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MPF de Goiás abre inquérito contra sociedade científica que contraindicou ‘terapia precoce’ para Covid

O que muitos chamam de “tratamento precoce” para casos leves de Covid-19 consiste basicamente no uso de cloroquina ou hidroxicloroquina

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Foto: AFP
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Phillippe Watanabe
São Paulo, SP

O procurador-chefe do MPF (Ministério Público Federal) em Goiás, Ailton Benedito, requisitou informações, a partir de um inquérito civil, ao presidente da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) pelo fato de a entidade contraindicar o chamado “tratamento precoce” contra a Covid-19.

O que muitos chamam de “tratamento precoce” para casos leves de Covid-19 consiste basicamente no uso de cloroquina ou hidroxicloroquina. Apesar da farta documentação científica que mostra a ausência de eficácia do medicamento contra a doença, os medicamentos continuam sendo indicados por muitos, incluindo o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em maio deste ano, após determinação de Bolsonaro, o Ministério da Saúde ampliou a possibilidade de uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves do novo coronavírus. O próprio termo de consentimento para receber a cloroquina reconhece que não há evidências suficientes de eficácia e cita riscos de efeitos colaterais. O ministério também recomenda que pacientes procurem ajuda médica diante dos primeiros sintomas, o que é contestado por especialistas.

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No inquérito, Benedito cita um documento de 9 de dezembro da SBI que atualiza as recomendações contra a Covid-19. A entidade afirma que não recomenda “tratamento farmacológico precoce para Covid-19 com qualquer medicamento (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal, dióxido de cloro), porque os estudos clínicos randomizados com grupo controle existentes até o momento não mostraram benefício”.

“Ou seja, não existe comprovação científica de que esses medicamentos sejam eficazes contra a Covid-19.

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A recomendação da SBI não é novidade. Em julho, a entidade já afirmava que era urgente e necessário “que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da Covid-19”.

Também em julho, as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde), publicadas no respeitado periódico científico inglês BMJ, já afirmavam que os melhores estudos até aquele momento não observavam diferença de mortalidade entre os pacientes com Covid-19 que tomavam cloroquina e os que mantinham o tratamento padrão. A publicação alertava ainda sobre a possibilidade de eventos adversos.

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Recomendações semelhantes estão disponíveis no guia constantemente atualizado da OMS, que pode ser encontrado no site do BMJ destinado a drogas contra a Covid.

O NIH (Insitutos Nacionais de Saúde), dos EUA, que mantém, da mesma forma, um guia com recomendações atualizadas de tratamentos contra a Covid-19, também não indica cloroquina em nenhuma fase da doença.

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Desde então, mais estudos randomizados mostraram que essas drogas não têm efeito contra o novo coronavírus.

No inquérito, o procurador pede os estudos clínicos randomizados que não recomendam os tratamentos indicados no documento da associação e também uma “declaração de ausência de conflito de interesse do seu presidente [SBI] e diretores em consequência de relacionamento com empresas que estão desenvolvendo, produzindo ou comercializando medicamentos, vacinas, insumos” contra a Covid-19.

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No fim, o inquérito cita uma possível “propositura de ação civil pública” e diz ainda que a “falta injustificada ou o retardamento indevido implicará a responsabilidade de quem lhe der causa”.

Benedito costuma publicar em suas redes sociais textos com informações incorretas sobre Covid-19 e chama os imunizantes em desenvolvimento de “supostas vacinas”.

Em suas redes sociais ele também cita supostos benefícios do tratamento precoce e da hidroxicloroquina e questiona desde a eficácia das medidas de isolamento (mais especificamente lockdowns, que pouco ocorreram no Brasil) até os resultados da última eleição americana.

Benedito, inclusive, foi mencionado, já em maio, em reportagem “Apoio à cloroquina engaja mais no Twitter sustentado em desinformação” da agência de checagem Aos Fatos, por ser um dos perfis, junto a contas bolsonaristas, que mais faziam postagens e causavam engajamento sobre cloroquina.

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Recentemente, Benedito afirmou em sua rede social que estava processando a Aos Fatos por “violação a meus direitos fundamentais”.

Agências checadoras são outro alvo costumaz do procurador, que costuma usar com frequência a expressão “tiranetes” para se referir à mídia e a outros objetos de crítica. “Apenas tiranetes montados em retroescavadeira televisiva chantageariam a sociedade com ameaça de lockdown para obter coercitivamente a sua vacinação, sem a devida comprovação de segurança e eficácia, contra o #Covid19”, diz em um tweet de 3 de novembro.

“Os tiranetes do suposto ‘consenso científico’ precisam expandir a imaginação, porque suas pretensões genocidas estão muito manjadas por quem se vacinou contra o vírus da picaretagem assistindo ao filme ‘Guerra Mundial Z’, ainda que não tenha lido uma linha sequer de Maquiavel”, afirma em outro, de maio.

“Os tiranetes montados em retroescavadeira televisiva alegam proteger a saúde pública contra o #Covid19. Mas o vírus, que se mostrou tão eficiente em praticamente erradicar a gripe, deveria ser estudado como imunizante e terapia para diversas outras doenças. Nobel à vista.”, postou, no fim de outubro.

Benedito postou, em sua conta no Twitter, na manhã desta quinta (10), sobre a requisição de informações feita à SBI.

O procurador já havia tido destaque por outras falas erradas —mas, neste caso, historicamente equivocadas—, como a afirmação de que o nazismo seria um regime socialista.

A Folha tentou contato com o presidente da entidade, mas a reportagem foi informada que ele não daria entrevista e que estava em visitas a UTIs.

A Folha também procurou Benedito, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.

As informações são da FolhaPress




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