Júlia Silva, 37 anos, vive há uma década no Distrito Federal. Saiu com toda a família de Pernambuco com a promessa de que todos teriam emprego na capital do País. Chegando aqui, o incentivador desapareceu e todos ficaram na rua. Sem trabalho, tiveram de se virar como podiam e, há quatro anos, vivem de forma improvisada junto a pelo menos outras dez famílias na comunidade Veredas da Cruz, em Águas Claras. O crescimento da invasão é uma sugestão de pauta que chegou ao JBr. via Whatsapp.
Vivendo em barracos de madeira espalhados entre entulhos, os moradores têm, basicamente, o mesmo passado de Júlia. Vivem no local de terra batida próximo ao terreno onde está em construção o Hospital do Coração. No último dia 11, um acordo com o GDF sinalizou que a invasão acabaria.
“A promessa é de que nos levem para uma casa em outro lugar, que não sei bem onde”, conta Júlia. O documento, assinado por nove famílias, prevê que, antes de serem inseridas no Programa Morar Bem, elas receberão R$ 600 mensais, condicionados à saída do local.
Desconfiança
O valor, no entanto, não é visto com bons olhos pelos invasores. “Com esse dinheiro não dá pra alugar uma casa. Nós já procuramos, mas quando os locadores descobrem que temos crianças, não querem fazer negócio”, revela Marivaldo Augusto da Silva, pernambucano de 54 anos que diz morar há 19 no mesmo local.
“Não vale a pena sair daqui, onde as crianças vão à escola e temos nossa fonte de sustento. Meu trabalho tiro daqui, onde pego os recicláveis. Apesar de tudo, sou feliz. Tenho saúde e disposição para trabalhar e é o que importa”, argumenta o homem, que vive com cinco de seus 12 filhos e uma neta.
Mas, para o casal Dione da Silva, 20 anos, e Vitória Amaral, 15, se confirmada, essa será uma oportunidade de mudança de vida. O jovem planeja: “Com um endereço vou poder procurar emprego”.
Esperança de mudar de vida longe dali
Apesar do acordo assinado pelos moradores interessados no auxílio do governo, alguns não fazem parte da lista. “Tem gente que não tem documento, mas outros têm medo de perder o pouco que conseguiram ao longo dos anos”, conta Júlia, uma das invasoras. Mesmo assim, ela e as outras 15 pessoas de sua família seguem na esperança de trocar os cinco barracos por uma casa.
A possibilidade agrada os moradores da região regularizada. “Invasões não devem acontecer. É falta de uma fiscalização eficiente, porque se o Estado não se faz presente, vira uma bagunça mesmo”, opina o professor Ênio Santos, 44.
Fiscalização
Em nota conjunta, as secretarias da Ordem Pública e Social (Seops) e de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) informaram que são feitas fiscalizações para conter o avanço da ocupação desde 2011. “Infelizmente, muitas pessoas voltam a ocupar o terreno após as retiradas”.
Segundo as pastas, as estruturas estão ocupadas por pessoas em situação de vulnerabilidade social e a maioria trabalha com a reciclagem de materiais.
“Técnicos visitaram a área nos últimos anos e ofereceram benefícios a esses ocupantes, como passagem interestadual para a cidade de origem e encaminhamento a unidades de acolhimento, mas eles recusam o auxílio”, concluem.
Vizinhança não é bem-vinda
Moradores de Águas Claras defendem que é preciso encontrar a solução para um problema crescente. Dono de três apartamentos na região, um homem conta que o número de barracos aumentou nas últimas três semanas. “Da janela dá para ver a evolução. Eram cerca de três casas e hoje já deve passar de 20”, diz o engenheiro de 37 anos, que prefere não se identificar.
Para ele, como investidor, o maior medo é da desvalorização da região e possível aumento de criminalidade. “Não que eles tenham que roubar, mas se passarem fome, é uma alternativa possível”, justifica. “Daqui a pouco isso aqui está tomado de moradores irregulares. A Estrutural também começou pequena”, compara.
Mas essa não é a única preocupação dos vizinhos legalizados. “Eles também incomodam muito pelo barulho e higiene, já que é um ambiente propício para a proliferação de doenças”, acredita Luciano Sales, 41 anos. Ele mora no local há um ano, período em que percebeu o aumento da região invadida.
No entanto, para Juliana Sales, 36, a solução não é simplesmente retirar as pessoas dali. “É preciso ter uma política de assistência que acompanhe essas famílias. Se estão ali é porque não têm condições”.