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Missões de paz: histórias do Brasil se projetam pelo mundo

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Em meados de 2010, a missão da Força Interina das Nações Unidas no Líbano completava 4 anos. Uma frota internacional garantia a segurança na costa do Líbano, comandada por um componente italiano que estava para se retirar. O oficial responsável pela missão de paz na sede do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas, em Nova York, precisava de um país substituto. Esse país deveria ter livre trânsito na região e um poderio bélico grande o bastante para comandar uma missão daquele porte. Na sala em frente a dele, estava o então coronel brasileiro Ivan Neiva Filho, oficial de planejamento do departamento. O oficial se levantou para perguntar ao coronel se interessava ao Brasil participar da missão. O Brasil permaneceu no comando da frota desde então.

A escolha do Brasil para comandar a missão não foi por acaso. O Brasil conta hoje com uma vasta experiência em missões de paz, já tendo enviado homens e mulheres em mais de 50 missões desse tipo. Os soldados e oficiais brasileiros são amplamente respeitados e reconhecidos pelo seu papel nessas missões, pela facilidade com que lidam com as populações locais e pela confiança conquistada dentro da comunidade internacional. As missões de paz também deixam profundas marcas naqueles que participam, além de servir como um excelente exercício de adestramento e como ferramenta de projeção de poder. 

Viatura da ONU no Haiti. Foto: Comando do Exército

General Paulo Uchoa- garantindo a paz no Suez

Em meados de 1956, uma profunda crise diplomática atingiu o Oriente Médio. Israel, França e Inglaterra competiam pelo controle da navegação no Canal de Suez contra a República Árabe Unida (atuais Síria e Egito) e a Palestina. A crise evoluiu para um confronto armado na Península do Sinai, e exigiu a intervenção das forças da Organização das Nações Unidas (ONU) para que a paz fosse restabelecida e a crise solucionada. O Brasil enviou um batalhão para fazer parte da intervenção.

Em 1965, o então primeiro tenente Paulo Uchoa se juntava ao 17º contingente do Batalhão Suez, atuando então na Faixa de Gaza. O batalhão cumpria a tarefa de impedir a travessia de israelenses e palestinos na fronteira entre os dois países. “Éramos o algodão entre os cristais”, afirma o veterano que hoje é general de divisão reformado.

Ao chegar em Gaza, o ainda jovem Uchoa recebeu o comando de um pelotão para patrulhar o último trecho de fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza ao norte da Península do Sinai. Uma vala de 60 metros de profundidade e largura separava israelenses e palestinos, estabelecendo uma linha de demarcação do armistício. Seu pelotão vigiava essa vala constantemente com torres de observação e patrulhas noturnas. “Nunca aconteceu de nós vermos israelenses atravessando para o lado palestino, mas já aconteceu muitas vezes de sabotadores palestinos atravessarem a vala para o lado israelense”.

Uchoa comandou esse pelotão por 6 meses, então foi transferido para comandar outro pelotão na Península do Sinai. Sua missão agora era patrulhar uma área de 300km² e garantir com que ninguém andasse armado na região. As torres de vigilância deram lugar a patrulhas motorizadas, e os palestinos deram lugar aos beduínos: uma antiga etnia de nômades árabes, com quem o tenente precisou cooperar ter sucesso na missão. “Acabei ficando amigo do sheik, que era o menos miserável entre os miseráveis beduínos”.

A temperatura do deserto foi uma das principais marcas da missão na memória do general. “Dormíamos com quatro cobertores e agasalho no calor de 30º, pois os dias eram tão quentes que essa temperatura parecia baixa”. Recorda também da relação amistosa dos soldados tanto com os palestinos quanto com os beduínos: “Desde o começo da operação eu me preocupava com como os soldados iam lidar com a população. Estavam sendo enviados para passar um ano em um lugar totalmente diferente do que já haviam visto, para lidar com pessoas que falavam línguas e seguiam religiões totalmente diferentes das nossas. Mas em apenas duas semanas por lá, já encontrei soldados em dia de folga ensinando os palestinos a tocar samba, tentando aprender árabe e trocando cigarros”.

