Um vídeo de rap, hospital cantado por dois meninos, look um de 13 e outro de 14 anos, capsule circula na internet, fazendo apologia ao crime organizado. Ele foi produzido por gangues de Planaltina. O problema é considerado tão sério, que a Polícia Civil já identificou os grupos e só espera a conclusão de laudos para pedir à Justiça mandado de prisão e busca e apreensão para integrantes de dez quadrilhas, acusadas de tráfico de droga, homicídios e assaltos.
As gangues foram identificadas em um trabalho conjunto entre a Divisão de Inteligência (Dipo) da Polícia Civil e a 31ª DP (Planaltina). São mais de cem criminosos, entre eles mulheres, que recrutam crianças e adolescentes para o tráfico de entorpecentes e para assumir a autoria de crimes. “É muito fácil eles corromperem crianças em Planaltina por causa da condição social de boa parte da população”, afirma um agente que investiga o caso e pediu para não ter o nome revelado.
No vídeo, enquanto a música rola, aparecem imagens de meninos (com aparência de 12, 13 anos) com armas na mão. Dinheiro, inclusive dólar, drogas, armas e munição compõem outra imagem. Há até mesmo uma imagem de um assalto na rua.
A polícia acredita que os participantes do vídeo fazem parte de quadrilhas que atuam principalmente nas quadras 2 e 6 do bairro Jardim Roriz, também conhecido como Pombal; quadras 2, 3 e 6 de Buritis; quadras 10 e 20 de Buritis II; quadra 16 de Buritis III; quadras 24, 25, e 26 de Buritis IV; Rua da Água de Coco; avenidas principais e quadras E, F e L do Arapoanga.
Cada grupo tem seu território delineado. O Pombal atua só no tráfico de drogas. Buritis em assalto, tráfico de droga e guerra entre gangues rivais. Buritis II, Buritis III, Buritis IV e Arapoanga em roubo e tráfico de drogas. Quem desobedece o código de honra e invade o território inimigo, paga com a vida.
De acordo com as investigações, tudo é muito bem organizado. Em Buritis II, além de roubo e homicídio, predomina o tráfico de drogas. De cada dez casas da região, segundo a polícia, uma pertence a um traficante. Os adolescentes são responsáveis por guardar armas, drogas e objetos roubados nos assaltos. Se um membro da quadrilha for assassinado, o crime organizado paga o sepultamento. Se for preso, um advogado é colocado à disposição da família para defendê-lo.
Penas brandas
A lei determina que o traficante preso em flagrante poderá ser condenado a uma pena que varia entre três e 15 anos de prisão. Mas, na prática, se for primário, fica no máximo um ano na prisão. Se já tiver antecedentes criminais e for condenado a 15 anos, só cumpre três anos.
A polícia entende que a lei é muito complacente e o traficante de drogas não se preocupa com a condenação. No sistema prisional, o criminoso faz escola. Convive com traficantes de todo o DF e aprende as artimanhas de como evitar um novo flagrante. Muitas vezes, quando sai do Presídio da Papuda ou do Centro de Detenção Provisória (CDP) o traficante já volta para o bairro com a droga e endereço de novos distribuidores.
Enquanto o traficante fica preso, novos meninos, meninas e adolescentes são recrutados. O convencimento acontece nas festinhas, onde os líderes oferecem roupas e tênis de marcas. Os chefes são respeitados e temidos. Se um membro de uma quadrilha for visto no reduto inimigo, é executado.
Mandados para mais de cem suspeitos
Um reduto conhecido como Toca, em Buritis II, é um dos mais famosos da região. São ruas pequenas e estreitas, com cerca de cem casas, dominadas por 15 traficantes. O local é considerado como um dos maiores pontos de venda de drogas do DF.
Há informações, não confirmadas, de que existe uma tonelada de drogas em Planaltina. A polícia ainda não conseguiu detectar o local, mas a cidade é apontada como entreposto de entorpecentes por causa da BR-020, rodovia que liga o DF à Bahia. A droga que chega à cidade viria do Nordeste.
Para dificultar a ação dos investigadores, os traficantes usam lan houses como pontos de encontro para planejar a distribuição da droga, arquitetar roubos, homicídios, divulgar e-mail e reuniões para identificar cabritos (delatores) e para a aquisição de armas. Muitas são adquiridas na troca de drogas com criminosos de Goiás e Minas Gerais.
Questionado sobre a atuação das gangues, o delegado Domingos Sávio, chefe da 31ª DP, inicialmente negou o caso. Mas, quando percebeu que a reportagem do Jornal de Brasília sabia do trabalho desenvolvido pela Polícia Civil, em Planaltina, não teve como omitir as investigações.
Sávio admitiu que a delegacia tem um relatório detalhado de todas as ações das gangues. O trabalho é desenvolvido no mais absoluto sigilo, tamanha a preocupação da polícia em prender os delinqüentes. Os investigadores já sabem que as quadrilhas são numerosas. Cada uma tem, pelo menos, dez integrantes, divididos em grupos.
Boa parte são menores com idade entre 13 e 17 anos, sempre liderados por um adulto. Mas também há crianças de 12 anos envolvidas nas gangues e que participam dos crimes. A polícia sabe que os homicídios são praticados para vingar a morte de comparsas. “Os adolescentes assumem a autoria dos crimes, acreditando na impunidade”, lamenta o delegado.
De acordo com Sávio, dez inquéritos foram instaurados para investigar a ação de cada um dos grupos. Suspeitos e testemunhas já foram ouvidos. O delegado aguarda os resultados de laudos do Instituto de Criminalística (IC) e do Instituto Médico-Legal (IML) para concluir os inquéritos e pedir a prisão dos delinqüentes.
Na opinião do presidente do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol), Wellington Luiz de Souza, o tráfico de drogas é um crime hediondo, mas os traficantes não ficam muito tempo na prisão. O policial entende que tem de haver uma reação da sociedade no Congresso Nacional para mudar a lei e manter o bandido na cadeia. “Basta de violência e impunidade. A sociedade necessita de paz”, afirma.