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Brasil

Prisão de Crivella não desoxigena plano de poder da Universal no país

Crivella chegou à terra prometida da política 17 anos atrás, como senador, virou ministro da Pesca no governo Dilma Rousseff nove anos depois e, em 2016, foi eleito prefeito do Rio

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Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) era um dos ativos eleitorais mais vistosos da Universal do Reino de Deus. Filho de Eris Bezerra Crivella, irmã de Edir Macedo, e bispo licenciado na igreja do tio, como cantor gospel ele bradou em “O Ano da Vitória”: “Eu vou entrar na terra prometida e realizar o projeto da minha vida”.

Crivella chegou à terra prometida da política 17 anos atrás, como senador, virou ministro da Pesca no governo Dilma Rousseff nove anos depois e, em 2016, foi eleito prefeito do Rio. Nunca um quadro da Universal havia alcançado um Executivo tão central para o país.

Sua incapacidade de se reeleger somada à prisão em dezembro, sob a névoa de denúncias de corrupção, são um tropeço na estratégia abordada por Macedo em “Plano de Poder”. Lançado em 2011 pela Thomas Nelson, um ano após o Censo detectar o avanço dos evangélicos num país outrora monopolizado pelo catolicismo, o livro descostura uma ideia que por décadas prevaleceu no segmento: “Crente não se mete em política”, lema depois substituído pelo atualíssimo “irmão vota em irmão”.

“O processo de ascensão ao poder político não se dá por acaso nem por obra do destino”, diz o bispo na obra. “Não é como o princípio de autopolinização da natureza, como o vento, ou o pássaro, ou mesmo um inseto que conduz o pólen de um lugar para o outro, e a vida vai acontecendo naturalmente.”

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É preciso ter em mente que “a representação faltou de forma dolorosa aos hebreus”, afirma o líder religioso. Crivella, sangue do seu sangue, ajudaria a garantir que essa história não se repetisse no Brasil do século 21.

Nos quatro anos à frente do Executivo carioca, bateu de frente com o Carnaval (diz que o dinheiro seria melhor aproveitado na saúde e na educação), tentou censurar um beijo entre dois rapazes num gibi e consagrou o bordão “fala com a Márcia”, nome de uma assessora evocado em reunião com pastores na sede da Prefeitura –segundo o prefeito, ela anotaria pedidos para operar fiéis que estivessem precisando de cirurgias como a de catarata.

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A Universal mobilizou sua máquina para socorrer o sobrinho do fundador, até porque as acusações contra o prefeito carioca ricochetearam na igreja. “Difícil é saber onde termina a ignorância e onde começa a desonestidade intelectual de quem levanta, abraça ou propaga uma acusação tão tresloucada como esta”, diz um texto no site da denominação, em referência às suspeitas levantadas pelo Ministério Público do Rio de que Crivella teria usado a Universal para lavar dinheiro de supostas propinas.

Fiéis impulsionam nas redes a campanha #CrivellaLivre, em que ele chega a ser comparado com Martin Luther King, Nelson Mandela e Mahatma Gandhi, todos presos em algum ponto.

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Virou piada na internet o eufemismo que um programa jornalístico da Record, emissora comprada em 1989 por Edir Macedo, usou para noticiar o encarceramento: “Prefeito Marcelo Crivella é conduzido para a Cidade da Polícia”.

“Ele dificilmente se livrará dos efeitos deletérios da prisão provocada pela acusação judicial de que ‘se locupletava dos ganhos ilícitos’ do QG da Propina”, diz o professor da USP Ricardo Mariano, autor de “Neopentecostais – Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil”. “Entrará para a crescente lista de políticos evangélicos do Rio que foram presos e caíram em desgraça, casos de Anthony e Rosinha Garotinho, Eduardo Cunha e Pastor Everaldo.”

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Se por um lado a figura de Crivella está umbilicalmente ligada à Universal, sua queda não necessariamente será uma bola de ferro que a denominação neopentecostal terá de arrastar.

“Apesar de seu peso simbólico”, segundo Mariano, o episódio “não terá grande impacto nos futuros projetos políticos da Universal e do Republicanos, com exceção de planos que envolviam Crivella”.

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Costela partidária da igreja, o Republicanos nunca foi tão forte. Em 2020, quadruplicou o número de prefeitos eleitos em relação aos 54 que emplacou no primeiro pleito municipal que disputou, 12 anos atrás. Desde março também abriga dois filhos do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio e o vereador Carlos.

Crivella esperava pegar carona no bolsonarismo para ser reconduzido ao cargo. Acabou conduzido à Cidade da Polícia. Só Deus sabe se um dia recuperará seu capital político. Para a Universal, vida que segue.

Estadão Conteúdo




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