o outro, a ter disciplina. Isso a gente leva pra vida. E o ambiente aqui é muito acolhedor”, declarou a aluna.
Zilda Guimarães, 72 anos, participa das aulas de defesa pessoal há 2 anos. De acordo com ela, depois de enfrentar alguns problemas no joelho, começou a participar do projeto na delegacia. “Eu nunca imaginei que um dia iria frequentar um batalhão da Polícia Militar com tanta alegria”, brincou. A aposentada revelou que conheceu a iniciativa por indicação de uma amiga do bairro. “Ela já fazia e falou que era ótimo. Eu fui, gostei, e estou até hoje. Comecei no jiu-jitsu, mas por causa de um problema no joelho, fiquei só na defesa pessoal. E foi a melhor escolha que eu fiz”, conta.
Para Zilda, os ganhos vão além da saúde física. “Melhorei meu condicionamento, meu equilíbrio, minha disposição para rotina. Até o emocional. A gente aprende a lidar melhor com imprevistos. Fora o convívio, é um ambiente muito educado, acolhedor, respeitoso. A conexão com os policiais é maravilhosa”. A aposentada recomenda a experiência para pessoas de todas as idades. “Tem gente de 14, de 60, de 70… não tem limite. Todo mundo é bem-vindo.”
Aos 15 anos, Alex Ramos participa das aulas gratuitas de jiu-jitsu no 24º Batalhão da PMDF, no Lago Norte. Durante as férias, também passou a frequentar as turmas de defesa pessoal. Foi a mãe quem descobriu o projeto nas redes sociais e o incentivou a participar. Em pouco tempo, Alex notou mudanças positivas. “Sei me defender melhor agora. Tenho um físico melhor”, resumiu o adolescente. Ao fim de cada aula, saí do batalhão com o rosto leve e um sorriso no rosto. A prática tem contribuído para elevar sua autoestima e melhorar o bem-estar. “Recomendo. A partir dos 14 anos já pode participar. Vale muito a pena”, frisou.
A enfermeira Débora Costa, 22 anos, chegou até o projeto por indicação da irmã, Renata. Apaixonada por esportes, especialmente lutas, ela se encantou com a proposta e decidiu participar das aulas. “É extremamente importante e bem acessível. Nunca imaginaria vir tantas vezes à delegacia, mas pelo projeto vale muito a pena”, afirma.
Ao Jornal de Brasília, Débora confessou que começou nas aulas de jiu-jitsu e, pela primeira vez, experimentou a defesa pessoal. Segundo ela, cada modalidade tem uma proposta diferente, mas ambas contribuem para o bem-estar físico e mental. Ela afirmou ser uma pessoa ansiosa por natureza e encontrou na prática das aulas uma forma de aliviar sintomas e ganhar mais segurança. “Me ajuda a controlar minha ansiedade e me traz mais qualidade de vida”. Para ela, projetos como esse também ajudam a romper estigmas. “As pessoas têm uma visão de que delegacia é lugar de bandido, que os policiais são violentos, mas não é a realidade. Aqui os policiais são abertos, acolhedores. Isso é só um estereótipo que precisa ser quebrado”.
SERVIÇO:
– Local: 24º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal (BPM), Lago Norte
– Horários das aulas:
*Jiu-jitsu segunda a quinta-feira: 14h à 16h 18h
*Defesa pessoal – sexta-feira: às 9h
*Jiu-jitsu (sexta-feira): às 10h30
– Para mais informações: (61) 9 9969-3608