Águas Lindas de Goiás vive um momento decisivo de sua trajetória urbana e econômica. Um conjunto de projetos estruturantes, que soma cerca de R$ 2 bilhões em investimentos públicos e privados, começa a sair do papel e aponta para uma mudança profunda no perfil do município, historicamente marcado pela dependência do Distrito Federal para emprego e serviços. Polo industrial, aeroporto regional de cargas, terminal de integração e um novo eixo de mobilidade com Ceilândia formam a espinha dorsal dessa transformação.
A articulação envolve a Prefeitura de Águas Lindas, comandada pelo prefeito Lucas de Carvalho Antonietti, a Companhia de Desenvolvimento de Águas Lindas de Goiás (Codeal), além dos governos estadual e federal. O desafio central, segundo a gestão, é garantir que o crescimento não seja apenas numérico, mas venha acompanhado de planejamento urbano, inclusão social e geração de oportunidades para quem já vive na cidade.
Ao Jornal de Brasília, o prefeito Lucas Antonietti afirma que o município entrou em um novo ciclo. “Estamos falando de um volume histórico de investimentos que vai transformar Águas Lindas, com impacto direto na mobilidade, na geração de empregos e na qualidade de vida da população”, disse. Segundo ele, a prioridade da administração é organizar esse avanço. “Nosso objetivo é preparar Águas Lindas para se consolidar como uma cidade média, com infraestrutura, planejamento urbano e oportunidades para quem mora aqui”, completou.
Desenvolvimento
No centro dessa estratégia está o Polo Industrial Sol Nascente, que já reúne mais de 60 empresas homologadas e investimentos superiores a R$ 200 milhões. O empreendimento avança com a proposta de atrair não apenas galpões isolados, mas cadeias produtivas completas, capazes de gerar empregos diretos e indiretos e fortalecer a economia local. Há, inclusive, a participação de empresas chinesas ligadas ao Canal Expresso Brasil–China, ampliando as conexões comerciais do município.
O presidente da Codeal, André Oliveira, explica que os investimentos previstos devem se consolidar ao longo dos próximos cinco anos.

“Esses recursos vêm de fontes diversas e incluem aproximadamente R$ 750 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinados à ligação entre Águas Lindas e Ceilândia, além de outros R$ 500 milhões para o Aeroporto Regional”, detalhou.
Para ele, a industrialização é uma grande virada de chave. “Estamos instalando mecanismos estruturantes, com indústrias, empresas de e-commerce e de tecnologia, que criam um novo nicho de empregos de maior qualificação técnica”, afirmou.
A prefeitura e a Codeal também atuam para que os benefícios fiquem na cidade. Entre as medidas estão a exigência de contrapartidas sociais nos projetos, a priorização da mão de obra local – com apoio do Sistema S, institutos federais e universidades – e um planejamento urbano que acompanhe o crescimento industrial com serviços públicos, infraestrutura e sustentabilidade.
Aeroporto regional e vocação logística

Concebido com recursos da iniciativa privada, o Aeroporto Regional de Águas Lindas representa um aporte estimado em cerca de R$ 500 milhões. As obras já avançaram para a etapa de terraplanagem da pista, que hoje soma aproximadamente 1.800 metros e deve alcançar 2.200 metros de extensão. Pelo cronograma do projeto, até o final de 2026 devem ser finalizados os serviços de pavimentação, sinalização e balizamento, etapa que viabiliza o início das operações no local.
Idealizador do projeto, o empresário Edilson Gomes Chiola, responsável pelo Aeródromo Chiola Fly Club, afirma que o aeroporto nasce com foco em cargas e logística. “A operação será voltada para aviões como A-320 e 737 Max, além da aviação executiva, com cerca de 180 hangares”, explicou. O complexo também prevê escola de formação de pilotos, oficinas, montagem de drones e aeronaves agrícolas, além de um polo logístico de e-commerce voltado para o Centro-Oeste e o Norte do país. A estimativa inicial é de 510 empregos diretos.
Embora o perfil principal seja de cargas, a localização estratégica, próxima a Brasília, abre espaço para futuras operações de passageiros e para o apoio logístico ao Aeroporto Internacional da capital federal.
Mobilidade e integração regional
A ligação entre Águas Lindas e Ceilândia é um ponto-chave desse pacote de investimentos. O estudo que definirá se o transporte será feito por BRT ou por trilhos está sob coordenação da Secretaria-Geral da Governadoria, com apoio de consultoria especializada. A análise considera custos de implantação e operação, capacidade de transporte, conforto, tempo de viagem, impacto ambiental e acessibilidade tarifária.

