Ingrid Soares
ingrid.soares@jornaldebrasilia.com.br
“Respeitem. Não é não. Aceitem isso. Se você realmente ama, aprenda a conviver com isso e admirar a pessoa. É isso que eu gostaria de ter dito a ele (Vinícius), olho no olho, mas não tive a oportunidade”. O relato emocionado é do militar Ronald Ribeiro, pai da estudante Louise Ribeiro, perante mais de 300 alunos da Universidade de Brasília (UnB). Foi ali que a estudante de 20 anos morreu assassinada, na última sexta-feira, por um colega de curso e ex-namorado.
A aluna de Biologia foi morta no laboratório da graduação. A polícia encontrou o corpo, abandonado em um matagal na L4 Norte, com a ajuda de Vinicius Neres, assassino confesso da ex-namorada.
O reitor da universidade, Ivan Camargo, relata que não haverá mudanças quanto ao acesso dos estudantes aos materiais e laboratórios, mas a ronda no local será reforçada “na medida do possível”, principalmente no período noturno. De imediato, a previsão é de que ocorra ainda este mês a instalação de novos postes de iluminação.
“Estamos de luto e muito sentidos. Não podemos admitir violência contra as mulheres, elas têm o direito de não sentir medo. Nossa responsabilidade é também a de levar essa discussão para a sala de aula, quantas vezes for preciso. É o primeiro caso de feminicídio dentro da universidade, e acreditamos que tomar as chaves de nossos alunos não seja a resposta”, ressalta.
“Liberdade e discussão”
Ele argumenta que há uma equipe grande dentro dos laboratórios, e o estudante tem que continuar fazendo pesquisas. “A postura vai ser combater essa tragédia com liberdade e discussão, além de aumentar significativamente a iluminação do campus e as rondas. Vamos melhorar e garantir a segurança dos nossos estudantes”, completa.
Vestidos de branco e com rosas nas mãos, familiares, docentes, amigos e alunos se reuniram em um ato pela paz e contra a violência dirigida às mulheres.
Um ipê rosa (cor preferida de Louise) foi plantado no jardim do Instituto de Biologia. Amigos ajudaram na tarefa, e a mãe da jovem, Sandra, regou a muda. A proposta é que o jardim ganhe o nome de Louise Ribeiro. Foi anunciada também a criação de uma conta de e-mail (unbpaz@gmail.com) para que a comunidade possa sugerir melhorias de segurança.
Entre abraços, os estudantes relembraram a alegria da jovem. Após apresentação musical, depoimentos relataram como ela era responsável, esforçada e inteligente.
A dor é a mesma
O dia no Instituto de Ciências Biológicas da UnB foi marcado por emoção e homenagens. Cartazes contra a violência lembraram também o caso de Jane Carla, jovem de 20 anos assassinada pelo ex- namorado, no sábado, em Samambaia (página 6).
Tragédia une e mobiliza estudantes
Bruna Lisboa, 19 anos, conta que começou o curso de Biologia no mesmo ano que Louise. As duas logo se tornaram grandes companheiras. “Ainda não dá para acreditar, não parece real. Sempre acho que vou chegar à sala, e ela vai estar lá. Não será mais a mesma coisa sem ela. Agora, cuidaremos do ipê e do jardim para que estejam sempre vivos. Trataremos de participar de reuniões de segurança, e o que pudermos fazer para melhorar o campus faremos. Ela é minha inspiração”, expõe.
O estudante Hilton de Jesus, 21 anos, espera que o caso sirva de lição para que mais mulheres não sejam vitimadas. “Esse ato é um luto para a UnB inteira e é o mínimo que podíamos fazer. A violência está dentro das pessoas e não há como prever”, salienta.
A estudante de Serviço Social Thalita Sampaio, 18 anos, avalia que o ocorrido trouxe à discussão um assunto pouco debatido. “Esses casos acontecem todos os dias e a todo momento, é só ligar a televisão. Não podemos tratar com normalidade”, defende.
