Siga o Jornal de Brasília

Brasil

Ouvidoria pede afastamento de policiais que atuaram em Paraisópolis

“Não haverá açodamento de condenados anteriormente antes dos devido processo legal”, disse o comandante-geral, coronel Marcelo Salles

Aline Rocha

Publicado

em

Foto: Reprodução/Twitter
PUBLICIDADE

Da Redação
redacao@grupojbr.com

A Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo solicitou que os policiais militares envolvidos na ocorrência que terminou com nove mortes em Paraisópolis sejam afastados do serviço operacional das ruas. O pedido foi feito em ofício encaminhado à Corregedoria da Polícia Militar, que também apura as circunstâncias do caso. “A ocorrência foi desastrosa, pois acabou com tamanho número de mortes. A improvisação e a precipitação podem ter contribuído, direta ou indiretamente, para as mortes dessa tragédia”, disse o ouvidor Benedito Mariano nesta segunda-feira, 2.

Segundo ele, o pedido tem caráter preventivo e visa a realocar os agentes para serviços administrativos enquanto a investigação do caso é realizada. O afastamento só pode ser determinado pelo comando da Polícia Militar, que, nesta segunda, indicou que o pedido não será atendido. “Os policiais (envolvidos no caso) não estão afastados. Eles estão preservados. Nós temos de concluir o inquérito. Não haverá açodamento de condenados anteriormente antes dos devido processo legal”, disse o comandante-geral, coronel Marcelo Salles.

O ouvidor reforçou que testemunhas do caso podem procurar o órgão para relatar eventuais abusos por parte dos agentes. “Os depoimentos serão encaminhados para o DHPP e para a Corregedoria, solicitando que os termos sejam anexados aos procedimentos apuratórios conduzidos pelos dois órgãos, o que pode ser uma contribuição importante para as investigações”, disse Mariano.

‘Uso moderado da força’, dizem policiais em depoimento

Neste domingo, seis policiais militares da Força Tática do 16º Batalhão prestaram depoimento no 89º DP (Portal do Morumbi). Ao delegado, eles repetiram versões similares. Foram acionados para apoiar uma diligência de averiguação a um veículo modelo Celta de cor preta, mas o carro não foi encontrado. Durante o deslocamento pela Avenida Hebe Camargo, na altura do cruzamento com a Rua Rudolf Lutze, ocupantes de uma moto, ao verem os policiais, efetuaram diversos disparos e adentraram na multidão que participava do baile funk.

Os disparos, contaram os policiais, iniciaram uma confusão generalizada. “Em seguida, as equipes passaram a ser hostilizadas pelos frequentadores do baile funk que arremessaram garrafas, pedras e madeira na direção dos policiais”, declarou um dos agentes à polícia. Eles, então, tentaram sair do local, mas se depararam com duas viaturas danificadas pelo tumulto. “Desembarcaram para prestar apoio, no entanto havia um grande número de pessoas descontroladas, sendo necessário uso moderado da força com emprego de cassetete e munição química pelos policiais da Força Tática, do Comando 01 e 02 para dispersar a multidão.”

Os policiais não relataram ter visto diretamente a confusão que levou à morte das nove pessoas. Disseram apenas que receberam a informação que as vítimas estavam desacordadas em uma viela da Rua Ernest Renan e acionaram o resgate. “Informa ainda que não efetuou nenhum disparo de arma de fogo durante o ocorrido, também não viu nenhum de seus colegas fazê-lo”, descreveu o boletim de ocorrência sobre o depoimento de um dos policiais.

A Polícia Civil informou no documento que uma adolescente de 16 anos foi ferida por um disparo de arma de fogo na perna. Ela foi atendida no Hospital do Campo Limpo, mas até a tarde do domingo o projétil ainda não havia sido retirado. A polícia solicitou que o objeto passe por perícia. As armas dos policiais foram apreendidas para posterior exame balístico.

A letalidade não foi provocada pela PM’, diz Doria

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), convocou uma entrevista coletiva na manhã desta segunda-feira, 2, em que lamentou as mortes de nove jovens que morreram na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, no fim de semana, mas buscou destacar que o plano de policiamento do Estado “não mudará” por causa dessa ação.

“A letalidade não foi provocada pela Polícia Militar, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo o baile funk. É preciso cuidado para não inverter o processo”, disse Doria. “Não houve ação da polícia em relação a invadir a área onde o baile funk estava ocorrendo. Tanto é fato que o baile funk continuou”, afirmou o governador. “(O baile) não deveria sequer ter ocorrido, porque é ilegal. Fere a legislação municipal”, completou.

Foto: REUTERS/Amanda Perobelli

Doria disse ainda que os protocolos estabelecidos para a atuação da PM no Estado não sofrerão alterações, “o que não nos desobriga de reavaliar e rever pontos específicos de ação, onde falhas possam ter acontecido e, neste caso, corrigir as falhas para que elas não voltem a se suceder”.