O resultado do estudo vai orientar a aplicação dos recursos do PAC e, segundo a prefeitura, precisa garantir integração com outros modais e redução do tempo de deslocamento de milhares de trabalhadores que hoje dependem do transporte rodoviário. “Com o terminal de integração e a ligação com Brasília, será possível reduzir o custo da passagem e melhorar a mobilidade da população”, afirmou o presidente da Codeal.
Dentro desse contexto, Águas Lindas também deve ganhar seu primeiro terminal de integração, com investimento estimado em R$ 100 milhões. O projeto prevê um complexo que funcionará como um “rodo shopping”, reunindo linhas municipais, intermunicipais, interestaduais e rodoviárias, além de áreas comerciais e de serviços.
Valorização imobiliária e desafios sociais
O anúncio e o avanço desses projetos já começam a impactar o mercado imobiliário local. Larissa Estrela, especialista em vendas de imóveis em Águas Lindas, observa que imóveis que antes eram vendidos na faixa de R$ 150 mil a R$ 155 mil agora aparecem entre R$ 165 mil e R$ 180 mil, chegando, em alguns casos, perto de R$ 200 mil. “É um salto visível nos valores de venda de casas e apartamentos”, afirma.
Segundo ela, parte dessa valorização ainda é movida pela expectativa e pela especulação, já que muitos projetos estão em fase inicial. “No médio e longo prazo, se houver geração de emprego e infraestrutura de qualidade, é fortemente provável que tanto aluguéis quanto valores de venda continuem a subir de forma sustentada”, avaliou. Hoje, os aluguéis ainda variam bastante, com valores entre R$ 800 e R$ 1.200, dependendo do bairro e do tipo de imóvel.
Ciente desse movimento, a prefeitura afirma atuar em três frentes: expansão urbana planejada, fortalecimento de programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, e políticas voltadas à permanência das famílias de baixa renda, evitando processos de exclusão ou deslocamento forçado.
Infraestrutura e enfrentamento às chuvas
O crescimento urbano também expõe gargalos históricos, como os alagamentos. Após as fortes chuvas do último período, o município decretou situação de emergência, reconhecida pelo Governo Federal. A partir disso, a prefeitura, por meio da Codeal e de um grupo de trabalho específico, apresentou projetos que somam cerca de R$ 200 milhões para obras de drenagem e prevenção a enchentes.
“Os recursos são voltados principalmente para a ampliação das galerias de águas pluviais e para reduzir os impactos das chuvas na cidade”, explicou André Oliveira. A proposta é ir além das ações emergenciais e criar soluções estruturais compatíveis com o novo patamar de crescimento do município.
Expectativa
Para quem vive em Águas Lindas, os investimentos são vistos como uma oportunidade aguardada há anos. A moradora Maria de Fátima Cordeiro, de 40 anos, acredita que o momento pode representar uma virada para a cidade. “Já está mais do que na hora de Águas Lindas crescer. Precisamos desses investimentos, de ofertas de emprego para muita gente que hoje trabalha em Brasília”, disse. “Acredito que isso melhore a economia da nossa cidade, mas também precisamos avançar em áreas básicas, como saneamento”, completou.