Uchoa afirma que sua experiência comprova que o soldado brasileiro tem o melhor perfil para missões de paz: no serviço, são sérios e competentes. Fora do serviço, são amigáveis e comunicativos. “Em muitos exércitos, o soldado de missão de paz chega como um conquistador. Já o brasileiro, comporta-se como um hóspede disposto a ajudar.”

Reconstruindo o Moçambique

Em 1975, o Moçambique conquista sua independência de Portugal depois de uma sangrenta guerra colonial. Assume um governo de esquerda, mas com pouco apoio das potências socialistas de seu tempo, não conseguindo muita força política. Pouco a oeste dali, a então República da Rodésia lutava sua própria guerra civil, e o governo de direita se sentia ameaçado com o novo regime moçambicano. Ao sul, o regime do Apartheid acontecia na África do Sul, aliada do governo da Rodésia. Os dois incentivam um movimento de guerrilhas contra o novo governo moçambicano, fazendo ali sua guerra por procuração.

A guerra civil no Moçambique durou mais de uma década, levando os dois lados a exaustão. No fim, os dois lados estavam sem apoio externo: de um lado, a Rodésia não existia mais, tornando-se a atual República do Zimbabwe; e o Apartheid dava sinais de esgotamento na África do Sul. Do outro, a União Soviética havia caído e a China já não fornecia mais apoio ao governo. Em outubro de 1992, governo e guerrilheiros moçambicanos assinam um acordo de paz, dando fim à guerra.

No acordo, as duas facções decidem desmantelar suas forças armadas para que fosse criada uma nova força, sob a supervisão e tutela da ONU, com veteranos e simpatizantes dos dois lados. Uma missão de paz foi criada para essa tarefa: a ONUMOZ. Diversos países foram convidados para participar da missão, e inclusive o Brasil, que entra com um grande número de observadores militares. Entre eles, estava o então capitão Ivan Neiva Filho, hoje general de divisão e chefe do Escritório de Projetos Estratégicos do Exército.

Neiva foi enviado em 1994 para compôr o segundo contingente de brasileiros na missão de paz. Seu trabalho foi principalmente humanitário: diversas áreas de acantonamento foram espalhadas pelo país. Nelas, os soldados e guerrilheiros se entregavam e entregavam suas armas para as forças da ONU, passavam por um processo de cadastramento e ficavam acantonados até que conseguissem ser enviados de volta para suas famílias. Durante esse período, passavam por um processo educacional para que pudessem aprender a viver fora do meio militar, recebendo um amplo treinamento agrícola. Quando voltavam para casa, voltavam com ferramentas de agricultura e subsídios para se sustentar por alguns meses e seguir uma vida normal. As armas e munições ficavam com a ONU, que as inspecionava para saber se estavam em condições de equipar as novas forças armadas ou se deveriam ser destruídas.

A primeira tarefa do então capitão foi a de atuar como um dos responsáveis pela zona de acantonamento de Marrupa, no norte do país. Atuou durante meses, ficando responsável principalmente pela inspeção das armas entregues pelos soldados. Participou mais tarde também de missões de patrulha pelo interior do país em busca de armazéns abandonados, onde as duas facções guardavam armas e munições, e nos últimos meses supervisionou as eleições do novo governo.

O general recorda que a sua área de acantonamento foi uma das únicas no norte do Moçambique em que não houveram motins dos ex-soldados com seus responsáveis da ONU. Neiva associa isso à facilidade que tinha para se comunicar com a população, pois era o único que falava em português na sua equipe. Mas a principal marca da missão na sua memória foi ver a mudança de vida proporcionada aos ex combatentes. “Muitos deles não conheciam uma vida fora da guerra. Eram soldados desde crianças. Essa desmobilização era sempre interessante, eles saíam dali com uma nova vida. Ver os resultados da ajuda humanitária é algo sempre interessante”.

