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Ministério da Agricultura desqualifica em nota guia que orienta escolha de alimentos saudáveis

Quanto mais processados, mais devem ser evitados, de acordo com a orientação do guia, que conta com endosso de entidades como OMS e Unicef

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Publicado

em

Ministra da Agricultura, Tereza Cristina
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Gabriel Alves
São Paulo, SP

Uma nota técnica do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) encaminhada ao Ministério da Saúde tenta desqualificar e reformular o Guia Alimentar para a População Brasileira, elogiado por cientistas e profissionais de saúde do país e de diversas partes do mundo.

O guia orienta que a escolha de alimentos seja baseada na chamada classificação Nova, que agrupa os produtos de acordo com o nível de processamento. Quanto mais processados, mais devem ser evitados, de acordo com a orientação do guia, que conta com endosso de entidades como OMS e Unicef.

Para o Mapa, “o guia brasileiro é considerado um dos piores ..[e] a recomendação mais forte nesse momento é a imediata retirada das menções a classificação Nova no atual guia alimentar.”

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Entre os exemplos de alimentos ultraprocessados estão salgadinhos de pacote, refrigerantes, biscoitos industrializados e alimentos prontos congelados, que passam por muitas transformações até assumirem a forma final -diferente do que acontece com alimentos processados (como queijos e pães artesanais), que se valem de poucos ingredientes e processos, e minimamente processados (como vegetais congelados), que praticamente não passam por transformações.

Assinado por Eduardo Mello Mazzoleni e Luís Eduardo Pacifici Rangel, ambos da Secretaria de Política Agrícola do ministério, o documento afirma que a análise do Guia “revela uma necessidade de urgente de sua revisão”.

“Embora declare ser importante ampliar a autonomia, o Guia induz a população brasileira a uma limitação […] das escolhas alimentares. Quando um documento oficial do Governo Brasileiro orienta ‘evite alimentos ultraprocessados’, está generalizando algo que é muito diversificado […] existem alimentos que são classificados nesta ‘categoria ultraprocessados’ e que são feitos industrialmente de forma semelhante a preparações culinárias caseiras.”

No documento, afirma-se que a regra de ouro, de preferir alimentos in natura e minimamente processados, pode ser perigosa.

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“O Guia não orienta que o uso apenas de alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias em consumo excessivo está associado a doenças do coração, obesidade e outras doenças crônicas, de forma semelhante às outras categorias de alimentos.”

Outra questão levantada pelo Mapa é sobre a orientação de olhar os ingredientes de embalagens de alimentos. Se muito numerosos e desconhecidos, a recomendação seria evitá-los.

“Existem normas para o uso de ingredientes nos alimentos e o poder público é responsável pelo seu controle. O consumidor tem o acesso a estas informações, que constam dos rótulos dos alimentos, para tomar suas decisões”, escrevem Mazzoleni e Rangel.

Em resposta à nota técnica, o Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde), da USP, protagonista na construção do Guia, que teve sua última edição publicada em 2014, critica a nota técnica e defende a classificação Nova.

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“Além de amparar todas as suas afirmações sobre a suposta incoerência da classificação Nova e sobre a suposta inocuidade dos alimentos ultraprocessados em duas referências que não se referem à classificação e não avaliam alimentos ultraprocessados, a nota técnica omite a vasta literatura científica nacional e internacional acumulada desde 2009, quando a classificação e o conceito de alimentos ultraprocessados foram propostos pelo Nupens/USP”, afirmam em nota.

Na contagem dos pesquisadores, já são mais de 400 estudos que se baseiam na classificação, além de resultados positivos de revisões sistemáticas (modalidade de pesquisa que analisa o somatório do conjunto de dados de várias publicações).

Para eles há uma “associação inequívoca” entre consumo de alimentos ultraprocessados com o risco de doenças como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e AVC.

De fato, uma pesquisa publicada em 2019 feita com seres humanos mostrou que uma dieta com base em alimentos processados acelera o ganho de peso. Outros estudos populacionais, que analisam dados da dieta de milhares de indivíduos, também apontam nessa direção.

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A investida do Mapa chocou nutricionistas, que têm se organizado para dar uma resposta em defesa da publicação.

“Até hoje ele é bastante citado por órgãos internacionais como um dos melhores guias alimentares do mundo. Ele norteia condutas nutricionais e médicas. O que é posto na nota técnica com certeza tem notas de interesse políticos e de outros setores. É preciso ter muita cautela”, diz Aline de Piano Ganen, coordenadora do mestrado em nutrição do Centro Universitário São Camilo.

Pesquisadores atribuem as tentativas de mudança a pressões da indústria de alimentos.

O Conselho Regional de Nutricionista da 3ª região (SP e MS) publicou em nota que “o Guia apresenta um conjunto de informações, análises, recomendações e orientações sobre escolha, combinação, preparo e consumo de alimentos que objetivam promover a saúde de pessoas, famílias e comunidades e da sociedade brasileira como um todo, além de reforçar que uma alimentação adequada e saudável precisa ser balanceada, deve priorizar os alimentos in natura e minimamente processados”.

Para a entidade, as recomendações “valorizam a maior interação social e o prazer que a alimentação proporciona ao indivíduo”.

Quanto à menção de o guia brasileiro ser considerado um dos piores do mundo, “assim não pensam organismos técnicos das Nações Unidas, como a FAO, a OMS e o Unicef, que consideram o Guia brasileiro um exemplo a ser seguido. Assim não pensam os Ministérios da Saúde do Canadá, da França, do Uruguai, do Peru e do Equador, que têm seus guias alimentares e suas políticas de alimentação e nutrição inspirados no Brasil”, diz a nota do Nupens.

“Diante da fragilidade e inconsistência dos argumentos apresentados na nota técnica do Mapa e da absurda e desrespeitosa avaliação do Guia Alimentar brasileiro, confiamos que o Ministério da Saúde e a sociedade brasileira saberão responder à altura o que se configura como um descabido ataque à saúde e à segurança alimentar e nutricional do nosso povo”, encerram os cientistas.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde, responsável pela publicação do guia, não se manifestou até a publicação desta reportagem. Procurada, a Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos) ainda não se manifestou.

As informações são da FolhaPress




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