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Brasil

Na pandemia, begônia passa a custar mais de R$ 300

Em São Paulo, a Begonia maculata “wightii” não é encontrada por menos de R$ 200

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em

Foto: Reprodução
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Fernanda Brigatti
São Paulo, SP

Se houvesse no mundo contemporâneo um olimpo dedicado às plantas ornamentais, a Begonia maculata “wightii” certamente ocuparia uma das cadeiras reservadas às divindades botânicas.

Em hastes grossas alongadas equilibram-se folhas de laterais picotadas com o verso avermelhado em contraste ao verde-escuro da parte da frente, coberto de bolas arredondadas de um branco quase prateado –um deleite estético que transformou esse cultivar, um tipo de planta melhorada que não é encontrada na natureza, em uma febre.

E enquanto o olimpo da mitologia grega abrigava deuses, a realeza das plantas ornamentais guarda preços altos. Em São Paulo, a Begonia maculata “wightii” não é encontrada por menos de R$ 200– e há até fila de espera nas floriculturas e ateliês.

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A supervalorização desse tipo de begônia vem de uma combinação de fatores, como maior interesse por plantas em meio à pandemia e exclusividade na produção.

Na Blumenfee, loja de plantas na Bela Vista (região central da capital paulista), 85 pessoas aguardam na fila a chance de comprar a sua. No fim de março, a loja recebeu 110 unidades. Vendeu todas, por R$ 200 cada uma.

Desde então, o preço disparou e, no fornecedor, chegou a R$ 260.

“Por esse preço, eu me nego a trazê-la para a loja. Não fiz nem o cálculo de quanto ficaria para os meus clientes. Está muito cara, não dá”, diz Leda Welter, dona da loja.

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Na Selvvva Plantas e Objetos, as Begonias maculatas têm chegado semanalmente, por R$ 350. “Fico desconfortável, mas é o preço. Não tem como a gente cobrar menos do que isso”, diz Julia Rettmann, sócia na loja, que durante a pandemia passou a ser só online.

Julia ainda tem clientes em uma fila de espera na expectativa de comprar a espécie, e ela própria teve que esperar. “Também ficamos em uma lista com o fornecedor.”

O interesse na planta surpreendeu até o produtor, Mareo Fujimaki, da flora que leva o seu sobrenome. Ele diz que buscava novas espécies para o portfólio da empresa quando conheceu a maculata.

“As pintas meio prateadas me chamaram muito a atenção. Ela tem um certo requinte, é mesmo uma planta muito especial”, conta.

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A muda mãe, também chamada matrizeiro, chegou ao Brasil no fim do ano passado, da Holanda, importante polo produtor de plantas ornamentais na Europa.

Agora, segundo Mareo, a Fujimaki está num esforço para aumentar a produção. Como o cultivo é novo, ainda existem ajustes sendo feitos. A produção das mudas, diz, é cara e demorada. “Estamos ampliando a capacidade. Cada planta leva 15 dias para produzir uma muda, então a gente não consegue alcançar volume”.

Semanalmente, 300 vasos de Begonia maculata da Flora Fujimaki ficam prontas para comercialização. Quando trouxe a espécie para o Brasil, Fujimaki não sabia que a febre pela planta já existia.

Há alguns anos, esse tipo de begônia começou a aparecer em sites europeus e americanos e em redes sociais como o Pinterest, que descreviam a maculata como uma planta originária do Brasil.

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E ela é mesmo endêmica da região Sudeste –e aqui mora o equívoco: a planta brasileira é a Begonia maculata “tipo” (denominação para a espécie encontrada na natureza), e não a variação exuberante que virou objeto de desejo.

Para o botânico Samuel Gonçalves, o erro de conceituação botânica contribuiu para a febre em torno dessa begônia.

“Fala-se que ela está praticamente extinta e que é muito rara de conseguir. Ficou a história de ela ser a planta original que teria praticamente sumido da natureza, mas é um engano. Ela não é nada da natureza, é uma planta que surgiu em coleções e foi multiplicada por ter grande valor comercial, ornamental”, afirma.

A identificação do cultivar “wightii” remonta a 1933, quando Karl Albert Fotsch registrou a espécie na publicação “As begônias, sua descrição, cultura, criação e história”.

A maculata “tipo” ainda é encontrada na natureza, segundo Samuel. A diferença é que a nativa brasileira tem frente e verso verdes. As bolinhas são menores e de um tom mais desbotado.

O aumento no interesse por plantas ornamentais não chega a ser um movimento novo. As florestas urbanas –ou urban jungles– viraram estilo de decoração, ganhando adeptos principalmente nas grandes cidades, onde a vida em apartamento responde ao apelo por mais verde e algum contato com a natureza.

Para Julia Rettmann, da Selvvva, o despertar do interesse por plantas gerou um efeito “bolsa de valores” sobre os preços: as variações cultivadas em viveiros surgem nos sites especializados e redes sociais e a febre começa a se espalhar.

Antes da pandemia, segundo ela, o objeto de desejo era a pilea, a planta chinesa da amizade. Agora, o hype começa a se formar em torno da Peperomia polybotrya, também conhecida pelo nome em inglês, raindrops. As folhas grossas são arredondadas, similares a um coração.

Leda, da Blumenfee, diz que a procura por espécies é muito influenciada pelo que circula nas redes sociais de colecionadores e entusiastas. “As pessoas me mandam fotos dizendo que querem essa ou aquela planta. O ruim é que tem muita coisa cheia de filtro. A pessoa chega aqui e nem reconhece a planta verdadeira”, afirma.

Entre as espécies que explodiram de preço, a Ficus lyrata foi outra para a qual a dona da Blumenfee chegou a pausar as vendas. No início do ano, ela vendia cada vaso com quatro hastes e cerca de 1,5 metro por R$ 150 –ela chegou a R$ 270 no fornecedor.

“Houve uma supervalorização de tudo. As pessoas ficaram em casa e viram que as plantas era um jeito fácil de decorar a casa”, diz Leda.

As informações são da FolhaPress




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