Diante do Haiti destruído

Em meados de 2001, o Haiti vivia uma profunda crise política e de segurança interna. O governo haitiano, com baixa legitimidade, enfrentava um grupo de guerrilheiros comandados pela oposição. A crise se perpetuou até 2004, quando o então presidente Jean-Baptiste Aristide renunciou, e o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas concluiu que não havia outra solução para o país que não fosse uma intervenção. Em 10 de setembro de 2004, foi fundada a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). O Brasil foi escolhido para comandar a operação.

A missão inicial das forças de paz era a de garantir as eleições no Haiti, mas outros problemas foram surgindo e que exigiram sua permanência. Facções criminosas tinham uma forte influência dentro do país considerado o mais pobre da América Latina, que também foi alvo de desastres naturais durante esses anos. Além do terremoto de 2010, que deixou centenas de milhares de mortos pelo país, o Haiti foi atingido em 2016 pelo furacão Matthew, com mais de 1000 fatalidades. Nesse mesmo ano, chegavam ao Haiti o 1º tenente Marcio Rogerio Barbosa e o soldado Hiago Barreira para compor o 24º contingente do Batalhão Brasileiro de Força de Paz (BRABAT).

Rogerio serviu como assistente e secretário do comandante do BRABAT, o então coronel Sebastião Roberto. Atuou em todas as missões em que o comandante estivesse envolvido. Já Barreira era armeiro da Polícia do Exército, e atuou principalmente escoltando autoridades brasileiras que chegavam no Haiti.

O furacão Matthew atingiu o Haiti poucos meses depois da chegada do 24º Contingente. O foco da operação mudou totalmente em função do furacão, que deixou marcas profundas no país. “O nosso contingente, apesar de todas as atribuições que a MINUSTAH tinha naquele momento, precisou voltar suas atividades à ação humanitária”, afirma o tenente.

O tenente ressalta que, assim como nas demais missões de paz, os soldados brasileiros tiveram um excelente relacionamento com a população total. “O exército brasileiro, como um todo, era muito bem visto pelos haitianos, principalmente pelo trabalho que desempenhamos ao longo desses 13 anos de missão. Era um trabalho extremamente respeitado não apenas pelos haitianos, mas também por todos os militares de outros países que estavam por lá.”. Soldado Barreira também recorda “os haitianos eram muito respeitosos, gostavam muito dos soldados brasileiros”. Rogerio acredita que o soldado brasileiro de missão de paz possui um carisma diferenciado das outras forças do mundo, marcado por uma relação de amizade e camaradagem com as populações locais.

Soldados brasileiros fornecendo ajuda humanitária no Haiti. Foto: Comando do Exército

O Brasil mostrando ao mundo seu valor

As missões de paz não representam apenas uma expectativa de melhora nas condições de vida dos países necessitados, como também são uma oportunidade do Brasil mostrar ao mundo a competência de seus soldados e a sua capacidade de resolução de problemas. “As missões de paz são um senhor instrumento de projeção de poder, de projeção da bandeira brasileira”, afirma o general Neiva. O general afirma também que essas missões permitem acumular experiência em adestramento e capacitação de tropa, planejamento e emprego de tropa, apoio logístico e diversos setores operacionais.

Tenente Rogerio fala também das marcas das missões de paz no próprio soldado. “É uma experiência única, é motivo de orgulho em todos os brasileiros. Eu tive a oportunidade de representar meu país, levar minha bandeira, ajudar um povo necessitado”. Barreira reforça “foi uma missão muito importante na minha vida. Eu tinha uma vontade muito grande de conhecer outro país, e pude ver como é um país que passa necessidade. Tenho orgulho de poder ter ajudado um povo que passava por tanta dificuldade”.

Por Lucas Neiva com colaboração de João Carlos Teles
Jornal de Brasília/Agência de Notícias do UniCeub


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