“As ações na comunidade de Paraisópolis, como em outras comunidades do Estado de São Paulo, seja pela desobediência à Lei do Silêncio, seja pela busca e apreensão de drogas, de fruto de roubo de automóveis e motocicletas, ou de outros bens, vão continuar na capital, na região metropolitana e no Estado de São Paulo. A existência de um fato não estabelece que circunstancialmente, com as alterações que devem ser feitas, não inibirão as ações de que devem ser feitas”, ressaltou o governador.

Doria chamou o caso de “incidente triste” e disse transmitir aos familiares dos nove jovens mortos sua “solidariedade”.

“Os procedimentos, a atitude e o comportamento da Polícia Militar, ou seja, o programa de Segurança Pública no Estado de São Paulo não muda. Não vai mudar”, disse Doria, falando pausadamente a última frase de forma a enfatizar cada palavra. “O governador está sendo muito claro: não vai mudar”, enfatizou mais. “Procedimentos de ação operacionais podem ser revistos. Aliás, devem ser revistos constantemente, para serem aperfeiçoados e melhorados, evitando erros.”

PM havia planejando operação na favela horas antes das mortes

O comandante-geral da PM, coronel Marcelo Salles, afirmou que a Polícia Militar havia montado uma operação especial para coibir o baile funk que ocorreu em Paraisópolis na noite de sábado. Segundo o policial, havia oito festas diferentes dentro da favela naquela noite, com cinco mil pessoas. Entretanto, a operação teria sido abortada dado o volume de cidadãos aglomerados nas vielas do bairro.

“Nós iríamos ocupar? Iríamos. Só que, às 20 horas, foi feita uma análise de risco e não dava. Já estava todo tomado naquela localização. Ingressar ali seria um erro. (Seria um erro) Dispersar ali. Tanto que esse evento ocorreu às 4 horas da manhã”, afirmou o coronel.

Salles afirmou que a opção então foi de reforçar o policiamento no entorno do baile, sob o argumento de que criminosos se aproveitam da festa, e da multidão, para se refugiar na massa de pessoas após a prática de crimes. “A experiência diz, e eu já fui comandante da zona oeste e sei disso, que há crimes adjacentes. Carros são roubados e levados para dentro do pancadão”, disse.

“O gatilho iniciador do problema foi os criminosos atirando na polícia”, concluiu o coronel, mesmo admitindo que as investigações sobre o caso ainda não são conclusivas.

Na versão apresentada pelo coronel, duas pessoas, que ocupavam uma motocicleta Yamaha XT 660 R, teriam passado por três policiais militares que também eram ocupantes de motos, e atirado contra os policiais. Os PMs teriam então perseguido essa dupla por cerca de 400 metros, até chegar no ponto onde havia o baile. Ali, a massa teria reagido com hostilidade à presença dos policiais, que ainda assim não reagiram a novos tiros de armas de fogo, e teriam pedido auxílio.

Primeiramente, um outro policial também de moto teria chegado para socorrer os três policiais. Depois, duas equipes da Força Tática, uma divisão da PM que tem escopetas e granadas de gás, também entraram na favela. Mais PMs foram chegando até totalizarem 38 agentes na favela.

“Os policiais (envolvidos no caso) não estão afastados. Eles estão preservados. Nós temos de concluir o inquérito. Não haverá açodamento de condenados anteriormente antes dos devido processo legal. Eles estão preservados e continuarão nas unidades, em serviços administrativos, no mesmo horário deles, fazendo outras coisas”, afirmou o coronel, ao citar que, em eventos em que há mortes, os policiais passam por acompanhamento médico e psicológico.

O coronel disse que eventuais mudanças nos procedimentos da ação, especialmente no caso de criminosos usarem pessoas como escudos, como ele argumenta que ocorreu, só serão analisadas depois do término das investigações. Salles não deu prazos para o fim das ações.

Salles disse que as imagens compartilhadas nas redes sociais estão sob análise. Ele destacou uma das gravações, em que uma pessoa sentada é agredida com tapas na cara por um policial, poderia não ter relação com a ação. “Não há som de música, você consegue ouvir cães latindo”, citou. “Apesar (de serem atos) gravíssimos e que serão apurados com uma lupa, porque não compactuamos com erro.”

O secretário estadual da Segurança Pública, João Campos, se negou a responder se já havia identificado os agentes mostrados nos vídeos que foram compartilhados após a ação. No lugar disso, preferiu destacar a “disciplina” da PM paulista. “É uma instituição admirável”, disse o secretário.

 

Estadão Conteúdo


Você pode gostar
Publicidade
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade
Publicidade