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Brasília

Águas Claras: destino de invasão é imprevisível

Arquivo Geral

24/09/2014 7h20

Júlia Silva,   37 anos, vive há uma década no Distrito Federal. Saiu com toda a família de Pernambuco com a promessa de que todos teriam emprego   na capital do País. Chegando aqui, o incentivador desapareceu e todos ficaram na  rua. Sem trabalho, tiveram de se virar como podiam e, há quatro anos, vivem de forma improvisada junto a pelo menos outras dez famílias na comunidade Veredas da Cruz, em Águas Claras. O crescimento da invasão é uma sugestão de pauta que chegou ao JBr. via Whatsapp.

Vivendo em barracos de madeira espalhados entre entulhos, os moradores têm, basicamente, o mesmo passado de Júlia. Vivem no local de terra batida próximo ao terreno onde está em construção o Hospital do Coração. No último dia 11, um acordo com o GDF  sinalizou que a invasão acabaria.

“A promessa é de que nos levem para uma casa em outro lugar, que não sei bem onde”, conta Júlia. O documento, assinado por nove famílias, prevê que, antes de serem inseridas no Programa Morar Bem, elas receberão  R$ 600 mensais, condicionados à saída do local.

Desconfiança

O valor, no entanto, não é visto com bons olhos pelos invasores. “Com esse dinheiro não dá pra alugar uma casa. Nós já procuramos, mas quando os locadores descobrem que temos crianças, não querem fazer negócio”, revela Marivaldo Augusto da Silva, pernambucano de 54 anos que diz morar há 19 no mesmo local. 

“Não vale a pena sair daqui, onde as crianças vão à escola e temos nossa fonte de sustento. Meu trabalho tiro daqui, onde pego os recicláveis. Apesar de tudo, sou feliz. Tenho saúde e disposição para trabalhar e é o que importa”, argumenta o homem, que vive com cinco de seus 12 filhos e uma neta.

Mas, para o casal Dione da Silva, 20 anos, e Vitória Amaral, 15, se confirmada, essa será uma oportunidade de mudança de vida. O jovem planeja: “Com um endereço vou poder procurar emprego”. 

Esperança de mudar de vida longe dali

Apesar do acordo assinado pelos moradores interessados no auxílio do governo, alguns não fazem parte da lista. “Tem gente que não tem documento, mas outros têm medo de perder o pouco que conseguiram ao longo dos anos”, conta  Júlia, uma das invasoras. Mesmo assim, ela e as outras 15 pessoas de sua família seguem na esperança de trocar os cinco barracos por uma casa. 

A possibilidade agrada os moradores da região regularizada. “Invasões não devem acontecer. É falta de uma fiscalização eficiente, porque se o Estado não se faz presente, vira uma bagunça mesmo”,  opina o professor Ênio Santos,   44.   

Fiscalização

Em nota conjunta, as secretarias da Ordem Pública e Social (Seops) e  de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) informaram que são feitas fiscalizações para conter o avanço da ocupação  desde 2011. “Infelizmente, muitas pessoas voltam a ocupar o terreno após as retiradas”.

Segundo as pastas, as estruturas  estão ocupadas por pessoas em situação de vulnerabilidade social e  a maioria  trabalha com a reciclagem de materiais. 

“Técnicos  visitaram a área nos últimos anos e ofereceram benefícios a esses ocupantes, como passagem interestadual para a cidade de origem e encaminhamento a unidades de acolhimento, mas eles recusam o auxílio”, concluem.

Vizinhança não é bem-vinda

Moradores de Águas Claras defendem que é preciso  encontrar  a solução para um problema crescente. Dono de três apartamentos na região, um homem conta que o número de barracos aumentou nas últimas três semanas. “Da janela dá para ver a evolução. Eram cerca de três casas e hoje já deve passar de 20”, diz o engenheiro   de 37 anos, que prefere não se identificar.

Para ele, como investidor, o maior medo é da desvalorização da região e possível aumento de criminalidade. “Não que eles tenham que roubar, mas se passarem fome, é uma alternativa possível”, justifica. “Daqui a pouco isso aqui está tomado de moradores irregulares. A Estrutural  também  começou pequena”, compara.

Mas essa não é a única preocupação dos vizinhos legalizados. “Eles também incomodam muito pelo barulho e higiene, já que é um ambiente propício para a proliferação de doenças”, acredita Luciano Sales,   41 anos. Ele mora no local   há um ano, período em que percebeu o aumento da região invadida.  

No entanto, para Juliana Sales, 36, a solução não é simplesmente retirar as pessoas dali. “É preciso ter uma política de assistência que acompanhe essas famílias. Se estão ali é porque não têm condições”.   

Ponto de vista
 
“Quando o governo não tem condições adequadas de fazer acompanhamento e vigilância de áreas públicas, cria oportunidades para esse tipo de invasão”, avalia o especialista em gestão pública José Mathias-Pereira. Para ele, o cenário é de fragilidade e deficiência no processo de gestão e controle das terras. “Quando as pessoas,     famílias inteiras, se instalam, constroem uma espécie de vila e isso gera um processo de atração, porque outras pessoas buscam esse tipo de alternativa”, completa. Além disso, “é importante   criar condições de apoio a essas famílias que estão em situação de extrema necessidade. O ideal seria   realocá-las para que possam recomeçar  com alguma dignidade”.  
 
O JBr. mostrou
 
Na semana passada, o Jornal de Brasília relatou o caso de uma invasão no Setor de Inflamáveis, localizado no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), que tem sido alvo de invasores há anos. A situação compromete também a segurança, já que há o bloqueio da única rota de fuga possível na região, em caso de incidentes. Nada foi capaz de   solucionar a questão. 

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