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Com saúde básica, cidades do Brasil conseguem frear novo coronavírus

Entre as iniciativas adotadas durante a emergência sanitária, há também monitoramento de doentes crônicos, principal grupo de risco para complicações

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Claudia Collucci
São Paulo, SP

Com dores de cabeça e no corpo, perda do olfato e do paladar, vômito e febre, a secretária Ariana dos Santos, 27, de São Caetano do Sul, ligou para um 0800. Foi orientada sobre o que deveria fazer e recebeu em casa um kit de autocoleta de secreções da garganta e do nariz para o teste da Covid-19.
Em 48 horas, foi avisada que o resultado deu positivo e teve que se isolar por 14 dias. Durante o período, esteve monitorada a distância por profissionais da saúde.

“Como tinha um número de telefone para acionar caso tivesse qualquer problema, fiquei mais tranquila. Me recuperei em casa, tive sorte”, diz.

O teste domiciliar feito pela Prefeitura de São Caetano do Sul (SP), em parceria com a universidade municipal (USCS), é um dos exemplos de cuidados oferecidos na atenção primária à saúde (APS), a porta de entrada do SUS.

Entre as iniciativas adotadas durante a emergência sanitária, há também monitoramento de doentes crônicos, principal grupo de risco para complicações e morte pela infecção. O agravamento dessas condições se devem a uma sobrecarga do SUS após a pandemia, a chamada terceira onda.

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Mais de mil experiências em atenção primária estão concorrendo a uma premiação da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) e do Ministério da Saúde. As inscrições se encerram no próximo dia 15.

Em São Caetano, há cinco programas de testagem, entre eles, o domiciliar que atendeu Ariana, um em sistema de drive-thru, em que pacientes fazem o teste no carro, e um outro em bloqueios de trânsito (barreiras sanitárias). Ao todo, foram testadas mais de 38 mil pessoas, o que representa 24% da população.

No caso de resultado positivo na testagem domiciliar, por exemplo, um médico da atenção primária vai até a casa do paciente, faz avaliação clínica e mede o nível de oxigênio no sangue (oximetria).
“Tivemos casos encaminhados direto para internação”, diz a secretária municipal da Saúde, Regina Zetone.

Nos bloqueios de trânsito, é aferida a temperatura de motoristas e passageiros. Quem tiver febre e alteração nos níveis de oxigênio é submetido ao teste rápido no local. Caso o resultado seja positivo, o morador é atendido em uma carreta ao lado do Hospital Municipal de Emergências.

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São Caetano também é o primeiro município do Brasil a testar idosos, inclusive os que vivem em asilos. A cidade possui um dos maiores índices de longevidade do país (78 anos) e tem 21% da população de idosos (cerca de 34 mil).

Para Zetone, o cuidado ofertado pela atenção primária e os testes em massa são os responsáveis pelas baixas taxas de letalidade e de ocupação de UTIs pela Covid-19 (que chegou a 60% e hoje está em 28%).

Até o último dia 30, a cidade tinha 1.924 casos confirmados, com uma taxa de letalidade de 4,4% (86 mortos). “Pelo perfil mais envelhecido da nossa população, poderia se esperar um cenário muito pior”, diz a secretária.

As unidades básicas de saúde permaneceram abertas, mas com fluxos diferentes para quem tiver sintomas gripais. Para não terem que ir até as unidades de saúde, idosos receberam seus medicamentos em casa e tiveram a validade de suas receitas ampliadas.

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Em Belo Horizonte (MG), também houve uma iniciativa de manter o cuidado com doentes crônicos, como diabéticos e hipertensos.

Segundo a médica de família e comunidade Juliana Santos, da gerência da APS da Secretaria Municipal de Saúde, desde o início da pandemia, em março, os usuários deixaram de procurar por atendimentos nas unidades de saúde. Por isso, foi elaborada uma lista com os dados dos que tinham condições crônicas mais complexas. Esse material foi distribuído a todas as equipes de saúde da família.