Para o estudante de Educação Física Philippe César Pacheco, 23 anos, faltam conscientização e ação por parte do governo. “Muita mulher teme denunciar abusos, mas, quando denuncia, nada acontece. Elas ficam ainda mais expostas e volúveis a esse tipo de mal. É difícil entender o que se passa na cabeça da pessoa que comete esse tipo de crime. Esse pensamento machista e retrógrado não pode acontecer. A mulher tem vontade própria e deve ser ouvida”, observa.
Sempre alegre
A diretora do Instituto de Ciências Biológicas, Andréa Maranhão, lembra que Louise amava a UnB. “Ela ficou muito feliz quando passou para o curso. Era amante das tartarugas, de todos os tipos de vida. Estava sempre alegre. Com esse ato, tentamos reverter o sentimento de perda em energia positiva. Os colegas vão ajudar a cuidar do jardim, o acompanharão florescer”, acrescenta.
Ela afirma que o Núcleo de Psicologia formará grupos de discussão e oferecerá acompanhamento aos alunos e profissionais.
A vice-reitora Sonia Nair Bao também prestou homenagens à Louise. “Biologia é vida. Vamos nos lembrar dela com aquele sorriso, com alegria e tentar usar isso como força para enfrentar os problemas que nos acometem todos os dias. Não podemos aceitar violência. Temos que ver essa lição e mudar o futuro. Devemos saber respeitar e aceitar o não”, reforça.
Na falta de dados oficiais, mapa é criado
Um mapa criado pelos próprios alunos mostra as áreas mais perigosas da UnB. Os crimes começaram a ser computados em 2010 e há registros de sequestro relâmpago, assalto a mão armada, tentativas de estupro, furtos e roubos de veículos. Em março de 2014, por exemplo, uma estudante de 25 anos foi sequestrada. No aplicativo, ela contou que estava no estacionamento da Ala Norte do Instituto Central de Ciências quando foi abordada por três homens, por volta das 19h30. O grupo a abandonou no Park Way.
Em setembro daquele ano, dois jovens relataram sofrer o mesmo crime. Armada com um revólver, uma dupla de bandidos abordou as vítimas, um homem e uma mulher, ambos com 18 anos, quando saíam de uma prova no prédio do Instituto de Biologia (IB).
Um outro monitoramento, chamado Onde Fui Roubado, coloca o campus como o sexto local em que mais acontecem roubos no DF. Ali, também são as próprias vítimas que sinalizam as ocorrências.
Segundo o reitor Ivan Camargo, parte dos estudantes repreende a presença da Polícia Militar no campus, por temer a militarização no espaço ou mesmo por achar a ação ineficiente: “Há um pequeno grupo que é contra, mas um grande grupo a favor. Quem lida com o crime não é o professor, é a polícia. Continuaremos com a parceria de sempre”.
Criminoso protegido de ameaças
Vinícius Neres está isolado no Centro de Detenção Provisória (CDP). Segundo a Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe), o jovem foi alocado nessa ala para que sua integridade física seja preservada. A medida foi tomada devido às características do crime e à comoção entre os internos, o que favoreceria ataques contra o preso.
O presidente do Sindicato dos Agentes de Atividades Penitenciárias (Sindpen-DF), Leandro Allan, acredita que Vinícius Neres deve ser vítima de muitas ameaças. “A massa carcerária repudia esse tipo de delito. Não é à toa que todos os envolvidos em crimes sexuais são isolados”, explicou. Allan disse ainda que, “se ele ficasse com os outros presos, poderia, inclusive, pagar com a própria vida”.
Violência na asa norte
A Secretaria de Segurança não levanta estatísticas da criminalidade no interior da UnB, faz apenas o recorte da Asa Norte. Segundo a pasta, os crimes contra o patrimônio nessa área caíram 2,3% – passaram de 2.431 em 2014 para 2.374 em 2015. Os dados incluem roubos a pedestre e de veículo, por exemplo.
De acordo com a PM, com o apoio da reitoria, os crimes mais comuns, como furto e roubo de veículos, caíram 30% de 2014 para 2015. O patrulhamento ciclístico, implementado no ano passado, também estaria contribuindo para a prevenção.