Jéssica Antunes
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O governo promete reduzir a demanda nas emergências dos hospitais fortalecendo a atenção básica. Para isso, implementa gradualmente a Estratégia Saúde da Família nos postos de saúde de todo o DF. As mudanças no modelo, porém, preocupam e confundem os pacientes. Informações desencontradas ainda dão abertura para boatos que revoltam moradores. O atendimento estendido ainda depende de profissionais, que já têm déficit, e gera críticas da categoria. A “menina dos olhos” da Saúde é alvo de críticas, mas cria expectativa de melhoria a quem depende da rede.
Desde que anunciada a mudança, no início do ano, a cobertura da Saúde da Família cresceu de 32% para 39%. A expectativa é que, até o fim do ano, chegue a 68%. Segundo Alexandra Gouveia, coordenadora de Atenção Primária da Secretaria de Saúde, a velocidade da migração depende dos recursos humanos existentes e da consequente necessidade de ampliação do quadro. As prioridades são regiões com maior vulnerabilidade, como Ceilândia, Planaltina, Itapoã e Estrutural.
A promessa é que os postos tenham maior número de equipes formadas por médico, enfermeiro, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde e equipe de saúde bucal, que atenderão uma mesma população de até 3.750 pessoas. O horário é estendido: 12 horas por dia durante a semana e, aos sábados, cinco horas. Antes, o atendimento era das 8h às 11h e das 13h às 17h. Na prática, além das mudanças de horários, também altera-se o atendimento. Os pacientes serão recebidos conforme o local de moradia em uma única unidade.
“A estratégia faz a vinculação do paciente com a equipe, que não trabalha apenas no tratamento da doença, mas foca na prevenção e na promoção à saúde, considerando contexto familiar, social e educacional”, explica a gestora Alexandra Gouveia. Ela estima que 85% dos casos podem ser resolvidos na atenção básica.
Tensão e expectativa
Nas portas das unidades básicas de saúde, a população ainda carece de esclarecimentos e espera por melhorias no atendimento, muitas vezes demorado. O pé é mantido atrás. “Só vendo para acreditar”, diz a vigilante Katiane Fernandes, 29 anos. No antigo Posto de Saúde 2, que agora passa a ser Unidade Básica de Saúde 2 do Recanto das Emas, ela espera por especialidades como ortopedia, mas não há previsão para ginecologia.
“Quem atende é enfermeiro. Se a mudança funcionar e garantir atendimento, vai ser muito bom”, opina. Ontem, com consultas por ordem de chegada, ela esperou por mais de três horas. Ali, há três equipes de Saúde da Família e outras estão se formando. Nesta semana, já funciona em novo horário.
Logística não agrada a todos
Não há placas de explicação nos postos. A melhor divulgação, segundo o governo, é feita de porta em porta. As equipes cadastram e direcionam os moradores. Mesmo assim, a falta de informações tem gerado problemas. No processo de mudança, a Unidade de Saúde 4, em Ceilândia, foi alvo de boatos de que encerraria as atividades.
Isso, segundo a Secretaria de Saúde, não acontecerá. Mudará, porém, a extensão de atendimentos. A duas quadras dali, Felipe Meneses, vendedor de 28 anos, terá de ir até o P Sul para ser recebido. “É complicado e prejudica quem mora perto. É muito mais longe. Sempre fizemos tudo aqui”, reclama.
“Falsa impressão”
“Não tem profissionais e a forma como está sendo feita é afobada para criar uma falsa impressão de cobertura. Aumenta-se o número de pacientes sem crescer o número de profissionais”, acredita Gutemberg Fialho, presidente do Sindicato dos Médicos. O sindicalista ainda critica a formação “às pressas e deficiente” dos profissionais. “É uma mentira pré-eleitoreira. A mudança deveria acontecer de forma gradual e permanente”, diz.
Segundo o governo, porém, a expansão pode ocorrer com a convocação de médicos aprovados em concurso (48 já foram chamados) e com o Programa Mais Médicos. Clínicos, pediatras e ginecologistas da Atenção Primária também passam por capacitação.
“Não foram nem serão retirados profissionais dos hospitais. Quem optou por não aderir foi para outras unidades fora da atenção primária. Estamos reorganizando a rede. Toda mudança gera transtornos, mas é preciso ver aonde vai chegar”, explica a coordenadora Alexandra Gouveia.
Saiba mais
– Quatro construções de unidades básicas de saúde (UBS) estão em andamento e devem ser entregues neste ano: Por do Sol, Sol nascente, Samambaia Norte e Fercal.
– A reorganização é regionalizada e dividida em sete regiões, com superintendências responsáveis e um diretor regional de atenção à saúde.
– A estimativa é que 92 mil pacientes vivam em áreas rurais. A maior concentração é em Brazlândia, seguida pelo Gama e por Planaltina, onde a cobertura é total. Se considerado todo o DF, o número é de 96,4%.