“Se o usuário estiver dentro de um período de controle adequado é oferecido para ele o teleatendimento. Se não estiver controlado ou se estiver há mais de três meses sem consulta, a equipe chama para consulta presencial”, explica.

Foram agregados à listagem os usuários acamados, os egressos de hospitais e os com uso de medicamentos controlados.

De acordo com Maria José Evangelista, assessora técnica do Conass, há uma preocupação com a terceira onda que virá pós-pandemia.

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“Em muitos municípios, está havendo um descontrole de quem tem hipertensão, diabetes, dos idosos que frequentam as unidades”, disse ela em debate online do Portal da Inovação na Gestão do SUS.

O médico Renato Tasca, coordenador de sistemas e serviços de saúde da Opas no Brasil, lembra que experiências de países que fecharam a APS para colocar os profissionais de saúde nos hospitais de campanha, como a Itália e a Espanha, foram dramáticas.

Elas causaram a interrupção do cuidado às pessoas com sintomas leves de Covid-19 e também àquelas que dependem da atenção primária.

Quatro dias após confirmar o primeiro caso de Covid-19, a prefeitura de Florianópolis(SC) lançou um serviço de atendimento clínico por telefone. As equipes de saúde da família receberam celulares para atender os usuários e responder mensagens pela WhatsApp.

Em abril, primeiro mês do serviço, foram mais de 40 mil atendimentos. Desses, ao menos 7.000 eram pessoas com sintomas gripais e que deixaram de circular pela cidade em busca de consulta presencial.

No entanto, o atendimento por telefone não fechou as portas das unidades de saúde. Segundo João Silveira gerente de atenção primária da Secretaria da Saúde de Florianópolis, foram criados fluxos diferenciados, com salas específicas para pacientes com sintomas respiratórios.

Ao receber e triar os casos leves na atenção primária, a pressão sobre os hospitais é reduzida. O sucesso não aparece nos indicadores, diz Filipe Perini, gerente de integração assistencial da secretaria.

“Ninguém diz os leitos de UTI que a APS evitou, ninguém diz as mortes que ela evitou, justamente porque ela conseguiu detectar os casos de uma maneira rápida ou precoce”, afirma.

Em Teresina (PI), a prefeitura reservou 23 unidades básicas de saúde, de um total de 90, para atender aos pacientes suspeitos e confirmados de Covid-19. Nas unidades e nas visitas domiciliares são testadas cerca de mil pessoas por dia.

Cerca de 27% dos testes são positivos. Os dados são enviados para um sistema que importa a lista de casos confirmados das redes pública e privada.

A relação dos pacientes é enviada para um grupo de enfermeiros, que monitora os sintomáticos e identifica os contatos a serem testados.

A capital do Piauí trabalha com um número de Whatsapp em que é possível agendar o teste de Covid-19. “A gente conseguiu evitar a circulação de pessoas possivelmente infectadas e o agravamento do quadro da infecção”, diz Andréia Sena, da diretoria de atenção básica da Fundação Municipal de Saúde (FMS)

Na clínica da família Ana Maria Conceição dos Santos Correia, na zona norte do Rio de Janeiro, um profissional da saúde fica na parte externa da unidade e direciona para uma sala de isolamento os usuários com sintomas respiratórios.

Segundo o médico de família e comunidade Marcio Silva, os suspeitos de Covid-19 são cadastrados em uma planilha de telemonitoramento e localizados no mapa do bairro. “Se a pessoa piora, a gente a inclui na rota de visita domiciliar ou a encaminha para uma UPA”, conta.

Com a ferramenta de georreferenciamento, os profissionais elaboraram estratégias diferentes de acordo com o perfil de usuários, de vídeos sobre contraceptivos para as redes sociais à arrecadação de alimentos para as famílias mais vulneráveis.

As informações são da FolhaPress


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