Os prints de conversas do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e de Phillipe Mourão, conhecido como Sicário, determinando a derrubada de publicações feitas pelo Jornal de Brasília, contrárias aos interesses do ex-banqueiro, repercutiram na classe política do Distrito Federal.
Nesta quinta-feira (1º), o Jornal de Brasília publicou matéria que mostram registros de conversas em aplicativos de mensagens extraídos pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro com Sicário, revelam uma operação articulada que teve como um de seus principais alvos o portal do veículo. As capturas de tela mostram negociações e ordens expressas para censurar e remover matérias do veículo que expunham fraudes e erros apontados pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Nas trocas de mensagens entre os interlocutores identificados como “Felipe Mourão” e “DV” – abreviação para Daniel Vorcaro –, o Jornal de Brasília aparece de forma recorrente no centro do monitoramento e das ações de derrubada de conteúdo.
O primeiro a se manifestar sobre o assunto foi o presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz (MDB). O deputado distrital se disse surpreso como modus operandi do grupo e criticou a “censura” realizada contra a imprensa.
“Entendo como inaceitável e agrava ainda mais essa crise causada pelo escândalo do Banco Master. Calar a imprensa é calar de morte a democracia. Precisamos saber quem foram os porta-vozes dele, nessa tentativa de silenciar os meios que informam à população”, criticou Wellington Luiz.
O primeiro-vice-presidente da Casa, Ricardo Vale (PT), também se manifestou. Ele defendeu a apuração pelas autoridade e a liberdade de expressão. “É gravíssimo que qualquer pessoa, independentemente do poder econômico que tenha, tente intimidar jornalistas ou retirar do ar reportagens que contrariem seus interesses. As mensagens reveladas pelo Jornal de Brasília apontam para uma tentativa de derrubar reportagens sobre irregularidades envolvendo o Banco Master. Isso não é apenas desconforto com uma notícia. É um ataque à liberdade de imprensa, uma garantia constitucional e um dos pilares da democracia”, afirma o petista. “Tudo isso precisa ser rigorosamente apurado pelas autoridades. Se houve invasão, intimidação ou qualquer ação ilegal para impedir a divulgação de informações de interesse público, os responsáveis devem responder na forma da lei. Minha solidariedade ao Jornal de Brasília e aos seus profissionais. Jornalismo se enfrenta com fatos e direito de resposta, nunca com ameaça, pressão ou tentativa de censura. Imprensa livre não se derruba com uma ordem por mensagem.”
Governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP) chamou de “pressões indevidas” as tentativas de Vorcaro de censurar o JBr. “Repudio toda e qualquer pressão a jornalistas e aos veículos de comunicação que cumprem seu dever de informar a população, como faz o Jornal de Brasília“, pontuou a chefe do Buriti.
Sindicato
O Jornal de Brasília também recebeu a solidariedade do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJDF) que manifestou preocupação com os ataques a veículos de imprensa. Em nota, a instituição “manifesta preocupação diante de relatos de ataques e tentativas de interferência no trabalho de veículos de comunicação e profissionais de imprensa, em particular a denúncia recebida de tentativa de calar o Jornal de Brasília, na cobertura de fatos relacionados ao escândalo do caso do Banco Master”.
O SJDF defendeu a liberdade de expressão, demonstrando preocupação com ataques cibernéticos a veículos de comunicação, além de qualquer tipo de constrangimento. O sindicato se comprometeu, ainda, a acompanhar o desenrolar das investigações e reforçou sua solidariedade ao Jornal de Brasília.
Mensagens
Em outubro de 2024, mensagens atribuídas a Sicário mostram a comemoração e a confirmação de que conteúdos do portal haviam sido derrubados com sucesso.
A primeira investida registrada mira a apuração do veículo sobre o relatório do órgão de contas:
“Esse aqui já vamos derrubar: https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/economia/tcu-aponta-erros-da-caixa-asset-em-analise-da-compra-de-papeis-do-banco-master/“
“Tirar do ar agora!!”
A ofensiva contra o Jornal de Brasília voltou a se repetir em setembro de 2025. Em novo diálogo, o usuário “DV” encaminha um link da coluna Do Alto da Torre, também publicada pelo jornal, cuja reportagem abordava depoimentos detalhando como instituições operavam para lesar aposentados e pensionistas.
Na sequência da conversa, a ordem para intervir na publicação do Jornal de Brasília foi imediata.
- Felipe Mourão: “O que é para fazer??”
- DV: “Tirar do ar”
- Felipe Mourão: “Agora!!”
Na data das conversas, a equipe técnica do site percebeu a tentativa de invasão do sistema, mas rapidamente tudo foi reestabelecido. Entretanto, o material original acabou sendo prejudicado e o arquivo corrompido posteriormente.
Em nota (confira a integral ao final da matéria), o Jornal de Brasília afirmou que “repudia veementemente qualquer tentativa de cercear o livre exercício da imprensa. Não se trata de defesa corporativa. A liberdade de informar é garantia constitucional e existe, antes de tudo, para proteger o direito do cidadão de saber. Quem tenta apagar uma reportagem não atinge apenas o jornal que a publicou. Atinge também o leitor, que deixaria de conhecê-la”.
A Turma
Mourão era o encarregado de constranger adversários, extrair dados sigilosos de sistemas policiais e de órgãos como o Banco Central, além de apagar notícias desfavoráveis. Ele era o responsável pelo núcleo conhecido como “A Turma”. Sicário morreu em março de 2026 após ser preso preventivamente pela Polícia Federal em Belo Horizonte e sofrer enforcamento nas dependências da corporação, vindo a falecer no hospital.