João Pedro Rinehart
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Aos sete anos de idade, Adriano dos Santos de Jeseus descobriu uma paixão: as cores vivas e desenhos marcantes das bandeiras do mundo. Hoje com 39 anos e em situação de rua, ele tornou-se perito em conhecimentos geográficos. Cite qualquer país do mundo e Adriano tem na ponta da língua a capital, as cores da bandeira e à qual continente ele pertence.
Ainda criança, ele perdeu os pais. Aos oito anos de idade, foi morar no Orfanato de Irmã Dulce, hoje conhecido como Associação Obras Sociais Irmã Dulce, na região metropolitana de Salvador, no município de Simões Filho. À época, Adriano morava com o irmão na casa de sua avó, mas ela não tinha condições de sustentar as duas crianças, e precisou entregá-los ao orfanato, onde foram bem recebido pela Irmã Dulce, e com ela viveram até a maioridade.
Sem colas
Adriano relembra acontecimentos com precisão assombrosa de detalhes. Quem depara com o homem pelas ruas nem imagina que sua memória vai muito além de saber das capitais do mundo inteiro. Ele relembrou de casos que viveu antes de vir para Brasília.
Conheceu e foi amigo próximo do zagueiro da Chapecoense, Neto, um dos sobreviventes do acidente em 2016. “A gente se conheceu lá no estádio Brinco de Ouro da Princesa, que é o estádio do Guarani”, relembra. Guarani foi o time de Neto entre os anos de 2009 e 2012, quando foi chamado para o Santos.
“Eu chegava lá pra cuidar do campo e encontrava o Neto com os outros jogadores. Toda hora, ele fazia as perguntas: ‘Baiano [como Neto chamava Adriano], qual a capital do Uruguai? Qual a capital da Argentina?’, aí pegava a bola e chutava pra mim”, contou ao Jornal de Brasília.
Futebol
Com detalhes que incluem o número da camisa e a escalação completa do time do Guarani na final do campeonato paulista de 2012, Adriano relembra ter assistido ao jogo. O time jogou contra o Santos, e o homem lembra com clareza até dos jogadores que substituíram outros devido a machucados. É o caso do camisa 10, Medina, que jogou no lugar do Fumagalli, conhecido como “Fumagol”.
Adriano se mantém atualizado e sabe sobre a história de alguns países. Um exemplo:“O Cazaquistãomudou de capital. Antigamente, se chamava Astana. Eles mudaram para Nursultan.” Perguntado sobre a capital de um país do continente africano, Lesoto, Adriano não hesitou em dizer que a capital é Maseru e que, antigamente, a bandeira era diferente da atual. Ascores marrom, verde, azul e branca mudaram para azul, verde, branca, com o desenho de um chapéu no centro. Ele é um atlas ambulante.
Habilidade surgiu no orfanato
A habilidade de Adriano teve início quando estava no orfanato e descobriu a biblioteca. Um dos diversos livros que ali estavam chamou a atenção dele. Ao abrir a publicação, deparou-se com uma série de bandeiras. Nascia a paixão. “Peguei uma tesoura, recortei todas elas, e comecei a brincar. Fazia figurinhas, colava na capa do caderno, desenhava, pintava”, relembra. Mesmo tendo estudado apenas até a quinta série, Adriano conta com esses conhecimentos que, segundo ele mesmo, são “dons inexplicáveis”. “É uma coisa que não tem explicação, desde os sete anos de idade que sou assim”.
Adriano sonha em aparecer na televisão, fazendo o seu desafio em frente às câmeras: responder todas as capitais, as cores das bandeiras e os continentes de todos os países do mundo. Além de mostrar para o mundo o seu dom, Adriano almeja ter uma casa. “No momento estou em situação de rua, mas não é porque eu quero, é por que estou lutando para ganhar minha casa, e até agora não consegui”, conta. Sobre a participação em programas de TV, “se eles me oferecerem uma casinha lá, eu vou aceitar. Assim, não precisa ser uma mansão, um casarão, o que eu preciso é de um lugar simples, humilde, só pra mim”. O homem de memória acima do comum diz querer reconhecimento. “Eu vim parar aqui por conta desse sonho. Lá na Bahia é muito difícil a pessoa chegar nesses programas”.